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A juventude é uma fase importante da vida, da qual as escolhas e caminhos tomados costumam definir o futuro do adulto. As novas gerações estão mais conectadas, questionadoras e atentas a temas como propósito, diversidade e saúde mental, trazendo uma nova forma de relacionamento com o mundo e com os “adultos”. Nesse cenário, especialistas chamam atenção para a importância de compreender as diferenças e desenvolver novas formas de convívio e diálogo.
Segundo o Estatuto da Juventude brasileiro, o indivíduo é
considerado “jovem” entre os 15 e 29 anos, período que compreende a
adolescência e o início da vida adulta. Mas esse conceito é relativo, e alguns
órgãos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo,
costumam classificar a juventude entre 15 e 24 anos. Recentemente, viralizou na
internet um estudo liderado por neurocientistas da Universidade de Cambridge e
publicado na renomada revista científica Nature Communications, apontando que a
adolescência vai dos 9 anos 30 anos.
Para além das definições etárias, compreender quem são esses
jovens hoje passa também por observar o contexto em que estão inseridos e as
transformações que moldam seus comportamentos, expectativas e formas de
interação. É a partir dessa leitura mais ampla que especialistas buscam
explicar como pensam as novas gerações — e por que, muitas vezes, elas parecem
desafiar modelos tradicionais de educação, trabalho e convivência.
O QUE QUEREM OS JOVENS?
Na avaliação de Carla Litrenta, pedagoga, educadora parental e
coordenadora de relacionamentos da Escola Internacional de Alphaville - EIA, de Barueri (SP), os jovens das
novas gerações têm demonstrado uma mudança significativa de prioridades em
relação ao passado. Segundo ela, há uma valorização mais evidente de propósito,
flexibilidade e bem-estar nas decisões, especialmente no que diz respeito à
carreira e à educação. “Hoje, muitos jovens não estão em busca apenas de
estabilidade profissional, mas de sentido no que fazem e de oportunidades de
crescimento mais dinâmicas”, afirma.
Ainda de acordo com a especialista da EIA, esse comportamento
também se reflete na forma como se relacionam com o aprendizado: há uma
expectativa crescente por experiências educacionais mais participativas,
conectadas com a prática e com o mundo real. “Eles tendem a se engajar mais
quando percebem relevância no conteúdo e quando podem assumir um papel ativo no
processo de aprendizagem”, explica.
A docente avalia que esse perfil está diretamente relacionado ao
contexto em que essa geração foi formada. “Estamos falando de jovens que
cresceram em um ambiente digital, com acesso imediato à informação e expostos a
mudanças constantes. Isso contribui para o desenvolvimento de um olhar mais
crítico e para uma menor tolerância a estruturas muito rígidas ou pouco
transparentes”, diz Carla. “Não se trata de falta de comprometimento, mas de
uma nova forma de se posicionar e de se engajar diante das instituições e das
relações.”
POR QUE A CONVIVÊNCIA GERACIONAL É DIFÍCIL?
Na avaliação de Lívia Martins, diretora pedagógica do colégio Progresso Bilíngue, com unidades em diferentes cidades do estado de SP, as tensões
entre gerações estão longe de ser um fenômeno recente, mas assumem características
próprias no contexto atual. Segundo ela, diferenças de valores, linguagem e
expectativas tendem a tornar a convivência mais desafiadora, sobretudo em
ambientes onde o diálogo ainda é limitado. “Quando não há espaço para escuta e
troca, essas diferenças se intensificam e acabam gerando conflitos”, afirma.
A especialista observa que há também um desencontro de percepções
entre as gerações. “É comum que adultos interpretem os jovens como imediatistas
ou pouco resilientes, enquanto os mais novos enxergam os mais velhos como
rígidos ou resistentes à mudança”, explica. Esse tipo de leitura mútua
contribui para ruídos na comunicação e dificulta a construção de relações mais
equilibradas.
Na opinião de Lívia, compreender o contexto histórico de cada
geração é um passo essencial para reduzir esses atritos. “Conflitos geracionais
sempre existiram, mas hoje eles são potencializados pela velocidade das
transformações e pelo impacto da tecnologia no cotidiano”, avalia. “Cada
geração é moldada pelo seu tempo, e reconhecer isso é fundamental para diminuir
julgamentos e favorecer uma convivência mais saudável.”
COMO ORIENTAR OS JOVENS?
Na avaliação de Audrey Taguti, diretora geral e pedagógica do Brazilian
International School – BIS,
de São Paulo (SP), orientar jovens no cenário atual exige uma mudança de
abordagem por parte dos adultos. Mais do que impor regras, é fundamental
desenvolver habilidades como escuta ativa, mediação e capacidade de orientação.
