A Copa do Mundo costuma ser um período de festa, integração e entusiasmo para milhões de brasileiros. No entanto, para muitas crianças com autismo e TDAH, o evento pode representar uma fonte de ansiedade e sobrecarga sensorial que passa despercebida pela maioria das pessoas.
Segundo a neuropsicóloga Bárbara Calmeto, diretora do Autonomia Instituto, desafios vão muito além dos fogos de artifício e das buzinas que costumam marcar as comemorações. "Quando falamos de crianças neurodivergentes, precisamos olhar para o conjunto da experiência. A Copa altera rotinas, aumenta a expectativa, expõe a criança a ambientes mais agitados e gera uma quantidade muito maior de estímulos do que ela está acostumada a processar", explica.
A especialista destaca que a antecipação dos jogos também pode provocar ansiedade. "Muitas crianças têm necessidade de previsibilidade para se sentirem seguras. Quando há uma movimentação diferente na escola, em casa ou na comunidade, elas podem apresentar irritabilidade, inquietação e dificuldade de concentração dias antes das partidas", afirma.
No caso de crianças com sensibilidade sensorial, os sons intensos podem ser especialmente desconfortáveis. "Fogos, rojões, gritos e buzinas não são apenas barulhos altos para algumas crianças. Eles podem ser percebidos como estímulos extremamente invasivos, capazes de gerar sofrimento real, crises de ansiedade e até episódios de desregulação emocional", observa Bárbara.
Ela ressalta que o apoio da família faz toda a diferença nesse período. "Preparar a criança para o que vai acontecer, explicar que haverá jogos e possíveis comemorações, além de criar estratégias de proteção sensorial, ajuda a reduzir a insegurança e o impacto desses estímulos", orienta.
Entre as medidas que podem ser adotadas estão o uso de abafadores de ruído, a criação de um ambiente tranquilo para momentos de descanso e o respeito aos limites individuais da criança. "O objetivo não é afastar a criança da experiência coletiva, mas garantir que ela possa participar de forma confortável e segura, respeitando suas necessidades", conclui a neuropsicóloga.
Confira abaixo 10 dicas que a neuropsicóloga Bárbara
Calmeto reuniu para ajudar pais e responsáveis a atravessar esse período de
forma mais tranquila:
1. Antecipe o que vai acontecer
Explique à criança, com antecedência, quando serão os
jogos e que pode haver comemorações, buzinas, fogos ou reuniões familiares. A
previsibilidade reduz a ansiedade.
2. Mantenha a rotina sempre que possível
Mesmo em dias de partida, procure preservar horários de
alimentação, sono, estudos e atividades habituais. A rotina funciona como um
fator de segurança emocional.
3. Crie um espaço de refúgio
Reserve um ambiente silencioso da casa para que a criança
possa se retirar caso se sinta sobrecarregada pelos estímulos.
4. Utilize recursos de proteção auditiva
Abafadores de ruído ou fones de ouvido podem ser aliados
importantes para crianças com hipersensibilidade a sons intensos.
5. Observe os sinais de desconforto
Irritabilidade, agitação, isolamento, choro ou aumento de
comportamentos repetitivos podem indicar que a criança está enfrentando uma
sobrecarga sensorial.
6. Evite a exposição prolongada a ambientes muito
estimulantes
Se houver festas ou reuniões, faça pausas regulares para
que a criança possa descansar e se reorganizar emocionalmente.
7. Valide os sentimentos da criança
Em vez de minimizar o desconforto, reconheça o que ela
está sentindo. Frases como "eu entendo que esse barulho está te
incomodando" ajudam a criança a se sentir acolhida.
8. Não force a participação nas comemorações
Nem toda criança vai querer assistir aos jogos ou
participar das festas. Respeitar seus limites é fundamental para evitar
situações de estresse.
9. Tenha um plano para momentos de crise
Identifique previamente estratégias que costumam
funcionar, como um objeto de conforto, exercícios de respiração, um ambiente
mais calmo ou atividades reguladoras.
10. Lembre-se de que cada criança é única
O que funciona para uma criança pode não funcionar para
outra. O mais importante é observar suas necessidades individuais e adaptar o
ambiente para que ela se sinta segura.
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