sábado, 18 de abril de 2026

DIREITA, ESQUERDA, SECATARISMO, A PARTE DE CADA UM


Há quem queira que o passado retorne para "salvar" o Brasil. São os saudosos da Ditadura Militar de 1964. Defendem ordem e costumes sociais retrógrados. Apelam a princípios cristãos para curar o mundo que, alegam, foi degradado por seus adversários, os quais alcunham de “comunistas”.

Existe quem se arrogue a capacidade de ditar o bem sobre mal. São os que acreditam em desenhar ideias e impô-las à vida publica por meio de ortopedias sociais. Seguros de que detêm a fórmula que move “cientificamente” a História, pretendem conformar os fatos ao que idealizam. Seus adversários são epitetados de “fascistas”.

Os primeiros são havidos, e se hão, como de direita; os segundos são tidos e têm-se como de esquerda. Vejo a direita como equivocada na leitura do mundo e na sua propositura para uma direção histórica, assim como nos seus métodos de intervenção social. São, no discurso e na prática, anti-iluministas; são o atravanco do progresso.

A esquerda, são pelo menos duas. Uma lê bem as circunstâncias, tem proposta de direção adequada, mas suas maneiras têm muita identidade com as certezas autoritárias da direita. Ditadura por ditadura, recuso essa esquerda como recuso a direita. É que não acredito em fórmulas conducentes à “solução” da História.

A outra esquerda, a democrática, mais liberal, sabe que não fará a “revolução”, compreende que deve legitimar suas propostas, joga as regras legais do jogo, ainda que se proponha a modificá-las no rumo das liberdades e igualdades pessoais e públicas. Algo próximo da Utopia Desarmada, de Castañeda.

A maior parte da esquerda brasileira, eu a tenho como messiânica, sincrética de algum materialismo histórico e muito salvacionismo religioso. Valho-me do testemunho insuspeito de Frei Betto, ícone do lulopetismo: As Comunidades Eclesiais de Base, “Elas são a sementeira de todo o movimento social que veio depois. Hoje é difícil encontrar um político de extração popular que não tenha origem nas CEBs” (https://is.gd/yXJKfK).

Ora, essas comunidades eram Teologia da Libertação, uma salada de marxismo mal lido e evangelhismo reinterpretado. Puseram Jesus Cristo como militante da luta de classes. Bem, é sabido, materialismo histórico exclui o “ópio do povo”, assim como o “ópio dos intelectuais” exclui religião.

Daí, talvez, tenhamos nossos discursos de diferença tão próximos no seu modo de ser excludente. Os debates políticos levados às redes sociais são uma profusão de diferentes “cultos” fundados em certezas doutrinárias e praticados com ódio. Mais que polarização ideológica, há polarização afetiva: recebe-se o argumento do adversário com rancor.

Quero dizer: estamos como se nos matássemos a nós mesmos, numa altercação em que uma direita reacionária, autoritária e corrupta e uma esquerda messiânica, autoritária e corrupta se insultam, proclamando convicções. Gente que não escolhe políticos, louva ídolos.

Certezas sem ideias, sem programas, são levadas à legitimação popular. Tudo se reduz à razão eleitoral, operando em vazio ideológico e programático, longe de participação popular. A direita sofre de tentação autoritária; já tentou vários golpes, teve sucesso em 1964. A esquerda fraudou promessas de campanha e sofre perda de apoio da população, que foi enganada desde a “composição abrangente para ganhar as eleições”. Fez-se uma mancomunação de direita com esquerda para “obter governabilidade”, então, depois, vem a decorrente dificuldade de governar.

Um dia o filósofo John Locke (Séc XVII) ensinou que a humanidade, filosoficamente, não tem condições de ter certezas. No Ensaio Acerca do Entendimento Humano recomenda humildade e compenetração no entendimento do interlocutor:

“Faríamos bem se nos comiserássemos com nossa ignorância mútua, tentando removê-la de forma justa e gentil por meio da informação; e erramos ao taxar os outros de perversos e obstinados, apenas porque não renunciam a suas próprias opiniões para adotar as nossas; pois é bem provável que sejamos igualmente obstinados quando nos recusamos a aceitar, ao menos, algumas das opiniões alheias. Pois quem de nós detém incontestável evidência sobre a verdade de tudo em que se acredita, ou sobre a falsidade de tudo o que condena; e quem poderá dizer que examinou a fundo todas as suas opiniões e as dos outros?

A necessidade de acreditar em alguma coisa mesmo sem ter conhecimento total e às vezes sem o mais tênue fundamento, nesse bruxuleante estado de ação e de cegueira em que nos encontramos, deveria nos tornar mais dispostos a buscar nos informarmos a nós mesmos, em vez de reprimir aos outros.”

François-Marie Arouet, o Voltaire, muito jovem leu Locke e levou suas ideias à França, ajudando a inspirar a Revolução Iluminista. A mim me fica a impressão de que ainda não vencemos o suficiente este estágio civilizatório: à direita e à esquerda temos coronelismo, patrimonialismo, caciquismo, mandonismo, caudilhismo, salvacionismo, populismo, demagogismo, filhismo e corrupção. Esse atavismo político autoritário toma o Legislativo, o Executivo, o Judiciário.

Tolerância pública e liberdade individual são bens de interesse coletivo construídos no bojo de árduas lutas libertárias. A vida política democrática supõe persuasão do outro acerca da conveniência da minha ideia. Talvez devamos rever nossa tradição dogmática. Todavia... enquanto isso? Que fazer? Devemos, embora os males da nossa vida política, de algum modo levarmo-nos a participar.

Em tempos de eleição, aos críticos fáceis, defensores do “ninguém presta” que justifica “neutralidade”, recomendo com ironia: Candidate-se, leve sua “pureza” ao eleitor, ou cale-se. Sei, contudo, que não é assim. Se não participo dos eventos do meu tempo, sou o analfabeto político de Brecht.

Saber lidar com o que se tem. Com os dados da realidade, sem idealizações purificantes, fazer-se cabo eleitoral: atribuir-se conseguir integrantes para um partido político ou eleitores para um candidato. Inexistente o ótimo, escolher o menos ruim, votar, pedir votos. Fazer campanha, antiga e cívica forma de não estar em “silêncio ruidoso”, prática em que muito se fala e pouco se faz.

  

Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicanalista e Jornalista.

 

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