Educadores apontam estratégias práticas para estimular a leitura de crianças e adolescentes em meio à disputa com as telas
Com a atenção cada vez mais disputada por telas e conteúdos instantâneos, formar leitores tem se tornado um dos principais desafios de pais e educadores. Em abril, mês em que é celebrado o Dia Mundial do Livro (23/04), especialistas apontam que o caminho não está em combater o ambiente digital, mas em criar estratégias que tornem a leitura relevante, prazerosa e presente na rotina de crianças e adolescentes.
Muito além da alfabetização, o contato com os livros desde a infância é determinante para o desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Em um cenário marcado pelo avanço das tecnologias e pela redução do tempo dedicado à leitura, incentivar o hábito de ler, com equilíbrio entre o físico e o digital, é essencial para formar indivíduos críticos, criativos e preparados para o futuro.
Veja abaixo os conselhos de 16 especialistas
sobre o tema:
1. Facilite ao máximo o acesso aos livros
O estímulo precoce à leitura não antecipa a alfabetização formal, mas prepara o cérebro para que esse processo aconteça de forma mais natural e eficiente. Segundo Maria Cardoso, diretora da Educação Infantil do Programa Regular na Escola Móbile, o contato com livros desde cedo contribui para o desenvolvimento do vocabulário, da consciência fonológica e sobretudo do interesse espontâneo pela leitura, o “gosto de ler”.
“Uma criança que tem acesso aos livros
desde bebê desenvolve um interesse natural pela alfabetização, e essa motivação
é um dos maiores preditores de sucesso. Oralmente, ela produz frases mais
completas e entende melhor o que escuta, o que facilita bastante o início da
leitura”, afirma. Além dos impactos na infância, o hábito se estende para a
vida adulta. Crianças leitoras tendem a se tornar indivíduos mais críticos, com
maior capacidade de interpretação, argumentação e articulação de ideias.
2. Comece pela identificação
Para despertar o interesse genuíno pela leitura, é fundamental que os livros dialoguem com o universo do leitor. Laís Martins, coordenadora dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental do Fibonacci Sistema de Ensino, destaca que a leitura deve estar conectada às experiências da criança. “Quando os pais demonstram entusiasmo pelos livros, incentivam naturalmente o gosto pela leitura, já que as crianças aprendem principalmente pela observação”, explica a profissional da educação.
A representatividade também tem papel central nesse processo. De acordo com Fabiana Santana, assessora pedagógica do Líder em Mim, histórias com personagens e contextos familiares ajudam a criança a se reconhecer nas narrativas, fortalecendo autoestima e senso de pertencimento. “Quando a literatura reflete a realidade do pequeno leitor, ela valida suas experiências e transforma a leitura em um exercício de reconhecimento e acolhimento”, afirma a especialista.
Luiz
Cláudio de Araujo Pinho, professor de Filosofia e
Sociologia e autor da Rede Pitágoras, corrobora
essa visão. “Para estimular o hábito da leitura entre crianças e jovens, é
fundamental criar experiências envolventes, como a leitura de trechos
marcantes, a conexão com filmes e temas atuais, além de promover espaços de
troca, como podcasts e o contato frequente com autores e ambientes literários”,
diz ele.
3. Envolva a família e dê o exemplo
A formação de leitores críticos depende também de uma atuação conjunta entre família e escola. Para Beatriz Tostes, coordenadora da Biblioteca da Beacon School, o exemplo dentro de casa é determinante. “Quando crianças e jovens observam o consumo literário por prazer, o livro deixa de ser um objeto distante e se torna um mediador de diálogos”, afirma a profissional.
Rosane
Cesari, coordenadora de Língua Portuguesa do Colégio Rio Branco,
reforça que o desafio atual não é eliminar as telas, mas equilibrar o consumo.
“A família é a base afetiva da leitura. Se a criança não vê os pais lendo,
dificilmente entenderá o livro como fonte de prazer”, diz ela. Cesari também
alerta para a necessidade de diferenciar a leitura superficial -- comum nas
redes sociais --, da leitura profunda, que exige concentração e desenvolve a
capacidade de pensamento crítico.
