
Highland, Escócia.
Murilo Gomes/Unsplash
Depois de vencer a seleção do Haiti por 3x0, em sua
segunda partida na Copa do Mundo de 2026, o Brasil volta a campo nesta
quarta-feira (24) para enfrentar a Escócia, às 19h, no horário de Brasília, em
partida válida pela última rodada do grupo C. Embora esta seja a nona vez que o
país europeu participa de uma Copa do Mundo, nunca conseguiu passar da fase de
grupos. Muito além do whisky, do kilt e da gaita de fole, a história da
Escócia é marcada por guerras, resistência e orgulho de sua cultura.
“Assim como muitos outros países, muitas pessoas
conhecem a Escócia apenas por uma pequena parte de sua cultura. No caso deles,
é o kilt, aquela espécie de saia xadrez bem típica, e o tão
famoso whisky escocês. Mas é claro que a Escócia tem muito mais o que mostrar
ao mundo em termos de folclore, identidade e até mesmo espiritualidade celta,
além de vários capítulos históricos que falam de luta por autonomia e
preservação da própria cultura”, avalia o mestre em Educação, licenciado em
História e diretor de Produtos e Marketing da Aprende Brasil Educação, Juliano
Costa.
A complexa geografia
Muito além da capital, Edimburgo, e das cidades
mais conhecidas, como Glasgow e Inverness, a Escócia tem um território com mais
de 30 mil lagos e mais de 900 ilhas espalhados por um total de quase 79 mil
km². É em terras escocesas que se localiza, por exemplo, o ponto mais alto do
Reino Unido, o Ben Nevis, que tem 1.345 metros. Geograficamente, o país se
divide entre as míticas Highlands (terras altas), ao norte, e
as Lowlands
(terras baixas), ao sul.
De acordo com o professor de Geografia do Colégio
Positivo, Eduardo Berkenbrock Lopes, “esse é um país de contrastes geográficos
tão acirrados quanto suas rivalidades históricas. O litoral, profundamente
recortado, é esculpido por fiordes e repleto de ilhas, como as Hébridas e as
Órcades, enquanto a costa oeste é famosa por suas falésias. A vegetação
predominante é a floresta boreal de coníferas. Séculos de exploração e o
pastoreio de ovelhas reduziram drasticamente a cobertura florestal original, e
hoje a paisagem é dominada por vastos campos de gramíneas e urzes, que colorem
as colinas de roxo e lilás no verão”, afirma.
A divisão política
Se a geografia da Escócia é marcada por divisões
naturais, sua posição política dentro do Reino Unido é igualmente complexa. Ela
é uma das quatro nações que compõem o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do
Norte. “A Grã-Bretanha, propriamente dita, é a ilha que abriga três dessas
nações: Escócia, Inglaterra e País de Gales. Já o Reino Unido é a união
política que inclui, além da ilha britânica, a Irlanda do Norte. Essa
distinção, embora pareça técnica, carrega profundas implicações históricas e
afetivas. Para muitos escoceses, dizer que são ‘britânicos’ é uma afirmação
política, mas dizer que são ‘escoceses’ é uma afirmação de identidade. E nem
sempre as duas coisas se alinham”, comenta Lopes.
Unicórnios x Leões
Unicórnios não são reais, mas a Escócia talvez seja
o lugar do mundo em que eles estão mais próximos de se tornarem. No século XV,
alguns monarcas escoceses passaram a usar os unicórnios em seus brasões. “De
acordo com a mitologia celta, esses animais representam muito bem aqueles que
seriam os ideais escoceses, como pureza, masculinidade e até poder. Daí a ideia
de associá-los às lideranças políticas”, conta Costa. Acontece que, já desde
essa mesma época, também havia muitos registros de lendas e cantigas de roda mencionando
uma rivalidade entre o unicórnio e o leão, que, por sua vez, é o símbolo
nacional da Inglaterra.
Em 2022, a Suprema Corte do Reino Unido proibiu que
a Escócia realizasse um referendo para que a população escocesa opinasse se o
país deveria ou não se separar do Reino Unido. Um primeiro referendo já havia
sido realizado em 2014, com 55% dos escoceses votando a favor da permanência.
Mas esse está longe de ser um ponto pacífico na política local. “Os chamados
Atos de União, assinados em 1707, deram origem ao Reino Unido e puseram fim a
mais de um século de discussões sobre a oficialização desse novo Estado, o
Reino Unido. De fato, porém, nunca houve um consenso sobre a permanência da
Escócia no Reino Unido e, sempre que há alguma virada política, esse debate
volta à baila. Foi o que aconteceu depois de o Reino Unido deixar a União
Europeia, em 2020, motivo pelo qual o governo escocês queria convocar o novo
referendo”, explica o historiador.
Além da Escócia e da Inglaterra, fazem parte do
Reino Unido o País de Gales e a Irlanda. “As lendas sobre brigas entre o leão e
o unicórnio se tornaram ainda mais populares depois da assinatura dos Atos de
União, aparentemente como uma forma de resistência à unificação. Brigados ou
não, hoje ambos fazem parte do brasão do Reino Unido, cada um representando seu
país.” Desde 2015, a Escócia celebra o Dia Nacional do Unicórnio em 9 de abril.
A seleção unificando o país
Esta é a nona vez que a Escócia participa de uma
Copa do Mundo. O futebol é uma grande paixão nacional e não se restringe apenas
aos gramados, mas tem um papel social importante de unificação. De acordo com
Lopes, em meados do século XVI houve uma reforma religiosa que dividiu o país
entre católicos e protestantes. Essa divisão persiste até hoje e, mais tarde,
atingiu também o futebol. “Dessa divisão nasceram dois grandes clubes
escoceses: o Celtic e o Rangers. Enquanto o Rangers nasceu de uma congregação
protestante e tem uma relação direta com pessoas mais alinhadas à coroa e às
tradições britânicas, o Celtic foi fundado por imigrantes irlandeses católicos
e é uma tentativa de esses imigrantes se afirmarem dentro da Escócia”, narra.
Rangers x Celtic é o grande clássico do futebol escocês, conhecido como The Old
Firm.
A seleção, por outro lado, representa um ponto de
encontro entre essas duas visões de mundo. “Apesar de ter havido conflitos
bastante sangrentos entre católicos e protestantes, a seleção representa todos
os escoceses, independentemente da fé. Ela atua como símbolo de uma Escócia
unificada”, completa.
O berço do golfe
Criado na região leste da Escócia, o golfe já
chegou a ser proibido pelo rei por excesso de popularidade. No século XV, o
país estava entrando em conflito, mais uma vez, com seu chamado “Auld Enemy”.
Auld
é uma palavra escocesa que significa “velho”, e o velho inimigo, claro, era a
Inglaterra. “O rei Jaime II precisou banir o golfe em 1457 porque as pessoas
gostavam tanto do esporte que acabavam não se dedicando à preparação militar
que o governo julgava necessária para aquele momento”, detalha Costa.
Entretanto, a proibição não colou e o golfe seguiu sendo praticado pelos
súditos até que, em 1502, o jogo ganhou o selo de aprovação do monarca.
No início, o jogo era bem simples e se resumia a
tentar jogar uma bola por cima de formações naturais, como dunas, usando
bastões de madeira. Em 1744, foi criado o clube dos Cavalheiros Golfistas de
Leith, que estabeleceram uma competição anual valendo prêmios. Muitas das
regras adotadas naquele período ainda são válidas até hoje.
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