Fascínio por séries,
artistas e hobbies é comum entre crianças e adolescentes, mas o excesso pode
indicar condições como o TDHA e o autismo
Magnific
O termo “hiperfoco” ganhou popularidade nas redes
sociais nos últimos anos e passou a ser usado de forma ampla para descrever
qualquer interesse intenso ou entusiasmo momentâneo por um assunto. Expressões
como “estou em hiperfoco nessa série”, “meu hiperfoco agora é academia” se
tornaram comuns no ambiente digital. Mas segundo especialistas, gostar muito de
um tema, ou passar horas no fim de semana vendo vídeos sobre um assunto
específico não configura necessariamente hiperfoco clínico.
Ter interesse por determinada coisa ou
assunto é normal
O interesse mais direcionado por determinados
assuntos costuma começar a aparecer ainda na primeira infância, geralmente
entre os 2 e 6 anos, embora isso varie bastante de criança para criança. Nessa
fase, é comum surgirem fascínios intensos e repetitivos por temas específicos,
como dinossauros, trens, espaço, animais, mapas, números, princesas,
super-heróis, músicas, entre outros.
Segundo o psicólogo e orientador educacional do Brazilian International School – BIS, de São Paulo (SP),
Marcelo Freitas, isso acontece por uma combinação de fatores ligados ao
desenvolvimento cerebral, emocional e social. “Conforme a criança cresce, ela
passa a reconhecer padrões, criar preferências, exercitar a memória e buscar
atividades que gerem prazer e previsibilidade. O cérebro infantil também é naturalmente
muito curioso. “Quando algo desperta encantamento ou oferece recompensas
emocionais e cognitivas, a tendência é que a criança queira repetir aquela
experiência várias vezes. Isto pode ser percebido no dia a dia: a criança vê um
mesmo desenho diversas vezes, escuta a mesma música, mesmo sabendo o enredo”,
explica.
Na idade escolar, especialmente entre 6 e 10
anos, esses interesses costumam ganhar mais profundidade. A criança já consegue
acumular informações, fazer conexões mais complexas e desenvolver senso de identidade
(‘eu gosto disso’, ‘quero aprender mais sobre aquilo’). “Em muitos casos, esses
interesses ajudam no desenvolvimento da linguagem, da criatividade, da
autonomia e até da socialização”, acrescenta Freitas.
Já na adolescência, é bastante comum que jovens
desenvolvam interesses intensos por artistas, bandas, séries, jogos, esportes
ou influenciadores. Colecionar álbuns, acompanhar entrevistas, decorar
informações, participar de fã-clubes e consumir conteúdos relacionados àquilo
faz parte do processo típico de construção de identidade, pertencimento social
e expressão emocional dessa fase da vida.
“A adolescência é marcada por mudanças
cognitivas e emocionais importantes, além de uma busca mais intensa por
referências, grupos de identificação e interesses que ajudem o jovem a definir
gostos, valores e personalidade. Ter assuntos favoritos faz parte do
desenvolvimento típico. Por isso, é natural que determinados temas ocupem
grande espaço no cotidiano dos adolescentes durante esse período”, afirma a school
counselor Alessandra Mafra Ribeiro, da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP). “Nessa fase, os
interesses tendem a ser mais flexíveis, socialmente compartilhados e
transitórios, mesmo quando parecem exagerados e obsessivos para os adultos ao
redor”, acrescenta.
Segundo Alessandra, o problema é quando o
jovem, seja ele neurodivergente ou neurotípico, passa a se isolar socialmente
ou deixa de realizar atividades básicas para manter a atividade em que está
interessado. “Em vez de limitar completamente a atividade, algumas sugestões,
para os pais, são construir combinados e estabelecer limites junto com a
criança ou jovem. Por exemplo: se a família janta todos os dias às 19 horas,
pode haver um acordo para que ele faça uma pausa nesse horário, garantindo um
momento em família e a refeição com qualidade. Ou ainda, se ele tem uma prova
em dois dias, combinar que, após o jantar, ele dedicará um determinado tempo
aos estudos”.
Quando o interesse excessivo é um alerta
Os interesses intensos passam a ser um alerta
para um hiperfoco clínico, associado a condições como o TDAH (Transtorno do
Déficit de Atenção com Hiperatividade) e o transtorno do espectro autista,
quando o indivíduo apresenta nível muito elevado de concentração e dificuldade
de desengajamento em atividades, envolvendo uma absorção muito profunda e
persistente, frequentemente acompanhada de perda da noção do tempo.
Segundo Carla Litrenta, psicopedagoga e educadora parental da Escola
Internacional de Alphaville
- EIA, de Barueri (SP), o que
diferencia interesses comuns do hiperfoco clínico é principalmente o nível de
intensidade, rigidez e impacto funcional. “No hiperfoco, a criança e jovem pode
apresentar dificuldade real de interromper a atividade ou mudar de assunto,
mesmo quando precisa realizar outras tarefas importantes, como estudar, dormir,
se alimentar ou interagir socialmente. Também pode haver sofrimento, irritação
ou desregulação quando esse interesse é interrompido”, afirma.
