No mês em que o mundo celebra as mães, especialista alerta: a decisão mais importante da vida adulta feminina começa muito antes da gravidez
Maio
é conhecido internacionalmente como o mês das mães e nesse contexto, é comum
vir à tona as perguntas que muitas mulheres carregam em silêncio: quero ser
mãe? Estou pronta? É isso que sinto ou é o que esperam de mim? Num mês
carregado de homenagens e expectativas, a sociedade costuma celebrar a
maternidade que já aconteceu, mas raramente abre espaço para falar sobre a
maternidade que ainda está sendo considerada. Para o psicanalista e
especialista em comportamento humano Lucas Scudeler, essa lacuna tem um custo
alto. "A pergunta mais honesta que uma mulher pode se fazer não é se ela
quer ou não parir. É o que ela quer nutrir, cuidar e deixar no mundo",
afirma.
A
maternidade nunca foi um tema simples. Mas nas últimas décadas, ele se tornou
ainda mais complexo: mais mulheres têm acesso à informação, mais liberdade de
escolha e, ao mesmo tempo, mais pressão vinda de todos os lados. O resultado é
uma geração de mulheres que, muitas vezes, não sabe distinguir o que deseja do
que foi ensinada a desejar. Por isso, antes de chegar a qualquer resposta,
Scudeler propõe cinco perguntas que toda mulher deveria se fazer com tempo, com
calma e sem julgamento.
- O
que você quer nutrir, cuidar e deixar no mundo?
Esta
é, segundo Scudeler, a pergunta mais honesta que existe e a mais ignorada.
Antes de pensar em gravidez, em filhos ou em maternidade biológica, há uma
questão anterior e mais profunda: qual é o seu desejo de cuidado? "Uma
mulher pode nunca ter engravidado e exercer maternidade de forma profunda, seja
através de um legado, da adoção, do cuidado com quem precisa. E uma mulher pode
ter cinco filhos e nunca ter sido mãe de verdade", explica o psicanalista.
Perguntar o que se quer nutrir é perguntar sobre valores, sobre propósito, sobre
o tipo de presença que você quer ter no mundo.
- Você quer ser mãe, ou sente que deveria
querer?
A
pressão sobre mulheres sem filhos é real e, muitas vezes, invisível. Ela vem da
família que pergunta "é para quando?", das amigas que já são mães,
das redes sociais que romantizam a maternidade e de uma cultura que ainda
associa feminilidade à reprodução. Para Scudeler, distinguir um desejo genuíno
de um condicionamento cultural é um dos exercícios mais difíceis e mais
necessários que uma mulher pode fazer. "Existe uma diferença enorme entre
querer ser mãe e sentir que se deve querer. Uma nasce de dentro. A outra nasce
do olhar do outro", afirma.
- Você tem ou busca um ambiente seguro para
exercer a maternidade?
O
especialista aponta um dado que raramente entra no debate público: um número
crescente de mulheres não rejeita a maternidade por falta de desejo, mas porque
não encontra as condições mínimas para exercê-la com dignidade. "Quando a
mulher sente que vai carregar tudo sozinha, a maternidade deixa de ser desejo e
vira peso", alerta Scudeler. Ele complementa que parceria real, rede de
apoio, estabilidade emocional e condições financeiras básicas não são luxo, mas
sim parte da equação.
Por
isso, avaliar honestamente o ambiente em que se vive não significa adiar
indefinidamente. Significa ter clareza sobre o que existe, o que pode ser
construído e o que precisa mudar antes de dar um passo que não tem volta.
- Você está pronta para se transformar e ser
transformada?
Existe
um equívoco muito comum sobre a maternidade, de que ela se encaixa na vida que
já existe. Na prática, ela reorganiza tudo: identidade, prioridades,
relacionamentos, tempo, corpo, sonhos. Muitas mulheres chegam à maternidade
esperando continuar sendo quem eram, mas com um bebê ao lado. No entanto, a
transformação é inevitável. A prontidão para a maternidade, nesse sentido, tem
menos a ver com condições externas e mais com a disposição interna de atravessar
uma mudança radical.
- Você já fez as pazes com a sua própria
infância?
Toda
mulher chega à maternidade carregando a história que viveu como filha. "A
transmissão geracional é um fenômeno real e silencioso. Repetimos o que não
elaboramos. E, quando não entendemos de onde viemos, tendemos a reproduzir o
que nem percebemos que carregamos", explica Scudeler.
Isso
não significa que é preciso ter uma infância perfeita para ser uma boa mãe.
Significa que olhar para a própria história, de preferência com apoio
terapêutico, é um dos gestos mais responsáveis que uma mulher pode ter antes, e
não depois, de tomar a decisão.
Nenhuma dessas cinco perguntas tem uma resposta certa. E esse é exatamente o ponto. Scudeler não propõe um roteiro para decidir se tornar mãe ou não, mas sim um convite ao autoconhecimento num momento em que a pressão cultural, o calendário biológico e o julgamento alheio costumam falar mais alto do que a própria voz interna.
No
mês em que o mundo para para celebrar as mães, talvez o gesto mais bonito que
uma mulher possa fazer por si mesma seja sentar com as próprias perguntas antes
de buscar respostas prontas. “Seja qual for a resposta que vier, o que importa
é que ela nasça de dentro. Não da expectativa do outro, não da data no calendário,
não do medo do julgamento”, finaliza.
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