4. Não elimine o digital, mas o integre
Especialistas concordam que o ambiente digital pode e deve ser incorporado ao processo de formação de leitores. Jalman Lima, gestor de Negócios Acadêmicos da Casio Educação, explica que o desafio é manter a leitura relevante no contexto atual. “O digital amplia o acesso, facilita a descoberta de obras e multiplica as formas de contato com o texto”, afirma.
Victor Haony, assessor pedagógico da Mind Makers, destaca que o uso consciente da tecnologia deve ser ensinado. “Começamos com o livro físico para desenvolver o hábito e, depois, introduzimos a leitura no ambiente digital, mostrando que a tecnologia também pode ser ferramenta de aprendizagem”, explica.
Na mesma linha de pensamento, Vinícius Fernandes, assessor pedagógico do programa de educação bilíngue da SOMOS Educação, Eduall, aponta que integrar livros ao universo digital pode aumentar o interesse dos jovens, inclusive em outros idiomas. “O alcance da leitura virtual é enorme, pode-se encontrar livros de diversos assuntos e idiomas. Para prática do bilinguismo, em muitos desses dispositivos é possível utilizar ferramentas que ajudam na definição de palavras e até mesmo na pronúncia”, afirma ele.
Já para Talita
Fagundes, gerente pedagógica da plataforma par,
a educação midiática amplia o conceito de leitura. “Hoje, ler também significa
interpretar imagens, vídeos e narrativas digitais, compreendendo seus contextos
e intenções”, destaca.
5. Respeite a faixa etária e escolha livros adequados para cada momento
A escolha adequada das obras é essencial para manter o interesse ao longo do desenvolvimento. Especialistas do grupo editorial Multiverso das Letras explicam que, nos primeiros anos, os livros estimulam conexões neurais e o desenvolvimento da linguagem, enquanto entre os 4 e 6 anos as obras devem equilibrar ludicidade e aprendizado. A partir dos 7 anos, as narrativas mais complexas ajudam a desenvolver autonomia e pensamento crítico. Já na pré-adolescência, temas como identidade, diversidade e questões sociais passam a ganhar relevância.
Alessandra
Santos, pedagoga e gerente pedagógica na Amplia Plataforma de Ensino,
ressalta que não basta considerar apenas a idade. “É fundamental observar o
repertório cultural e as experiências da criança. Um bom livro é aquele que
provoca curiosidade e convida à reflexão”, afirma. Thiago
Braga, autor de língua portuguesa do Sistema de Ensino pH,
complementa que o desalinhamento entre livro e maturidade pode prejudicar o
hábito. “Quando o conteúdo está muito além ou aquém da capacidade de
compreensão, a leitura pode gerar frustração ou desinteresse”, comenta ele.
6. Incentive: concursos e prêmios de literatura podem motivar futuros escritores
Estratégias como clubes de leitura, debates e até concursos literários podem estimular o engajamento, desde que não sejam centrados apenas na competição. Para Vinicius de Paula, diretor do Colégio Liceu Paster Start Trilingual School, o foco deve estar no processo. “As iniciativas precisam ser apresentadas como desafios positivos, priorizando o desenvolvimento da leitura e da escrita”, afirma ele.
É nessa lógica que iniciativas do próprio mercado editorial têm buscado ir além da publicação para se aproximar da formação de leitores e escritores. Um exemplo é o Prêmio Multiverso de Literatura, criado pelo grupo editorial Multiverso das Letras como forma de incentivar a produção literária e entender melhor os novos perfis de leitores no país.
Para Nicolau Youssef, diretor-executivo do
grupo, oferecer uma premiação dedicada à literatura também é uma forma de
reafirmar seu valor cultural. “Não queremos ser entendidos apenas como
fazedores de livros; queremos compreender melhor quem são as pessoas que estão
consumindo nossos livros, tanto no público geral quanto dentro das escolas. O
prêmio Multiverso de Literatura veio também para isso”, afirma.
7. Leitura é prazer, não obrigação
Associar a leitura apenas a demandas
escolares pode gerar rejeição ao hábito. Jessica Lindhorst, professora
do 1º ano e Líder dos anos iniciais do Ensino Fundamental I na The British College of Brazil, escola internacional em São
Paulo, reforça que o incentivo deve vir acompanhado de liberdade de
escolha. “Permitir que crianças e adolescentes escolham o que desejam ler é
essencial para tornar o hábito consistente”, afirma a educadora.

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