sábado, 2 de maio de 2026

Jéssica, a nova cuca das crianças

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Personagem inventada e viralizada nas redes para silenciar o choro de uma criança traz a pergunta: interromper ou compreender o sentimento infantil?

 

No dinâmico e imprevisível mundo da internet, há conteúdo que viraliza não porque é bom, mas porque é fácil. A nova “técnica” da vez que ganhou as redes recentemente atende pelo nome de “Jéssica”, uma personagem inventada, convocada sob medida para silenciar o choro de uma criança.

 

A técnica é rápida e eficaz, e funciona por um motivo simples: medo. Não se trata de algo inovador, mas de uma versão atualizada do velho “homem do saco” ou da “Cuca” ou até da “polícia”. Só que agora com filtro de rede social e trilha de risadas ao fundo.

 

“Mas, o que parece um truque inofensivo carrega uma lógica desagradável: a de que o desconforto da criança precisa ser interrompido, não compreendido. O ciclo se repete: a criança chora, o adulto se impacienta, chama a “Jéssica” e o choro cessa, não porque a criança conseguiu se conter, mas porque ela acionou o mecanismo de alerta”, diz Yafit Laniado, psicanalista e hipnoterapeuta, criadora da Relacionamentoria, consultoria especializada no relacionamento entre pais e filhos.

 

Yafit explica que ao terceirizar o apelo para a personagem Jéssica, a criança não aprende a se acalmar. Ela aprende a se proteger. “Ao introduzir uma ameaça invisível, o adulto até ganha silêncio imediato. Contudo, planta na criança um companheiro indesejado para toda a vida: a insegurança. Isso porque ela não entende ironia, nem contexto social, nem ‘brincadeira’ como o adulto define. A criança entende que existe algo desconhecido, fora do seu controle, que pode aparecer quando ela expressa emoção”.

 

Na tarefa diária de educar, de formar os filhos, a mensagem que “Jéssica” instala é que demonstrar emoção não é bom. “Do ponto de vista do desenvolvimento emocional isso não é um detalhe. A forma como o adulto responde ao sofrimento infantil molda o senso de segurança, pertencimento e valor da criança”, diz a especialista.

 

Para Yafit, silenciar não é regular, assim como assustar não é educar.

 

“Se a personagem inventada resolve rápido, é porque ela interrompe. Mas educar não é interromper, é ensinar o que fazer com o que sentimos. Assim, a pergunta não é sobre como fazer a criança parar de chorar, mas sobre como podemos ajudar essa criança a superar este momento”, ressalta Yafit.

 

A especialista indica que há caminhos mais exigentes e muito mais eficazes, como validar antes de direcionar; nomear emoções; manter limites com firmeza e respeito, sem precisar usar o medo como ferramenta de autorregulação.

 

“Precisamos saber nos colocar como adultos e liderar a relação, demonstrando

para a criança que ela está segura ao nosso lado. Nenhuma ‘Jéssica’, ‘homem do saco’, ‘Cuca’ ou ‘loira do banheiro’ será capaz de ensinar a criança a se acalmar a partir de suas próprias forças”, conclui a especialista.

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