A notícia de um feminicídio é tratada como um ponto final trágico,
uma fatalidade que choca a sociedade pela sua brutalidade. No entanto, para
quem atua na linha de frente do Direito e das políticas públicas, o crime é
apenas o desfecho visível de uma sucessão de falhas invisíveis. O feminicídio
não começa no ato de violência física; ele começa muito antes, no silêncio das
instituições e na ausência de uma prevenção que chegue antes da agressão.
Durante minha trajetória, especialmente na
Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo e no atendimento no
Instituto Akamine,
percebi um padrão incômodo: o sistema está desenhado para reagir, mas raramente
para antecipar. Ainda hoje, lutamos contra a herança cultural de termos como
"crime passional", uma expressão que tenta disfarçar o controle sob a
máscara da emoção súbita e repentina.
O feminicídio é uma morte anunciada e, por definição, evitável.
Dados do Centro Integrado Mulher Segura corroboram essa tese: das mais de
1.500 vítimas registradas no último ano, menos de 500 possuíam Boletim de
Ocorrência. Mais alarmante ainda é o tempo médio de 33 meses entre o
primeiro registro policial e o desfecho fatal. Ou seja, o Estado dispõe de
quase três anos para intervir e salvar essa vida, mas falha em algum elo da
corrente de proteção.
Um dos gargalos mais graves está na capilaridade e no
funcionamento da rede de atendimento. A teoria da lei é robusta, mas a prática
nas delegacias ainda é um vácuo de proteção. A falta de unidades especializadas
que funcionem em horários críticos e a carência de um atendimento humanizado
fazem com que a mulher, ao buscar ajuda, sinta que o sistema não tem estrutura
para acolhê-la. Quando o acesso à Justiça é difícil ou geograficamente
distante, o Estado emite um sinal involuntário de desamparo.
Mas para além disso, enfrentamos uma barreira educacional, na qual
muitas mulheres sequer sabem como ou onde procurar ajuda. A violência de gênero
e os mecanismos de denúncia ainda são temas pouco difundidos e esse
desconhecimento não é um descuido da vítima, mas uma omissão do poder público
em promover a segurança básica através da informação. Sem saber que existem
casas de apoio ou auxílios específicos, a mulher permanece no raio de alcance
do agressor por acreditar que não existem alternativas.
O grande gargalo que observamos é que atuar apenas no campo
jurídico é chegar tarde demais. A verdadeira prevenção exige a criação de
"rotas de saída" que envolvam informação e acolhimento antes que o
ciclo chegue à violência física. Ou seja, precisamos mudar o foco do desfecho
para a origem.
Enquanto a rede de proteção for fragmentada, as delegacias forem
insuficientes e a informação não chegar à ponta, continuaremos enxugando gelo e
noticiando o luto. Proteger a mulher exige uma arquitetura de prevenção que
garanta que o Estado se faça presente através do conhecimento e da estrutura
física acessível, chegando antes do crime e não apenas para registrar a
ocorrência.
Daniele
Akamine, - advogada, membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP e especialista
em políticas públicas. Foi Coordenadora de Políticas para Mulheres da cidade de
São Paulo e é referência na articulação de estratégias de enfrentamento à
violência de gênero.
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