Quando falamos em saúde mental, um diagnóstico impreciso raramente
representa apenas um erro técnico. Na prática, ele pode significar meses ou até
anos de sofrimento prolongado, tratamentos ineficazes, efeitos colaterais
desnecessários e custos financeiros cada vez maiores para pacientes, famílias e
para o próprio sistema de saúde. Em transtornos como depressão, ansiedade,
bipolaridade e TDAH, sintomas muitas vezes se sobrepõem, o que torna a
avaliação clínica mais desafiadora e reforça a importância de uma abordagem
cuidadosa e individualizada.
Na rotina clínica, vejo com frequência pacientes que passaram por
uma longa trajetória até encontrar um tratamento eficaz. Muitos já testaram
diferentes medicamentos, enfrentaram efeitos adversos importantes e acumulam
frustração após sucessivas tentativas sem resposta satisfatória. Esse processo
impacta não apenas a evolução clínica, mas também a adesão ao tratamento.
Quando uma pessoa perde a confiança de que pode melhorar, o risco de abandono
terapêutico aumenta significativamente.
Esse modelo de tratamento, historicamente baseado em tentativa e
erro, ainda é muito presente na saúde mental. Embora tenha sido por muito tempo
a única alternativa disponível, hoje sabemos que ele tem limitações
importantes. Estudos mostram que até 50% dos pacientes não respondem ao
primeiro medicamento prescrito. Em muitos casos, cada troca exige semanas ou
meses até que seja possível avaliar se houve resposta clínica, prolongando o
sofrimento e aumentando os custos com consultas, exames, internações e
atendimentos de urgência.
Ao mesmo tempo, a ciência vem ampliando nossa compreensão sobre
por que tratamentos semelhantes geram respostas tão diferentes entre
indivíduos. Um dos fatores está na biologia de cada paciente. Hoje sabemos que
variações genéticas podem influenciar diretamente a forma como o organismo
metaboliza e responde a medicamentos, afetando tanto a eficácia quanto o risco
de efeitos colaterais. Isso ajuda a explicar por que um medicamento pode
funcionar muito bem para uma pessoa e falhar completamente para outra, mesmo
diante do mesmo diagnóstico.
É nesse contexto que a Medicina de Precisão ganha cada vez mais
relevância. E é importante dizer, isso não é novidade. A farmacogenética já é
um campo consolidado, com décadas de pesquisa e milhares de estudos científicos
publicados. Seu papel é oferecer informações adicionais para tornar decisões
terapêuticas mais assertivas, considerando a individualidade biológica de cada
paciente. Ela não substitui a avaliação clínica, mas pode ajudar a reduzir
incertezas, evitar trocas sucessivas de medicação e tornar o tratamento mais
rápido, seguro e eficiente.
Na saúde mental, avançar significa ir além de protocolos generalistas e reconhecer que cada paciente responde de forma única ao tratamento. Diagnóstico correto, acompanhamento qualificado e abordagens personalizadas não apenas aumentam as chances de recuperação, mas também reduzem custos emocionais, sociais e financeiros. Saúde mental não deveria ser conduzida como uma loteria. Quanto mais cedo entendermos isso, mais próximos estaremos de um cuidado verdadeiramente preciso, humano e eficaz.
Guido Boabaid May - Psiquiatra há 32 anos, com mais de 115 mil consultas realizadas e mais de 1.200 pacientes em tratamento guiado por teste farmacogenético. Pioneiro da farmacogenética no Brasil, o Dr. Guido é fundador e CEO da GnTech, empresa de biotecnologia pioneira e líder em farmacogenética no Brasil. Com mais de 30 mil testes farmacogenéticos realizados sob sua liderança, a empresa é detentora do maior banco de dados de farmacogenética sobre a população brasileira. Boabaid também atua como médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein. É palestrante e autor do livro "Onde Foi Parar Minha Alegria?”, publicado em 2025 pela editora Buzz.
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