Por muitos anos, governar processos significou essencialmente desenhar o mapa. Esse trabalho envolvia reunir equipes, entrevistar especialistas e documentar cada etapa por meio de fluxos estruturados utilizando notações como BPMN (Business Process Model and Notation) e EPC (Event Process Chain). O resultado era consolidado em repositórios centralizados, organizados e pronto para consulta. No entanto, havia um problema fundamental: esses processos eram pouco utilizados.
Na prática,
enquanto mapas permaneciam estáticos, muitas vezes “perfeitos” apenas no
papel, o dia a dia seguia um caminho próprio, repleto de atalhos,
execuções e soluções improvisadas que nunca eram capturadas nos fluxogramas.
Foi nesse contexto que, por volta de 2015 surgiu o Process Mining,
trazendo uma nova abordagem: transformar os rastros digitais deixados
nos sistemas em uma visão fiel do processo real, não
idealizado.
Com isso,
pela primeira vez, deixou de ser necessário perguntar como o
processo funcionava, passou a ser
possível enxergá-lo diretamente. Ao trazer clareza,
até mesmo quem acreditava conhecer bem a operação se
surpreendeu ao identificar anomalias, como pedidos de compra criados após a
entrega, aprovações que pulavam etapas obrigatórias e fornecedores pagos sem
ordem de compra associada.
Na prática,
o Process Mining não
trouxe apenas respostas, mas perguntas muito melhores. A evolução natural
buscou monitorar não apenas como o processo acontecia, mas também se
estava dentro dos limites esperados de performance e conformidade. Assim,
surgiram os dashboards de KPIs em tempo quase real, os alertas de compliance e os
indicadores de maverick buying — aquelas compras
fora de contrato que sangram silenciosamente o orçamento de suprimentos.
Esses
avanços permitiram que a governança deixasse de ser um arquivo morto para se
tornar um painel de controle. Contudo, o fato de ainda ser essencialmente
reativa manteve um desafio: o problema só era visto após o ocorrido. A falha e
o registro da não conformidade tornavam a perda um fato consumado.
Na última década,
a governança tornou-se prioridade estratégica, impulsionada pela adoção da
Inteligência Artificial. Segundo a IDC, o Brasil lidera
a América Latina em volume de investimentos em IA, com expectativa de
atingir US$ 4,2 bilhões até 2026.
Nos últimos
dois anos, vimos camadas de IA integradas a essa base de observabilidade,
gerando um salto qualitativo. Afinal, ao aplicar IA aos dados de Process Mining, o cenário muda,
uma vez que o sistema identifica anomalias automaticamente e as explica em
linguagem natural — atuando não como um relatório, mas como um conselheiro.
Atualmente,
a IA generativa abriu um capítulo novo. Agentes de IA — sistemas
capazes de raciocinar, planejar — passam a atuar diretamente nos
fluxos operacionais. Em um cenário de milhares de ordem de compra, a
tecnologia identifica automaticamente desvios de preço fora do contrato,
explica anomalias em linguagem natural e recomenda ações concretas,
como renegociação ou redirecionamento de volume. Não se trata mais de
um relatório, mas de um conselheiro.
Mesmo com
essas automações, o fator humano não sai do ciclo - ele é elevado. O
profissional passa a focar em atividades de maior valor agregado,
como julgamento, relacionamento e decisão estratégica, enquanto a
execução repetitiva é absorvida pelos agentes.
Então,
o que será da governança de processos nesse novo mundo? Essa é a pergunta
que devemos fazer agora. O que se observa aponta para uma redefinição
profunda: a governança na era da IA deixa de se concentrar em mapas,
dashboards ou relatórios de não conformidade, e passa a
focar na visibilidade em tempo real das ações de humanos e agentes.
Trata-se da capacidade imediata de intervir, corrigir e melhorar os processos
que mais importam para o negócio.
Esse novo
cenário exige novos instrumentos, métricas e, sobretudo, uma nova mentalidade.
O gestor de processos do futuro deixa de ser o guardião do
fluxograma para se tornar o arquiteto de um sistema dinâmico, no
qual inteligência, automação e julgamento humano coexistem em equilíbrio
deliberado.
O mapa sempre foi uma simplificação necessária. O que a IA nos oferece agora, pela primeira vez, é a possibilidade de governar o território diretamente. Essa mudança vai além da tecnologia, e sinaliza que está na hora de aplicar o aprendizado do passado para explorarmos o futuro.
Carlos Pessoa - Head de Delivery da Numen. Especialista em Governança de Processos e Transformação Digital, com foco em ecossistema SAP e tecnologias de Process Mining aplicadas às indústrias de CPG e Life Sciences.
Numen
https://numenit.com/
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