sexta-feira, 5 de junho de 2026

A importância de olhar para o intestino antes do surgimento de doenças

Especialista alerta que sintomas frequentemente normalizados podem indicar desequilíbrios e reforça o papel do intestino na imunidade, metabolismo e saúde geral

 

A conscientização sobre doenças inflamatórias intestinais, como doença de Crohn e retocolite ulcerativa, amplia o debate sobre a importância da saúde intestinal para além do diagnóstico de doenças. A nutricionista Nicolle Albanezi alerta que o intestino precisa ser observado de forma preventiva, já que sinais de desequilíbrio podem surgir muito antes de qualquer diagnóstico formal. 

“Durante muito tempo, o intestino foi tratado quase como um órgão de passagem. O lugar por onde a comida entra, os nutrientes são absorvidos e os resíduos são eliminados. Hoje sabemos que essa visão é limitada. O intestino é uma interface entre alimentação, microbiota, sistema imune, metabolismo, cérebro e rotina. Ele não apenas digere. Ele interpreta, seleciona, comunica, absorve, elimina e ajuda a modular respostas importantes do organismo”, explica Nicolle Albanezi. 

Um dos pontos centrais dessa engrenagem é a chamada barreira intestinal, responsável por permitir a absorção de nutrientes e impedir a entrada de substâncias indesejadas, como toxinas e microrganismos. Quando essa barreira perde eficiência, pode ocorrer aumento da permeabilidade intestinal, fenômeno associado a inflamação, disbiose e alterações imunológicas. 

Nesse contexto, a microbiota intestinal desempenha papel fundamental. Em equilíbrio, contribui para a regulação do sistema imune e favorece a tolerância a diferentes estímulos. Já em situações de desequilíbrio — a chamada disbiose — pode haver aumento da inflamação de baixo grau e maior reatividade do organismo. “Seria simplista dizer que toda alergia vem do intestino ou que toda doença autoimune começa ali, mas também é limitado ignorar sua influência na modulação imunológica”, destaca a especialista.

Na prática clínica, alterações intestinais frequentemente vêm acompanhadas de outros sinais, como fadiga, alterações de pele, queda de cabelo, dificuldade de concentração e oscilações de humor. Além disso, a absorção de nutrientes pode ser prejudicada mesmo em indivíduos com alimentação considerada adequada. O processo depende de múltiplos fatores, como enzimas digestivas, integridade da mucosa e equilíbrio da microbiota. 

Outro alerta importante é a normalização de sintomas como estufamento, gases excessivos, constipação ou diarreia recorrente. Embora comuns, esses sinais não devem ser ignorados quando persistentes ou associados a desconforto. “Sintomas intestinais frequentes não devem ser tratados como algo normal. Eles são informações clínicas que precisam ser interpretadas”, reforça a nutricionista. 

O cenário global também chama atenção. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o câncer colorretal registrou cerca de 1,9 milhão de novos casos e mais de 900 mil mortes no mundo em 2022. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer estima aproximadamente 45 mil novos casos anuais entre 2023 e 2025. Estudos recentes também indicam aumento da incidência em adultos mais jovens, reforçando a necessidade de atenção aos sinais precoces. 

Além disso, o impacto do estresse sobre o intestino evidencia a conexão entre corpo e mente. Alterações na rotina, sono e saúde emocional podem influenciar diretamente o funcionamento intestinal, criando um ciclo que afeta tanto o bem-estar físico quanto mental. 

Cuidar do intestino vai além de estratégias simplistas. “Saúde intestinal não é apenas tomar probióticos ou restringir alimentos sem critério. É entender como o corpo digere, absorve e responde aos estímulos do dia a dia”, afirma Nicolle. 

Um convite à conscientização e à mudança de perspectiva. Mais do que tratar doenças, o foco deve estar na prevenção e na atenção aos sinais do corpo. “Parar de normalizar sintomas persistentes é um passo fundamental. O intestino comunica e é preciso aprender a interpretar esses sinais.”


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