Especialista alerta que sintomas frequentemente normalizados podem indicar desequilíbrios e reforça o papel do intestino na imunidade, metabolismo e saúde geral
A conscientização sobre doenças
inflamatórias intestinais, como doença de Crohn e retocolite ulcerativa, amplia
o debate sobre a importância da saúde intestinal para além do diagnóstico de
doenças. A nutricionista Nicolle Albanezi alerta que o intestino precisa ser
observado de forma preventiva, já que sinais de desequilíbrio podem surgir
muito antes de qualquer diagnóstico formal.
“Durante muito tempo, o intestino foi
tratado quase como um órgão de passagem. O lugar por onde a comida entra, os
nutrientes são absorvidos e os resíduos são eliminados. Hoje sabemos que essa
visão é limitada. O intestino é uma interface entre alimentação, microbiota,
sistema imune, metabolismo, cérebro e rotina. Ele não apenas digere. Ele
interpreta, seleciona, comunica, absorve, elimina e ajuda a modular respostas
importantes do organismo”, explica Nicolle Albanezi.
Um dos pontos centrais dessa engrenagem
é a chamada barreira intestinal, responsável por permitir a absorção de
nutrientes e impedir a entrada de substâncias indesejadas, como toxinas e
microrganismos. Quando essa barreira perde eficiência, pode ocorrer aumento da
permeabilidade intestinal, fenômeno associado a inflamação, disbiose e
alterações imunológicas.
Nesse contexto, a microbiota intestinal desempenha papel fundamental. Em equilíbrio, contribui para a regulação do sistema imune e favorece a tolerância a diferentes estímulos. Já em situações de desequilíbrio — a chamada disbiose — pode haver aumento da inflamação de baixo grau e maior reatividade do organismo. “Seria simplista dizer que toda alergia vem do intestino ou que toda doença autoimune começa ali, mas também é limitado ignorar sua influência na modulação imunológica”, destaca a especialista.
Na prática clínica, alterações intestinais frequentemente vêm
acompanhadas de outros sinais, como fadiga, alterações de pele, queda de
cabelo, dificuldade de concentração e oscilações de humor. Além disso, a
absorção de nutrientes pode ser prejudicada mesmo em indivíduos com alimentação
considerada adequada. O processo depende de múltiplos fatores, como enzimas
digestivas, integridade da mucosa e equilíbrio da microbiota.
Outro alerta importante é a
normalização de sintomas como estufamento, gases excessivos, constipação ou
diarreia recorrente. Embora comuns, esses sinais não devem ser ignorados quando
persistentes ou associados a desconforto. “Sintomas intestinais frequentes não
devem ser tratados como algo normal. Eles são informações clínicas que precisam
ser interpretadas”, reforça a nutricionista.
O cenário global também chama atenção.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o câncer colorretal registrou
cerca de 1,9 milhão de novos casos e mais de 900 mil mortes no mundo em 2022.
No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer estima aproximadamente 45 mil novos
casos anuais entre 2023 e 2025. Estudos recentes também indicam aumento da
incidência em adultos mais jovens, reforçando a necessidade de atenção aos
sinais precoces.
Além disso, o impacto do estresse sobre
o intestino evidencia a conexão entre corpo e mente. Alterações na rotina, sono
e saúde emocional podem influenciar diretamente o funcionamento intestinal,
criando um ciclo que afeta tanto o bem-estar físico quanto mental.
Cuidar do intestino vai além de estratégias simplistas. “Saúde intestinal não é apenas tomar probióticos ou restringir alimentos sem critério. É entender como o corpo digere, absorve e responde aos estímulos do dia a dia”, afirma Nicolle.
Um convite à conscientização e à mudança de perspectiva. Mais do que tratar doenças, o foco deve estar na prevenção e na atenção aos sinais do corpo. “Parar de normalizar sintomas persistentes é um passo fundamental. O intestino comunica e é preciso aprender a interpretar esses sinais.”
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