Cirurgião oncológico defende que reconhecer os próprios limites e encaminhar corretamente o paciente é a decisão mais importante e mais difícil do médico
Na cirurgia oncológica do peritônio, há uma verdade que poucos falam abertamente: o que define o prognóstico do paciente muitas vezes não é a habilidade técnica do cirurgião, mas sim sua capacidade de reconhecer os próprios limites e tomar a decisão certa no momento certo.
"Decisões são mais importantes que incisões. Muitas vezes, o que define o prognóstico do paciente não é a habilidade técnica de abrir e operar, mas sim a capacidade do cirurgião de reconhecer seus limites, entender a doença e tomar a decisão correta no momento certo", afirma o Dr. Arnaldo Urbano Ruiz, cirurgião geral e oncológico e coordenador do Centro de Doenças Peritoneais da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.
Segundo o especialista, quando um cirurgião sem treinamento específico em doenças peritoneais se depara com uma carcinomatose peritoneal, a conduta mais segura para o paciente frequentemente não é tentar resolver o caso naquele momento. "O correto, na maioria das vezes, é realizar uma biópsia adequada, documentar a extensão da doença, evitar manipulações desnecessárias e encaminhar o paciente rapidamente para um centro especializado", explica.
A carcinomatose peritoneal exige um conjunto altamente específico de competências: entendimento profundo da biologia tumoral, conhecimento das indicações de citorredução e HIPEC, além de experiência e domínio técnico para procedimentos desta complexidade. Caso contrário, as consequências podem ser irreversíveis.
"Uma abordagem inadequada pode transformar um paciente potencialmente tratável em um paciente sem possibilidade curativa", alerta o Dr. Arnaldo.
Os dados são contundentes: quanto mais intervenções cirúrgicas inadequadas, manipulações peritoneais e ressecções incompletas o paciente sofreu anteriormente, pior tende a ser seu prognóstico oncológico.
Cirurgias indevidas promovem aderências extensas, distorcem os planos anatômicos, disseminam células tumorais e dificultam futuras citorreduções completas.
"Muitas vezes, o que inviabiliza uma citorredução potencialmente curativa não é a doença inicial, mas sim a intervenção inadequada realizada anteriormente", reforça o especialista.
Para o Dr. Arnaldo, a mensagem é clara e exige uma mudança de cultura dentro da medicina.
"O
melhor cirurgião nem sempre é o que faz a maior cirurgia. Muitas vezes, é aquele
que reconhece precocemente uma doença complexa, evita danos irreversíveis e
encaminha o paciente para um time experiente antes que a oportunidade
terapêutica seja perdida", explica.
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