sexta-feira, 15 de maio de 2026

Eleições 2026: especialista explica por que o eleitor deve olhar com mais atenção para as propostas ambientais dos candidatos

Resíduos, enchentes, saneamento, poluição do ar e organização urbana dizem muito sobre a capacidade de gestão de um candidato do que muitos discursos

 

Em um cenário em que o meio ambiente ainda aparece de forma genérica nas campanhas, olhar para esse tema pode ser uma forma prática de avaliar capacidade de gestão, prevenção e impacto direto na vida nas cidades. Para ajudar nessa leitura, Claudia Pires, CEO da SO+MA, startup especializada em soluções tecnológicas para sustentabilidade e economia circular, publicitária e cientista social, com formação em marketing, economia comportamental, negócios e sustentabilidade, responde a perguntas sobre o tema.
 

Por que o meio ambiente ainda aparece pouco no debate eleitoral?

Claudia Pires - Porque ele ainda é tratado como um tema distante do dia a dia. Existe uma tendência de associar meio ambiente apenas à preservação ou à biodiversidade, quando, na prática, ele aparece no cotidiano o tempo todo — na enchente, no lixo, na qualidade do ar, no calor excessivo, na água e na forma como a cidade funciona. E o mais interessante é que na percepção já aparece: pesquisa Ipsos-Ipec, encomendada pelo Instituto Clima e Sociedade, mostrou que 56% dos brasileiros acreditam que o meio ambiente terá peso grande ou muito grande nas eleições de 2026. Ou seja, o tema já está no radar das pessoas. O que ainda falta é ele aparecer com mais concretude no debate político.
 

O que o eleitor deveria observar quando um candidato fala sobre meio ambiente?

Claudia Pires - Mais do que o discurso, é preciso se atentar à capacidade de execução. Isso porque, meio ambiente, na prática, é sobre gestão. O eleitor deve observar se o candidato consegue transformar esse tema em propostas concretas para a cidade. Por exemplo, como vai lidar com resíduos, enchentes, saneamento, uso do solo, arborização, mobilidade e qualidade do ar. Quando o postulante ao cargo público, seja ele qual for, trata questões ambientais como algo apartado da gestão da cidade, o risco é que elas fiquem só no campo da intenção.
 

Como diferenciar uma proposta concreta de um discurso genérico?

Claudia Pires – Propostas concretas têm caminho. Elas mostram o que será feito, como será feito, quais serão as prioridades e de que forma os resultados serão acompanhados. Mas também é importante olhar para o histórico do candidato ou do grupo político em relação ao tema. A agenda ambiental aparece apenas no discurso de campanha ou já esteve presente em ações, projetos, votações, políticas públicas ou decisões anteriores? Quando a fala é muito ampla, sem detalhar implementação, orçamento, metas, instrumentos de acompanhamento ou coerência com a trajetória pública daquela candidatura, ela tende a permanecer no campo da intenção. Hoje já não dá mais para tratar agenda ambiental apenas como narrativa. Política pública precisa de gestão, dados, continuidade e compromisso comprovável.
 

Quais temas ambientais impactam mais diretamente a vida nas cidades?

Claudia Pires - Os mais próximos da realidade das pessoas são justamente os menos reconhecidos como ambientais. Resíduos, saneamento, drenagem e qualidade do ar. E isso não é abstração, um relatório recente do Ministério do Meio Ambiente mostrou que a concentração de diversos poluentes atmosféricos ultrapassa com frequência os limites recomendados pela Organização Mundial da Saúde em todo o país. Isso deixa claro que estamos falando de um tema que impacta, atualmente e diretamente, a vida urbana e a saúde pública.


O que costuma ficar de fora quando se fala de meio ambiente em campanha?

Claudia Pires - Muitas vezes a campanha fala de estrutura, mas não fala de engajamento, de cultura e de como aquela proposta vai entrar na vida das pessoas. E isso faz diferença, porque política pública não funciona só com infraestrutura. Ela depende de adesão, entendimento e participação.
 

Por que resíduos, enchentes e saneamento também são pauta ambiental?

Claudia Pires - Porque são temas em que os problemas ambientais se materializam de forma mais direta na vida urbana. Resíduo mal gerido impacta drenagem, que impacta enchente. Enchente impacta saúde, mobilidade e economia local. Saneamento afeta diretamente dignidade, qualidade da água e prevenção de doenças. No fim, falar de meio ambiente nas cidades é falar como a gestão pública organiza riscos e protege a vida cotidiana.
 

Porque eleitor deveria ficar de olho nesse tema nas eleições?

Claudia Pires - Na prática, ele é um dos melhores indicadores de capacidade de gestão, porque envolve planejamento, integração entre áreas, prevenção e execução. E há um dado que ajuda a mostrar essa contradição: a mesma pesquisa Ipsos-Ipec mostrou que 67% dos entrevistados dizem que os projetos ambientais dos políticos vão influenciar sua escolha de voto. Ou seja, existe percepção de importância. O desafio agora é transformar isso em um olhar mais atento para a consistência das propostas.

 

SO+MA

 

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