Há quem queira que o passado
retorne para "salvar" o Brasil. São os saudosos da Ditadura Militar
de 1964. Defendem ordem e costumes sociais retrógrados. Apelam a princípios
cristãos para curar o mundo que, alegam, foi degradado por seus adversários, os
quais alcunham de “comunistas”.
Existe quem se arrogue a
capacidade de ditar o bem sobre mal. São os que acreditam em desenhar ideias e
impô-las à vida publica por meio de ortopedias sociais. Seguros de que detêm a
fórmula que move “cientificamente” a História, pretendem conformar os fatos ao
que idealizam. Seus adversários são epitetados de “fascistas”.
Os primeiros são havidos, e se
hão, como de direita; os segundos são tidos e têm-se como de esquerda. Vejo a
direita como equivocada na leitura do mundo e na sua propositura para uma
direção histórica, assim como nos seus métodos de intervenção social. São, no
discurso e na prática, anti-iluministas; são o atravanco do progresso.
A esquerda, são pelo menos duas.
Uma lê bem as circunstâncias, tem proposta de direção adequada, mas suas
maneiras têm muita identidade com as certezas autoritárias da direita. Ditadura
por ditadura, recuso essa esquerda como recuso a direita. É que não acredito em
fórmulas conducentes à “solução” da História.
A outra esquerda, a democrática,
mais liberal, sabe que não fará a “revolução”, compreende que deve legitimar
suas propostas, joga as regras legais do jogo, ainda que se proponha a
modificá-las no rumo das liberdades e igualdades pessoais e públicas. Algo
próximo da Utopia Desarmada, de Castañeda.
A maior parte da esquerda
brasileira, eu a tenho como messiânica, sincrética de algum materialismo
histórico e muito salvacionismo religioso. Valho-me do testemunho insuspeito de
Frei Betto, ícone do lulopetismo: As Comunidades Eclesiais de Base, “Elas são a
sementeira de todo o movimento social que veio depois. Hoje é difícil encontrar
um político de extração popular que não tenha origem nas CEBs” (https://is.gd/yXJKfK).
Ora, essas comunidades eram
Teologia da Libertação, uma salada de marxismo mal lido e evangelhismo
reinterpretado. Puseram Jesus Cristo como militante da luta de classes. Bem, é
sabido, materialismo histórico exclui o “ópio do povo”, assim como o “ópio dos
intelectuais” exclui religião.
Daí, talvez, tenhamos nossos
discursos de diferença tão próximos no seu modo de ser excludente. Os debates
políticos levados às redes sociais são uma profusão de diferentes “cultos”
fundados em certezas doutrinárias e praticados com ódio. Mais que polarização
ideológica, há polarização afetiva: recebe-se o argumento do adversário com
rancor.
Quero dizer: estamos como se nos
matássemos a nós mesmos, numa altercação em que uma direita reacionária,
autoritária e corrupta e uma esquerda messiânica, autoritária e corrupta se
insultam, proclamando convicções. Gente que não escolhe políticos, louva
ídolos.
Certezas sem ideias, sem
programas, são levadas à legitimação popular. Tudo se reduz à razão eleitoral,
operando em vazio ideológico e programático, longe de participação popular. A
direita sofre de tentação autoritária; já tentou vários golpes, teve sucesso em
1964. A esquerda fraudou promessas de campanha e sofre perda de apoio da
população, que foi enganada desde a “composição abrangente para ganhar as eleições”.
Fez-se uma mancomunação de direita com esquerda para “obter governabilidade”,
então, depois, vem a decorrente dificuldade de governar.
Um dia o filósofo John Locke
(Séc XVII) ensinou que a humanidade, filosoficamente, não tem condições de ter
certezas. No Ensaio Acerca do Entendimento Humano recomenda humildade e
compenetração no entendimento do interlocutor:
“Faríamos bem se nos
comiserássemos com nossa ignorância mútua, tentando removê-la de forma justa e
gentil por meio da informação; e erramos ao taxar os outros de perversos e
obstinados, apenas porque não renunciam a suas próprias opiniões para adotar as
nossas; pois é bem provável que sejamos igualmente obstinados quando nos
recusamos a aceitar, ao menos, algumas das opiniões alheias. Pois quem de nós
detém incontestável evidência sobre a verdade de tudo em que se acredita, ou
sobre a falsidade de tudo o que condena; e quem poderá dizer que examinou a
fundo todas as suas opiniões e as dos outros?
A necessidade de acreditar em
alguma coisa mesmo sem ter conhecimento total e às vezes sem o mais tênue
fundamento, nesse bruxuleante estado de ação e de cegueira em que nos
encontramos, deveria nos tornar mais dispostos a buscar nos informarmos a nós
mesmos, em vez de reprimir aos outros.”
François-Marie Arouet, o
Voltaire, muito jovem leu Locke e levou suas ideias à França, ajudando a
inspirar a Revolução Iluminista. A mim me fica a impressão de que ainda não
vencemos o suficiente este estágio civilizatório: à direita e à esquerda temos
coronelismo, patrimonialismo, caciquismo, mandonismo, caudilhismo,
salvacionismo, populismo, demagogismo, filhismo e corrupção. Esse atavismo
político autoritário toma o Legislativo, o Executivo, o Judiciário.
Tolerância pública e liberdade
individual são bens de interesse coletivo construídos no bojo de árduas lutas
libertárias. A vida política democrática supõe persuasão do outro acerca da
conveniência da minha ideia. Talvez devamos rever nossa tradição dogmática.
Todavia... enquanto isso? Que fazer? Devemos, embora os males da nossa vida
política, de algum modo levarmo-nos a participar.
Em tempos de eleição, aos
críticos fáceis, defensores do “ninguém presta” que justifica “neutralidade”,
recomendo com ironia: Candidate-se, leve sua “pureza” ao eleitor, ou cale-se.
Sei, contudo, que não é assim. Se não participo dos eventos do meu tempo, sou o
analfabeto político de Brecht.
Saber
lidar com o que se tem. Com os dados da realidade, sem idealizações
purificantes, fazer-se cabo eleitoral: atribuir-se conseguir integrantes para
um partido político ou eleitores para um candidato. Inexistente o ótimo,
escolher o menos ruim, votar, pedir votos. Fazer campanha, antiga e cívica
forma de não estar em “silêncio ruidoso”, prática em que muito se fala e pouco
se faz.
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicanalista e Jornalista.
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