“A construção de vínculos baseados em confiança e respeito mútuo tende a ser
mais eficaz para engajar os jovens do que modelos excessivamente autoritários”,
afirma.
Audrey destaca que práticas como comunicação clara, oferta de
feedback constante e abertura ao diálogo contribuem para a criação de ambientes
mais acolhedores e produtivos. Ao mesmo tempo, ela ressalta que a presença de
direção e limites continua sendo essencial. “Dar autonomia não significa
ausência de direção. O jovem precisa entender que liberdade vem acompanhada de
responsabilidade”, explica.
Para a educadora, o principal desafio está no equilíbrio.
“Orientar jovens hoje exige dar espaço para que se expressem, mas também
ajudá-los a desenvolver disciplina, pensamento crítico e responsabilidade”,
avalia. “A autoridade não desaparece, mas precisa ser construída de forma mais
horizontal, baseada em legitimidade e não apenas em hierarquia.”
O PAPEL DA ESCOLA NOS CONFLITOS GERACIONAIS
Nas escolas de educação básica no Brasil, convivem hoje diferentes
gerações, cada uma marcada por contextos e referências distintas. Os alunos
pertencem majoritariamente à parcela mais jovem da Geração Z (nascidos entre
1997 e 2010) e Geração Alpha (nascidos entre 2010 e 2024), enquanto professores
e gestores costumam estar distribuídos entre a Geração Y/millenials (nascidos
entre 1981 e 1996) e a Geração X (nascidos entre 1965 e 1980), com alguns
profissionais ainda pertencentes ao grupo dos Baby Boomers (nascidos entre 1946
e 1964). Esse encontro de perfis geracionais diversos dentro do mesmo ambiente
escolar ajuda a explicar tanto as riquezas quanto os desafios na comunicação e
nas relações do dia a dia.
Na visão de Fatima Lopes, diretora geral da Escola
Bilíngue Aubrick, de
São Paulo (SP), a escola ocupa um papel estruturante na articulação entre
diferentes gerações. Para ela, mais do que mediar conflitos, a escola precisa
intencionalmente formar alunos capazes de transitar entre perspectivas diversas
com repertório, criticidade e responsabilidade.
“A convivência entre gerações não é um desafio a ser contornado,
mas uma oportunidade educativa potente. Cabe à escola transformar essas
diferenças em aprendizagem, desenvolvendo nos alunos a capacidade de escuta,
argumentação e convivência em contextos diversos”, afirma.
Fátima destaca que esse cenário exige uma evolução consistente das
práticas pedagógicas, com foco em experiências de aprendizagem que façam
sentido, que engajem e que desafiem o aluno a pensar, posicionar-se e construir
entendimento sobre o mundo.
Para ela, o fortalecimento de uma cultura de diálogo é central. “Quando a escola estrutura espaços de escuta qualificada e promove o protagonismo com responsabilidade, ela forma não apenas bons alunos, mas indivíduos capazes de conviver, colaborar e contribuir em uma sociedade plural”, conclui.
Audrey Taguti - acumula 41 anos de experiência e trabalho em Educação. É formada em Magistério e Pedagogia, possui pós-graduações em Psicopedagogia e Bilinguismo e é especialista em Alfabetização. É diretora pedagógica do Brazilian International School – BIS, de São Paulo/SP desde a fundação do colégio, em 2000.
Carla Litrenta Todaro - pedagoga, educadora parental e pós-graduação em “Psicologia Positiva: Ciência do Bem-Estar e da Autorrealização” e em “Bullying, Violência e Discriminação na Escola”. Iniciou sua carreira há quase 30 anos como professora de alfabetização nas séries iniciais, trilhando seu caminho no mundo da educação. Estudiosa das relações e do desenvolvimento humano, atualmente é coordenadora de relacionamentos da Escola Internacional de Alphaville.
Fatima Lopes - pós-graduada em Gestão Escolar, especialista em Bilinguismo e apaixonada pela área da Educação. De sua primeira formação, em Enfermagem, ela mantém o dom de cuidar das pessoas: gosta de se relacionar com alunos, pais e colegas, promovendo um ambiente de aprendizado colaborativo e acolhedor. Diz ter como missão contribuir para a formação integral dos estudantes, formando cidadãos mais conscientes e preparados para o futuro. É fundadora e diretora geral da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo.
Lívia Martins - pedagoga formada pela Unicamp, com MBA em Gestão Escolar pela USP-Esalq e especializações nas áreas de Tecnologia Educacional (USP-ICMC) e Neurociência e Psicologia Positiva (PUC-PR), Lívia tem mais de 10 anos de experiência em sala de aula como professora. Em 2015, iniciou sua trajetória na gestão, atuando em diferentes papéis. É diretora pedagógica das unidades Progresso Bilíngue.

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