Debates, durante o CONARH Saúde, reuniram executivos e especialistas e indicam mudança estrutural na gestão da saúde corporativa no País
O avanço dos transtornos mentais, o impacto
do endividamento na vida dos trabalhadores e o aumento acelerado dos custos
assistenciais vêm impondo uma reconfiguração profunda na agenda das empresas
brasileiras. Mais do que um benefício, o bem-estar organizacional passou a ser
tratado como um fator crítico para a sustentabilidade das operações e
consolidou-se como um dos principais desafios estratégicos da área de recursos
humanos.
A avaliação foi compartilhada por
especialistas durante o CONARH Saúde, promovido pela ABRH Brasil (Associação
Brasileira de Recursos Humanos), nesta terça-feira (30) e reflete um cenário em
que fatores financeiros, emocionais e comportamentais se entrelaçam e impactam
diretamente produtividade e resultados.
“A saúde corporativa deixou de ser uma
pauta operacional para se tornar risco e uma oportunidade ao negócio”, afirmou
Luiz Edmundo Rosa, diretor de Saúde e Bem-Estar da ABRH Brasil. Segundo ele, o
contexto atual combina 78% das famílias brasileiras endividadas com um ambiente
de trabalho cada vez mais estressado e com lideranças apresentando níveis
elevados de ansiedade e depressão.
A presidente da ABRH Brasil, Leyla
Nascimento, reforçou que o tema ganhou centralidade nas organizações. “A área
de saúde é hoje uma pauta prioritária para recursos humanos”, disse. Para ela,
o debate avançou para além da assistência médica e passa a incorporar
longevidade, saúde mental e sustentabilidade das carreiras.
Logo na abertura dos debates, a
apresentação de dados do mercado reforçou a dimensão do problema. Segundo
levantamento apresentado por Letícia Santos, da WTW, 79% das empresas apontam a
saúde como principal desafio, em um cenário de inflação médica persistente. A
executiva destacou que o aumento de custos não está apenas associado aos
preços, mas ao uso ineficiente dos serviços. “O custo da saúde vem muito mais
da utilização inadequada e da falta de informação do usuário”, afirmou.
O eixo da saúde mental dominou parte
relevante das discussões. Dulce Brito, do Einstein, destacou que as empresas
precisam sair de uma lógica reativa e avançar para modelos estruturados de
cuidado. Entre as iniciativas, ela citou a inclusão da saúde mental como
indicador estratégico nas organizações e a implementação de programas de escuta
ativa. Na prática, segundo ela, o tema precisa ser tratado com transparência e
reconhecimento institucional.
Esse debate ganhou contornos ainda mais
profundos em outra mesa, que apontou a solidão como um novo risco corporativo.
“Nunca estivemos tão conectados — e nunca estivemos tão sozinhos”, afirmou uma
das especialistas, ao destacar que muitos profissionais seguem produtivos, mas
emocionalmente isolados. “As pessoas continuam performando, mas muitas estão
emocionalmente isoladas”, disse. O fenômeno, segundo os debatedores, não
aparece nos indicadores tradicionais, mas já impacta engajamento e saúde.
O endividamento dos trabalhadores apareceu
como um dos fatores mais críticos para a saúde corporativa. Adriana Mansueto,
da Gerdau, destacou que o problema já afeta diretamente o desempenho dos
colaboradores. “O endividamento é um pilar de sustentação da saúde mental”,
afirmou. Segundo ela, colaboradores endividados dormem pior, se alimentam mal e
apresentam queda de produtividade. Programas estruturados têm mostrado
resultados expressivos. “Para cada R$ 1 investido, tivemos R$ 12 de retorno”,
disse.
A alimentação também passou a ser tratada
como variável estratégica. Frederico Porto destacou que não é mais possível
dissociar saúde física e mental. “A gente continua separando corpo e mente, mas
isso não existe”, afirmou. “Prevenção não é exame — é mudança de hábito”,
completou.
Ao longo dos debates, ficou evidente que o
modelo tradicional de saúde corporativa — centrado exclusivamente na
assistência — já não responde às demandas atuais. Em seu lugar, emerge uma
abordagem integrada, que combina saúde física, mental, financeira e social, com
uso intensivo de dados e foco em prevenção.
Nesse cenário, empresas passam a assumir
papel mais ativo na gestão da saúde de seus colaboradores, em um movimento que
redefine não apenas a área de recursos humanos, mas a própria lógica de
sustentabilidade dos negócios no País.
ABRH Brasil (Associação Brasileira de
Recursos Humanos), presidida por Leyla Nascimento, está presente em 22 estados
e no Distrito Federal. As seccionais são desvinculadas juridicamente e
independentes, integradas na missão de promover o desenvolvimento dos
profissionais de RH e gestores de pessoas por meio de eventos, pesquisas e
troca de experiências, além de colaborar com os poderes públicos e demais
entidades nos assuntos referentes à sua área de atuação. Filiada à WFPMA (World
Federation of People Management Associations) e à FIDAGH (Federación
Interamericana de Asociaciones de Gestión Humana), a ABRH Brasil é cofundadora
e integra a CRHLP (Confederação dos Profissionais de Recursos Humanos dos
Países de Língua Portuguesa), fundada em 2010.
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