✓ Resíduos, enchentes, saneamento, poluição do ar e organização urbana dizem muito sobre a capacidade de gestão de um candidato do que muitos discursos
Em
um cenário em que o meio ambiente ainda aparece de forma genérica nas
campanhas, olhar para esse tema pode ser uma forma prática de avaliar
capacidade de gestão, prevenção e impacto direto na vida nas cidades. Para
ajudar nessa leitura, Claudia Pires, CEO da SO+MA, startup especializada em
soluções tecnológicas para sustentabilidade e economia circular, publicitária e
cientista social, com formação em marketing, economia comportamental, negócios
e sustentabilidade, responde a perguntas sobre o tema.
Por que o
meio ambiente ainda aparece pouco no debate eleitoral?
Claudia Pires
- Porque ele ainda é tratado
como um tema distante do dia a dia. Existe uma tendência de associar meio
ambiente apenas à preservação ou à biodiversidade, quando, na prática, ele
aparece no cotidiano o tempo todo — na enchente, no lixo, na qualidade do ar,
no calor excessivo, na água e na forma como a cidade funciona. E o mais
interessante é que na percepção já aparece: pesquisa Ipsos-Ipec, encomendada
pelo Instituto Clima e Sociedade, mostrou que 56% dos brasileiros acreditam que
o meio ambiente terá peso grande ou muito grande nas eleições de 2026. Ou seja,
o tema já está no radar das pessoas. O que ainda falta é ele aparecer com mais
concretude no debate político.
O que o
eleitor deveria observar quando um candidato fala sobre meio ambiente?
Claudia Pires
- Mais do que o discurso, é
preciso se atentar à capacidade de execução. Isso porque, meio ambiente, na
prática, é sobre gestão. O eleitor deve observar se o candidato consegue
transformar esse tema em propostas concretas para a cidade. Por exemplo, como
vai lidar com resíduos, enchentes, saneamento, uso do solo, arborização,
mobilidade e qualidade do ar. Quando o postulante ao cargo público, seja ele
qual for, trata questões ambientais como algo apartado da gestão da cidade, o
risco é que elas fiquem só no campo da intenção.
Como
diferenciar uma proposta concreta de um discurso genérico?
Claudia Pires
– Propostas concretas têm
caminho. Elas mostram o que será feito, como será feito, quais serão as
prioridades e de que forma os resultados serão acompanhados. Mas também é
importante olhar para o histórico do candidato ou do grupo político em relação
ao tema. A agenda ambiental aparece apenas no discurso de campanha ou já esteve
presente em ações, projetos, votações, políticas públicas ou decisões
anteriores? Quando a fala é muito ampla, sem detalhar implementação, orçamento,
metas, instrumentos de acompanhamento ou coerência com a trajetória pública
daquela candidatura, ela tende a permanecer no campo da intenção. Hoje já não
dá mais para tratar agenda ambiental apenas como narrativa. Política pública
precisa de gestão, dados, continuidade e compromisso comprovável.
Quais temas
ambientais impactam mais diretamente a vida nas cidades?
Claudia Pires
- Os mais próximos da realidade
das pessoas são justamente os menos reconhecidos como ambientais. Resíduos,
saneamento, drenagem e qualidade do ar. E isso não é abstração, um relatório
recente do Ministério do Meio Ambiente mostrou que a concentração de diversos
poluentes atmosféricos ultrapassa com frequência os limites recomendados pela
Organização Mundial da Saúde em todo o país. Isso deixa claro que estamos
falando de um tema que impacta, atualmente e diretamente, a vida urbana e a
saúde pública.
O que costuma ficar de fora quando se fala de meio ambiente em campanha?
Claudia Pires
- Muitas vezes a campanha fala
de estrutura, mas não fala de engajamento, de cultura e de como aquela proposta
vai entrar na vida das pessoas. E isso faz diferença, porque política pública
não funciona só com infraestrutura. Ela depende de adesão, entendimento e
participação.
Por que
resíduos, enchentes e saneamento também são pauta ambiental?
Claudia Pires
- Porque são temas em que os
problemas ambientais se materializam de forma mais direta na vida urbana.
Resíduo mal gerido impacta drenagem, que impacta enchente. Enchente impacta
saúde, mobilidade e economia local. Saneamento afeta diretamente dignidade,
qualidade da água e prevenção de doenças. No fim, falar de meio ambiente nas
cidades é falar como a gestão pública organiza riscos e protege a vida cotidiana.
Porque
eleitor deveria ficar de olho nesse tema nas eleições?
Claudia Pires
- Na prática, ele é um dos
melhores indicadores de capacidade de gestão, porque envolve planejamento,
integração entre áreas, prevenção e execução. E há um dado que ajuda a mostrar
essa contradição: a mesma pesquisa Ipsos-Ipec mostrou que 67% dos entrevistados
dizem que os projetos ambientais dos políticos vão influenciar sua escolha de
voto. Ou seja, existe percepção de importância. O desafio agora é transformar
isso em um olhar mais atento para a consistência das propostas.
SO+MA
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