sexta-feira, 5 de junho de 2026

Pesquisa identifica quatro subtipos com origens genéticas para o autismo


Estágio da disfunção genética determina extensão do dano neurológico — e o tempo perdido na intervenção não tem retorno, diz especialista


Um estudo recente publicado na revista científica Nature Genetics desafia essa visão: ao cruzar dados clínicos e genéticos de mais de 5 mil crianças com autismo, pesquisadores identificaram quatro perfis clínico-genéticos recorrentes do Transtorno do Espectro Autista (TEA), cada um com comportamentos, trajetórias de desenvolvimento e bases genéticas próprias. Os autores ressaltam que os achados representam padrões consistentes observados na população estudada — e não uma nova classificação oficial do TEA.
 

Os quatro perfis identificados pelo estudo:

  • Social/Comportamental (37%): crianças com dificuldades marcantes em comunicação social e comportamentos repetitivos, com alta incidência de TDAH, ansiedade e depressão. As variantes genéticas associadas a esse perfil estão relacionadas a genes com maior expressão na fase pós-natal.
  • Desafios Moderados (34%): perfil com sintomas autistas presentes, mas de menor severidade geral. Associado a variantes genéticas raras em genes de menor restrição evolutiva.
  • TEA Misto com Atraso de Desenvolvimento (19%): crianças com atrasos significativos em marcos como fala e marcha, diagnóstico mais precoce e forte presença de variantes genéticas herdadas. Os genes relacionados a esse perfil apresentam maior expressão na fase fetal.
  • Amplamente Afetado (10%): maior comprometimento global, com alta concentração de mutações genéticas de novo e alto impacto. Inclui maior incidência de deficiência intelectual e diagnósticos associados como a síndrome do X frágil. 

Os padrões foram replicados em uma segunda coorte independente, com alta correlação, o que confere solidez aos achados. 

Para o Dr. Tarcizio Brito, neuropediatra da Dasa e coordenador da Clínica TEA do Delboni e Lavoisier, marcas da Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil, o estudo confirma o que especialistas experientes já percebem na prática clínica — mas agora com evidência científica robusta. 

“Duas crianças com diagnóstico de autismo podem ser completamente diferentes entre si. Esse estudo mostra que essas diferenças não são aleatórias: elas têm uma base genética e um padrão reconhecível. Isso muda a forma como pensamos o diagnóstico e o tratamento”, afirma o especialista. 

Outro achado relevante do estudo é que o timing genético importa: crianças do perfil com maior atraso de desenvolvimento carregam variantes em genes relacionados ao neurodesenvolvimento com maior expressão na fase fetal. Isso explicaria por que o diagnóstico nesse grupo chega mais cedo e os marcos de desenvolvimento, como falar e andar, demoram mais. 

“Quando a disfunção genética acontece nos estágios mais precoces da formação cerebral, o impacto tende a ser mais amplo. Isso reforça algo que já sabemos: quanto mais cedo a intervenção, melhor. Cada janela terapêutica perdida é tempo que não recuperamos”, reforça o Dr. Tarcizio Brito.
 

Diagnóstico e cuidado integrado

O diagnóstico do TEA permanece essencialmente clínico — não existe exame isolado que o confirme. O processo é multidisciplinar e envolve escalas padronizadas como o ADOS-2, avaliação neuropsicológica e, em casos com atrasos no desenvolvimento ou histórico familiar, exames complementares como o sequenciamento de exoma, que podem ajudar a identificar variantes genéticas associadas ao quadro, mas não substituem a avaliação clínica.

O acompanhamento depois do diagnóstico é igualmente complexo. Neuropediatras, psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais precisam atuar em conjunto, compartilhando informações e ajustando condutas à medida que a criança se desenvolve. 

Atualmente, existem espaços especializados que fazem esse trabalho de forma integrada. É o caso da Clínica TEA, presente nas unidades Lavoisier e Delboni, e do Espaço TEA, no Alta Diagnósticos — estruturas que reúnem especialistas e oferecem, além do atendimento clínico, suporte às famílias e orientação para o ambiente escolar. 

“O diagnóstico não é uma etiqueta, ele é o começo de uma jornada de compreensão. Nossa responsabilidade é acolher a família, explicar o que aquilo significa e já começar a construir um plano de cuidado individualizado”, explica o Dr. Tarcizio Brito. 

Saber o perfil clínico-genético de uma criança pode orientar quais intervenções têm mais chance de contribuir e em qual momento agir com mais urgência. Por ora, o que a ciência já confirma é que quanto mais cedo o diagnóstico e mais completo o suporte, maiores as chances de uma trajetória de desenvolvimento mais rica. Para as famílias, isso significa uma coisa simples: na dúvida, não espere.

 

Referência:

1 - Litman, A. et al. Decomposition of phenotypic heterogeneity in autism reveals underlying genetic programs. Nature Genetics, v. 57, n. 7, p. 1611–1619, 2025.

 

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