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Podemos dizer, sem grande exagero, que a poesia foi
mãe da filosofia e, de certo modo, avó das ciências. Se voltarmos à
tradição ocidental, veremos que a busca pelo sentido da vida não é algo
novo. Antes mesmo das explicações racionais da filosofia, vieram os mitos
e as poesias. No mundo grego arcaico, os aedos e rapsodos já
narravam, em versos, as origens, os conflitos, os deuses, os destinos e os
mistérios da existência.
Isso porque o ser humano, antes de explicar o
mundo, precisou senti-lo. Antes das razões organizadas, vieram os espantos,
como no homem que sai da caverna de Platão e se assombra com o real. E é
justamente desse “thaumazéin”, como diriam os gregos, que
nasceu a necessidade humana de uma linguagem simbólica,
sensível e interior.
A poesia sempre serviu como um modo de nomear
aquilo que escapa. Ela não existe apenas para ornamentar a linguagem ou
embelezar a realidade. Sua função mais profunda talvez seja a de restituir
espessura à vida. Em outras palavras, ela nos ajuda a perceber que
viver não é apenas funcionar. E esse ponto parece decisivo no século 21.
Vivemos um tempo de aceleração contínua, de
produtividade compulsória e de materialismos cada vez mais externos. Tudo nos
empurra para fora: para a performance, para a exposição, para a utilidade, para
o consumo veloz de conteúdos e sensações. E, assim, o espaço
do silêncio e da contemplação vai sendo comprimido.
Talvez por isso tanta gente experimente, hoje, uma
estranha falta de sentido mesmo em meio a tantas possibilidades. Há informação
em abundância, mas há pouca assimilação. Há conexão o tempo todo, mas pouca
presença. Há discursos por toda parte, mas escasseiam as palavras que realmente
toquem o ser.
Quando quase tudo precisa “servir para alguma
coisa” de modo prático, a poesia nos recorda que há valor também no invisível,
e isso não é pouco. Ela nos devolve àquilo que ainda pulsa sob a
rotina endurecida, e lembra que nem tudo o que importa pode ser medido,
monetizado ou imediatamente explicado.
Não por acaso, eu ainda gosto de voltar,
em espírito, à Grécia antiga, aos templos, a Delfos, ao “conhece-te a ti
mesmo”. Não por nostalgia estéril, mas porque ali permanece uma intuição
decisiva: a de que o ser humano não vive apenas de respostas externas.
Há algo que precisa ser buscado adentro e a poesia
continua sendo uma das linguagens mais aptas para essa travessia interior.
Marcelo Gomes Jorge Feres - historiador, escritor, estudante de Filosofia e autor do livro O balbuciar de um eterno, sob o pseudônimo de Dionysius Fredericus.

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