sábado, 13 de junho de 2026

A Geração Z é menos inteligente ou apenas desafia conceitos ultrapassados?


Pela primeira vez em mais de um século de medições, estudos internacionais apontam uma desaceleração nos índices médios de QI entre os mais jovens. O fenômeno, observado em levantamentos realizados na Europa, nos Estados Unidos e em outras economias desenvolvidas, levou parte da imprensa a uma conclusão apressada: a Geração Z estaria se tornando menos inteligente do que as gerações anteriores. 

A interpretação, porém, ignora uma transformação profunda que vem ocorrendo na forma como a inteligência é compreendida pela ciência, pela educação e pelo mercado de trabalho. 

Durante mais de 120 anos, a principal ferramenta utilizada para medir inteligência foi o teste de quociente de inteligência, o famoso QI. Criado em 1905 pelo psicólogo francês Alfred Binet, o instrumento foi desenvolvido para avaliar habilidades relacionadas principalmente ao raciocínio lógico-matemático e à linguagem. Ao longo do século XX, tornou-se a principal referência para medir capacidades cognitivas e influenciou sistemas educacionais, processos seletivos e até políticas públicas em diversos países. 

O problema é que o teste nunca pretendeu medir toda a complexidade da inteligência humana. Ele avalia apenas determinadas competências cognitivas e não contempla inúmeras habilidades que influenciam o desempenho acadêmico, profissional e social dos indivíduos. 

Essa limitação começou a ser questionada de forma mais contundente em 1983, quando o psicólogo Howard Gardner, da Universidade Harvard, publicou a obra Frames of Mind. Resultado de anos de pesquisa, a teoria das inteligências múltiplas propôs uma ruptura com o modelo tradicional ao defender que os seres humanos possuem pelo menos oito formas distintas de inteligência: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, naturalista, interpessoal e intrapessoal. 

A tese foi posteriormente reforçada pelos avanços da neurociência. Se no início do século XX predominava a crença de que a inteligência era praticamente imutável, hoje a ciência reconhece a capacidade de adaptação do cérebro humano por meio da neuroplasticidade, permitindo o desenvolvimento de habilidades ao longo de toda a vida. 

Nesse contexto, surgiram ferramentas capazes de avaliar competências além daquelas tradicionalmente mensuradas pelos testes de QI. Uma das mais conhecidas é o MIDAS (Multiple Intelligences Developmental Assessment Scales), desenvolvido pelo pesquisador norte-americano Branton Shearer, da Universidade de Ohio e colaborador dos estudos de Gardner. O instrumento avalia oito inteligências e 25 habilidades associadas, oferecendo um retrato mais amplo das potencialidades individuais. 

No Brasil, a metodologia foi adaptada pelo professor Roberto Corazza sob o nome A.M.I. — Avaliação das Múltiplas Inteligências. Após quase uma década de estudos, validações e aplicações em instituições educacionais, a ferramenta passou a ser utilizada para auxiliar escolas na identificação de talentos e competências frequentemente invisíveis aos modelos tradicionais de avaliação. 

Os resultados desse novo olhar sobre a inteligência encontram respaldo também no mercado de trabalho. Uma pesquisa realizada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em parceria com a consultoria McKinsey, identificou que aproximadamente 70% das maiores empresas globais já incorporaram critérios relacionados a habilidades socioemocionais nos seus processos de contratação e promoção profissional. 

Empresas como Itaú, Nubank, Google, Amazon, Microsoft, Meta, Santander e Coca-Cola figuram entre as organizações que passaram a valorizar competências como comunicação, colaboração, adaptabilidade, criatividade, liderança e inteligência emocional em níveis equivalentes ou superiores aos conhecimentos técnicos específicos. 

O levantamento aponta ainda que profissionais capazes de trabalhar em equipe, resolver problemas complexos, comunicar ideias com clareza e lidar com mudanças constantes apresentam desempenho superior em ambientes organizacionais cada vez mais impactados pela automação e pela inteligência artificial. 

Os números ajudam a compreender uma aparente contradição. Se os jovens da Geração Z apresentam desempenho inferior em alguns indicadores tradicionais de QI, como explicar o crescente número de empreendedores, criadores de conteúdo, desenvolvedores de tecnologia e fundadores de startups que alcançam sucesso antes dos 30 anos? 

A resposta pode estar justamente nas competências que os testes convencionais não conseguem medir adequadamente. 

Trata-se de uma geração que cresceu conectada. Antes mesmo de concluir o ensino médio, muitos jovens já haviam interagido com pessoas de diferentes países, aprendido a produzir conteúdo para audiências globais, administrado comunidades digitais e desenvolvido repertórios de comunicação em ambientes altamente competitivos. 

Essas experiências contribuem para o fortalecimento de inteligências interpessoais, intrapessoais e espaciais, áreas cada vez mais valorizadas por organizações que precisam inovar em ritmo acelerado.

Ao mesmo tempo, a expansão da inteligência artificial altera profundamente o valor relativo das competências humanas. Conhecimentos técnicos podem ser pesquisados em segundos. Cálculos complexos são realizados instantaneamente por sistemas automatizados. Informações estão disponíveis em abundância. 

O diferencial competitivo passa a residir em capacidades que as máquinas ainda não reproduzem plenamente: empatia, criatividade, liderança, julgamento ético, negociação, visão estratégica e compreensão das relações humanas. 

Diante desse cenário, talvez a pergunta correta não seja se a Geração Z é mais ou menos inteligente do que as gerações anteriores. A questão central é se continuamos utilizando instrumentos concebidos para uma realidade de 1905 para avaliar jovens que vivem em um mundo radicalmente diferente. 

A educação enfrenta um desafio semelhante. Persistir exclusivamente em métricas construídas para medir desempenho acadêmico tradicional pode significar ignorar talentos essenciais para a economia do século XXI. O mercado já percebeu essa mudança. Grandes empresas já adaptaram seus processos. Muitas escolas começam a fazer o mesmo. 

O verdadeiro debate não está na suposta perda de inteligência da nova geração. Está na necessidade de reconhecer que a inteligência humana é muito mais ampla, diversa e dinâmica do que qualquer número isolado pode representar.

  

Roberto Corazza - professor, especialista em Múltiplas Inteligências e idealizador do projeto AMI — Avaliação das Múltiplas Inteligências - no Brasil


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