O
envelhecimento acelerado da população brasileira tem colocado a demência no
centro do debate sobre saúde pública no país. Dados do Relatório Nacional sobre
Demência (Renade) indicam que cerca de 2 milhões de brasileiros com mais de 60
anos vivem atualmente com a doença.
A
projeção é de crescimento significativo nas próximas décadas. Até 2050, o número
de casos pode ultrapassar 5 milhões, acompanhando o aumento da expectativa de
vida e a mudança no perfil etário da população.
Apesar
do avanço, parte relevante dos casos pode ser evitada. O próprio relatório
aponta que até 45% das ocorrências estão associadas a fatores de risco
modificáveis ao longo da vida, o que abre espaço para estratégias de prevenção.
Entre
esses fatores, a educação aparece como um dos elementos centrais de proteção
cognitiva. Estudos na área de neurologia já demonstram que níveis mais altos de
escolaridade estão associados a menor risco de desenvolvimento de demência.
Para a
psiquiatra infantil Maxilaine Nonato, que integra o conselho socioemocional do
Clube Amplexo, a prevenção da demência exige uma abordagem integrada entre
saúde e educação ao longo da vida. “Quando falamos de saúde cognitiva, não
estamos olhando apenas para a velhice. O desenvolvimento das funções cognitivas
começa na infância e precisa ser estimulado continuamente, em diferentes fases
da vida”, afirma.
Segundo a especialista, a construção de uma reserva cognitiva mais robusta depende não apenas da escolarização formal, mas também do estímulo constante ao longo dos anos, incluindo aspectos emocionais e comportamentais. “Educação e saúde mental não podem caminhar separadas quando pensamos em envelhecimento saudável”, completa.
No
entanto, o debate ainda tende a se concentrar no acesso à educação formal,
deixando de lado um ponto fundamental: a continuidade dos estímulos cognitivos
ao longo da vida adulta e do envelhecimento.
Para a
educadora Clarissa Vergara, do Clube Amplexo, esse é um dos principais gargalos
na forma como o tema é abordado no Brasil.
“Existe
um consenso de que a escolaridade protege contra o declínio cognitivo, mas a
discussão para por aí. Pouco se fala sobre o que acontece depois que a pessoa
sai da escola e como o cérebro continua — ou não — sendo estimulado ao longo da
vida”, afirma.
Segundo
ela, a ausência de uma cultura de cuidado com a saúde cognitiva contribui para
o agravamento do cenário.
“A
gente ainda não incorporou a ideia de que o cérebro também precisa de
manutenção contínua. Falamos de alimentação, de exercício físico, de saúde
mental, mas raramente falamos de estímulo cognitivo como parte da rotina”, diz.
Esse
olhar mais amplo tem ganhado espaço a partir do conceito de “saúde cognitiva”,
que passa a ser entendido como um terceiro pilar do bem-estar, ao lado da saúde
física e mental.
Nesse
contexto, a educação deixa de ser vista apenas como uma etapa da vida e passa a
ser entendida como um processo contínuo, com impacto direto na qualidade do
envelhecimento.
Para
Clarissa, isso implica repensar não apenas o acesso à educação, mas também os
formatos e as experiências de aprendizagem disponíveis para adultos e idosos.
“Não se
trata só de estudar mais, mas de manter o cérebro ativo de diferentes formas.
Isso pode acontecer por meio de cursos, leitura, atividades culturais,
aprendizado de novas habilidades ou qualquer experiência que desafie o pensamento”,
explica.
A
discussão também levanta questionamentos sobre a capacidade do modelo
educacional atual de responder a esse desafio.
“O
modelo tradicional ainda está muito focado na formação inicial. Se queremos
pensar em longevidade, precisamos de estruturas mais flexíveis, que acompanhem
as pessoas ao longo da vida e incentivem o aprendizado contínuo”, completa.
O
avanço desse debate também dialoga com políticas públicas voltadas ao
envelhecimento da população, especialmente diante dos impactos sociais e
econômicos associados às doenças cognitivas.
Ao
ampliar o papel da educação para além da escola, a discussão sobre saúde
cognitiva aponta para um novo campo de atuação que conecta aprendizagem,
prevenção e qualidade de vida.
Para
Clarissa, o tema tende a ganhar cada vez mais relevância nos próximos anos.
"O Brasil está envelhecendo rápido e ainda fala pouco sobre isso. Olhar
para a saúde cognitiva é uma forma de se antecipar a um problema que já está
colocado e que tende a crescer”, afirma.

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