segunda-feira, 25 de maio de 2026

Intolerâncias alimentares: estamos exagerando nos diagnósticos?

 

Nos últimos anos, termos como “intolerância à lactose”, “sensibilidade ao glúten” e “inflamação alimentar” passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano. Basta uma sensação de desconforto após as refeições para que muitos já suspeitem de algum tipo de intolerância.

Mas, em meio a essa popularização, surge um alerta importante: até que ponto estamos diante de diagnósticos reais e quando começamos a entrar no território da “moda alimentar”?

De fato, algumas intolerâncias alimentares têm sido mais diagnosticadas, seja por maior acesso à informação, seja por avanços nos métodos clínicos. A intolerância à lactose, por exemplo, é bastante comum e tem base fisiológica bem estabelecida. O mesmo vale para condições como a doença celíaca ou alergias alimentares específicas.

No entanto, o crescimento expressivo de pessoas que se autodiagnosticam intolerantes levanta um ponto de atenção: nem todo desconforto digestivo é sinal de intolerância. Sintomas como inchaço abdominal, gases, fadiga ou alterações intestinais podem estar relacionados a diversos fatores, como:

  • estresse e ansiedade
  • má qualidade da alimentação
  • excesso de ultraprocessados
  • alimentação desregulada
  • alterações no sono


Ou seja, o alimento nem sempre é o vilão principal.

Nesse sentido, a ascensão das redes sociais contribuiu para a simplificação de temas complexos. Alimentos passaram a ser rotulados como “inflamatórios”, “tóxicos” ou “vilões silenciosos” sem o devido embasamento científico. O resultado é um movimento crescente de exclusão alimentar, muitas vezes sem orientação profissional.

E aí está o perigo, pois o glúten, a lactose e até grupos inteiros de alimentos vêm sendo retirados da dieta com base em percepções individuais ou conteúdos genéricos, o que pode gerar uma falsa sensação de controle sobre a saúde. Nesse sentido, eliminar alimentos sem necessidade não é inofensivo. Pelo contrário, pode trazer impactos importantes:

  • Deficiências nutricionais: restrições mal conduzidas podem reduzir a ingestão de cálcio, fibras, vitaminas e outros nutrientes essenciais
  • Desequilíbrio da microbiota intestinal: dietas muito restritivas podem prejudicar a diversidade alimentar e, consequentemente, a saúde intestinal
  • Relação disfuncional com a comida: o excesso de regras pode gerar medo, culpa e ansiedade alimentar
  • Dificuldade em identificar a causa real dos sintomas: ao focar apenas no alimento, outros fatores relevantes podem ser ignorados

Além disso, há um risco silencioso: transformar a alimentação em um campo de restrições constantes, quando ela deveria ser um espaço de equilíbrio e bem-estar. Além disso, não podemos ignorar questões de cunho intestinais, como a disbiose, onde há um desbalanço que compromete a digestão, absorção dos nutrientes e impacto direto no sistema imunológico.

Quero destacar que diagnóstico não é achismo, é método. Então identificar uma intolerância alimentar exige investigação adequada. Isso pode incluir:

  • avaliação clínica detalhada
  • análise de sintomas e histórico alimentar
  • testes específicos, quando indicados
  • estratégias como protocolos de exclusão e reintrodução acompanhados

É importante reforçar: intolerâncias alimentares existem, são sérias e devem ser tratadas com atenção. Mas o excesso de diagnósticos, especialmente sem confirmação científica ou acompanhamentos sérios, pode gerar mais prejuízos do que benefícios.

É por isso que sempre reforço que comer bem ainda é mais simples do que parece. Em um cenário de tantas regras e restrições, vale resgatar o básico: uma alimentação equilibrada, variada e adaptada à realidade de cada pessoa ainda é o melhor caminho para a saúde.

Antes de excluir alimentos, é fundamental entender o contexto, investigar causas e buscar orientação profissional. Porque, no fim, saúde não se constrói com modismos, mas com consistência, conhecimento e personalização para necessidades específicas.

 

Paola Rampinelli - CEO e fundadora do Instituto Rampinelli, que atua baseado na aplicação da nutrição com foco em alimentação natural, saúde metabólica e qualidade de vida. Seu trabalho busca mostrar que escolhas alimentares simples e conscientes podem ter grande impacto na saúde e no bem-estar.


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