No caso do TDAH, crianças e adolescentes podem ter dificuldade
para manter o foco em atividades consideradas pouco estimulantes, mas mergulhar
intensamente em temas que despertam grande interesse, prazer ou recompensa
imediata. “Nesses casos, o transtorno está mais relacionado à dificuldade de
regular a atenção do que à incapacidade de se concentrar. É comum que ignorem
distrações externas, percam a noção do tempo e tenham dificuldade de interromper
a atividade em questão”, explica Carla.
Já no transtorno do espectro autista (TEA), é comum que crianças e
adolescentes desenvolvam interesses muito intensos e específicos por
determinados temas, atividades ou objetos. “Esses interesses proporcionam ao autista
uma certa sensação de conforto, segurança e bem-estar. Dependendo da
intensidade e da forma como se manifestam, podem até mesmo contribuir
positivamente para aprendizagem, memória e aprofundamento de conhecimentos”,
diz Carla. “Mas o interesse excessivo, em alguns casos, também pode causar
sofrimento, isolamento, dificuldades na rotina ou grande irritação diante de
mudanças, interrupções ou da necessidade de realizar outras atividades”.
Pais e responsáveis devem estar atentos
Na opinião de Caroline Sternberg, orientadora
parental e educacional do colégio Progresso Bilíngue de Itu (SP), as
famílias devem observar não apenas a intensidade do interesse da criança ou
adolescente, mas principalmente os impactos deste comportamento na rotina, no
bem-estar emocional e nas relações sociais.
“Em vez de proibir ou ridicularizar os assuntos
de interesse, o mais indicado é acolher esse entusiasmo, mas ao mesmo tempo
ajudar a criança a desenvolver equilíbrio e flexibilidade no dia a dia. Uma
forma de fazer isso é estabelecer combinados e incentivar pausas entre as
atividades, convidando a criança para outras experiências, como brincar ao ar
livre, praticar esportes, participar de momentos em família ou conversar sobre
temas diferentes”, afirma Caroline. “Outra forma de ajudar a criança ou o
adolescente é avisar com antecedência sobre mudanças de atividade, criar
transições graduais e mostrar que há espaço para o interesse especial sem que ele
ocupe toda a rotina”.
A escola também exerce papel fundamental nesse
processo, atuando como parceira da família na observação de comportamentos e no
desenvolvimento de estratégias para ampliar repertórios e estimular habilidades
sociais, emocionais e acadêmicas. “Educadores conseguem perceber, por exemplo,
quando o estudante demonstra dificuldade constante para mudar de assunto, se
irrita intensamente ao ser interrompido, evita interações sociais ou deixa de
participar de atividades importantes por causa daquele interesse específico”.
O diálogo entre família e escola ajuda a entender se aquele comportamento faz parte do desenvolvimento esperado ou se está trazendo prejuízos reais para a criança ou adolescente. “Em situações de sofrimento emocional, isolamento excessivo ou impactos significativos na aprendizagem e na rotina, é preciso buscar avaliação com profissionais de saúde mental, como psicólogos, psiquiatras e neurologistas”, finaliza Caroline.
Alessandra Mafra Ribeiro - psicóloga, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (USP) e pela University of British Columbia (UBC). Atua desde 2016 no desenvolvimento e na implementação de programas voltados à promoção de competências socioemocionais em contextos educacionais. Nos últimos 6 anos, tem trabalhado com jovens e adultos com foco em desenvolvimento pessoal, escolhas acadêmicas e processos de candidatura para universidades no exterior. Atualmente, atua como School Counselor na Escola Aubrick, integrando orientação educacional e aconselhamento acadêmico em sua prática profissional.
Carla Litrenta Todaro - pedagoga, educadora parental e pós-graduada em “Psicologia Positiva: Ciência do Bem-Estar e da Autorrealização” e em “Bullying, Violência e Discriminação na Escola”. Iniciou sua carreira há quase 30 anos como professora de alfabetização nas séries iniciais, trilhando seu caminho no mundo da educação. Estudiosa das relações e do desenvolvimento humano, atualmente é coordenadora de relacionamentos da Escola Internacional de Alphaville.
Caroline Sternberg - pedagoga com 14 anos de experiência em escolas bilingues e alfabetização. Pós graduada em Psicopedagogia, Psicomotricidade e Educação Bilíngue. Especialização em Mentoria Parental, com experiência de 5 anos atendendo famílias individualmente.
Marcelo Tucci de Freitas - psicólogo clínico TCC, com especialização em adolescência; pedagogo; possui MBA em Gestão Educacional, e atualmente é orientador educacional do Ensino Fundamental Anos Finais no Brazilian International School - BIS. Com mais de 30 anos de experiência na área educacional atuou em diversas instituições de ensino básico e superior, na coordenação pedagógica e como docente de Psicologia e Ética.
International Schools Partnership - ISP
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