A Ciência e a Sensibilidade das Escolhas Cromáticas
Todos os anos,
marcas e institutos especializados anunciam com entusiasmo a “cor do ano”, uma
tonalidade que promete influenciar moda, decoração, design, beleza e até
comportamento. Mas o que poucos sabem é que essa escolha não é aleatória nem
apenas estética. Por trás dela existe um processo complexo, que mistura
ciência, cultura, tecnologia e sensibilidade coletiva. A cor do ano é, antes de
tudo, um retrato simbólico do espírito do tempo.
A definição da cor
do ano envolve uma rede global de especialistas em tendências, comportamento e
design. Instituições como WGSN, Coloro, Pantone e Color Marketing Group (CMG)
organizam workshops, seminários e comitês consultivos que analisam sinais
culturais, como movimentos sociais, questões ambientais, debates sobre saúde
mental e inclusão; referências artísticas, como exposições, obras de arte,
cinema e música; avanços tecnológicos, incluindo novas formas de produção,
pigmentação e aplicação de cor; e comportamento de consumo, observando desejos
emergentes, mudanças de estilo de vida e padrões emocionais. A cor escolhida
precisa sintetizar esses elementos e funcionar como uma resposta simbólica às inquietações
e aspirações coletivas.
Como destaca
Marcia Holland, especialista em CMF e membro do CMG, a cor só se torna viável
quando caminha de mãos dadas com a tecnologia. Um exemplo marcante foi o caso
de um lilás aprovado por um comitê de tendências, mas inviável para produção em
porcelana devido à limitação dos fornos industriais. Esse episódio revela que a
cor do ano precisa ser tecnicamente aplicável nos materiais e processos de cada
setor, que sua escolha envolve testes de fixação, durabilidade e compatibilidade
com substratos diversos, e que sua viabilidade depende da disponibilidade de
pigmentos e insumos — algo que muitas vezes é subestimado.
O termo alemão
“zeitgeist”, que significa espírito do tempo, é frequentemente usado por
especialistas para definir o papel da cor do ano. Ela não apenas antecipa
tendências visuais, mas também traduz desejos coletivos, como o anseio por
calma, segurança ou ousadia; mudanças sociais, como a valorização da
diversidade e da sustentabilidade; e narrativas emocionais, como a busca por
reconexão com a natureza ou afirmação de identidade. Em 2026, por exemplo,
espera-se que tons terrosos, verdes acinzentados e roxos densos ganhem
protagonismo por refletirem equilíbrio, introspecção e profundidade emocional.
A escolha da cor do ano também envolve uma dimensão subjetiva e intuitiva. Profissionais como Marcia Holland, que atuam há décadas em comitês internacionais, combinam experiência técnica com pigmentos, materiais e processos; conhecimento artístico sobre composição, harmonia e impacto visual; e leitura sociocultural sobre os temas que movem o mundo. Essa intersecção entre ciência e sensibilidade é o que torna a cor do ano uma escolha tão poderosa — capaz de influenciar mercados, inspirar criações e conectar pessoas.
A cor do ano é muito mais do que uma tendência passageira. Ela é o resultado de um processo profundo, colaborativo e multidisciplinar que transforma desejos coletivos em linguagem visual. Ao entender como essa escolha é feita, ganhamos não apenas repertório estético, mas também consciência sobre o papel simbólico da cor em nossas vidas.
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