Em casos de câncer
de pele do tipo basocelular, como o diagnosticado no presidente Lula, a
radioterapia pode ser realizada de forma isolada ou combinado à cirurgia,
aumentando as chances de controle da doença e reduzindo o risco morbidade e de
recidiva
Nesta segunda-feira, 25, foi anunciado pelo
Hospital Sírio-Libanês que o atual presidente da república, Luís Inácio Lula da
Silva, iniciou hoje sua primeira sessão de radioterapia para tratar um
carcinoma basocelular no couro cabeludo (o tipo mais comum de câncer de pele) e
recebeu a indicação de radioterapia para completar seu tratamento após a
cirurgia, em abril, de retirada de tumor na pele. A Sociedade Brasileira de
Radioterapia (SBRT) explica que a radioterapia pode ser fundamental em alguns
casos de câncer de pele, tanto no contexto adjuvante (após a cirurgia, como
neste caso) ou pode, em outros casos, ser usada isoladamente.
Diferente do melanoma, que é o tipo mais agressivo
de câncer de pele, o carcinoma basocelular (assim como outros tumores cutâneos
do tipo não melanoma, como o carcinoma espinocelular) tende a apresentar
crescimento mais localizado, com baixa probabilidade de disseminação para
outras partes do corpo. Já o melanoma, por sua vez, é o tipo mais agressivo e
letal de câncer de pele, caracterizado pela alta capacidade de disseminação
para outros órgãos. Ele se origina nos melanócitos, células responsáveis pela
produção da melanina, o pigmento que dá cor à pele.
Quando não diagnosticado e tratado no tempo
adequado, o carcinoma basocelular pode evoluir com crescimento progressivo e
infiltração de estruturas mais profundas da pele e de tecidos adjacentes.
Embora raramente resulte em metástase, esse comportamento localmente invasivo
pode levar a morbidades importantes, como ulceração crônica, dor, sangramentos
recorrentes e comprometimento funcional e estético, especialmente em áreas como
face e couro cabeludo. Em casos mais avançados, pode haver invasão de
cartilagem, osso e até estruturas nobres, o que demanda abordagens mais
extensas, com cirurgias de maior porte e, frequentemente, a associação com
radioterapia para controle da doença e redução do risco de recidiva.
INDICAÇÕES DE
RADIOTERAPIA
A radioterapia pode ser utilizada em diferentes
situações no câncer de pele, especialmente nos casos em que a cirurgia não é
possível, seja por questões clínicas do paciente ou pelas características do
próprio tumor. É o que explica o presidente da Sociedade Brasileira de
Radioterapia, Wilson José de Almeida Jr. “Há muitos casos em que a cirurgia não
é indicada, seja pela localização do tumor, por exemplo, em regiões da face
onde o procedimento pode comprometer a estética do paciente ou em situações em
que há risco de déficit motor ou outras condições de saúde associadas. Além
disso, a radioterapia também pode ser utilizada em combinação com a cirurgia
para aumentar o controle local da doença, principalmente quando existem margens
positivas, mesmo que milimétricas, reduzindo o risco de recidiva, ou ainda em
tumores mais profundos, que podem comprometer estruturas ósseas”, explica
Wilson.
A radioterapia também tem um papel importante em casos
mais agressivos do câncer de pele, como quando a doença começa a se espalhar ao
redor dos nervos, situação que aumenta o risco de o tumor voltar e avançar para
regiões mais profundas da cabeça. “Nesses casos, sem o tratamento complementar
da radioterapia, o risco de o tumor voltar pode chegar a 30% a 50%. Já com a
radioterapia após a cirurgia, o controle local da doença costuma ficar entre
80% e 90%, além de reduzir o risco de progressão para regiões mais profundas”,
explica Almeida Jr. Ainda segundo o especialista, quando o câncer retorna após
uma ou mais cirurgias, o risco de uma nova recorrência pode ultrapassar de 40%
a 50%. Com a associação da radioterapia complementar, porém, as taxas de
controle local da doença podem chegar a aproximadamente 75% a 90%.
Além disso, técnicas modernas de radioterapia
permitem tratar lesões superficiais com alta precisão, preservando tecidos
saudáveis ao redor da área acometida. “Hoje, utilizamos aparelhos com
aceleradores lineares de fótons e elétrons. Quando a máquina possui elétrons,
conseguimos concentrar o tratamento exatamente sobre a área da lesão, com uma
margem de segurança muito adequada, entregando a dose correta na profundidade
necessária. Em muitos casos, isso permite tratar apenas a pele, sem irradiar estruturas
mais profundas, como o cérebro. Essa é uma evolução importante da radioterapia.
A braquiterapia também é uma alternativa bastante precisa para tratar lesões
mais superficiais”, explica.”
As opções da
radioterapia
Radioterapia com Modulação de
Intensidade do Feixe (IMRT na sigla em inglês): permite a entrega precisa de radiação ao tumor, reduzindo a exposição
dos tecidos saudáveis ao redor. Isso é especialmente benéfico em casos de
lesões mais profundas em que é fundamental a preservação do tecido circundante.
Radioterapia Estereotáxica
Corporal (SBRT na sigla em inglês): entrega doses
muito altas de radiação em um número limitado de sessões. Permite que o
tratamento das metástases do melanoma em diversos locais como cérebro, pulmão,
fígado e ossos seja feito em menos tempo e de forma mais intensa.
Radioterapia Guiada por Imagem (IGRT na sigla em inglês): envolve o uso de imagens em
tempo real durante as sessões de radioterapia para garantir que o feixe de
radiação seja direcionado com precisão ao tumor, reduzindo a influência do
movimento do paciente.
Radioterapia Adjuvante: pode ser usada em alguns casos após a cirurgia para melanomas ou
tumores não melanoma em estágio avançado, visando prevenir recorrências locais.
Braquiterapia: técnica em que a radiação é aplicada muito próxima ou diretamente sobre
a área da lesão, permitindo tratar tumores superficiais com alta precisão e
menor impacto nos tecidos saudáveis ao redor.
Dados do câncer de pele
Segundo as estimativas mais recentes do Instituto
Nacional de Câncer (INCA), os casos de câncer de pele não melanoma seguem em
crescimento no Brasil e continuam sendo os tumores mais frequentes no país. No
triênio 2023-2025, eram estimados cerca de 220 mil novos casos anuais da
doença. Já para o triênio 2026-2028, esse número subiu para aproximadamente
263.280 novos casos por ano, demonstrando um avanço importante da incidência da
doença na população brasileira.
O câncer de pele não melanoma representa sozinho
mais de 33% de todos os tumores malignos diagnosticados no país. Apesar de
apresentar altas taxas de cura quando identificado precocemente, Almeida Jr.
alerta que muitos pacientes ainda chegam com tumores avançados. “ “É importante
alertar que, ao identificar lesões diferentes no corpo, feridas que não cicatrizam,
pintas que mudam de aspecto ou manchas suspeitas, o paciente deve procurar
imediatamente um dermatologista para avaliação. Mas além do diagnóstico
precoce, também é fundamental reforçar as medidas de prevenção, que continuam
sendo a principal forma de reduzir os casos de câncer de pele. O uso diário de
protetor solar, evitar exposição ao sol nos horários de maior intensidade,
utilizar chapéus, bonés, roupas com proteção UV e óculos escuros,
principalmente em um país tropical com alta radiação solar como o Brasil”,
finaliza.
https://sbradioterapia.com.br/
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