Com apenas 30% dos veículos e 11% dos imóveis protegidos, maior parte da população brasileira está exposta a perdas relevantes
O Brasil passa por
um período de expansão no consumo de bens duráveis e patrimoniais. O mercado
imobiliário finalizou 2025 com um crescimento de 10% em relação ao período
anterior, aponta a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Já o
setor automotivo apresentou um avanço de 16% nas vendas durante o primeiro
trimestre de 2026, revelam dados da Federação Nacional da Distribuição de
Veículos Automotores (Fenabrave). Entretanto, enquanto o acesso a produtos de
valor aumenta, a cultura de proteção desses ativos continua em baixa, expondo
milhões de brasileiros a riscos financeiros que poderiam ser evitados.
Apenas cerca de
30% dos veículos e 11% dos imóveis têm seguro no país, aponta a Confederação
Nacional das Seguradoras (CNseg), o que deixa a maior parte desses patrimônios
exposta a riscos importantes. Esse cenário evidencia um problema
comportamental, no qual milhões de brasileiros levam anos para conquistar um
carro ou um imóvel, mas não incluem a proteção desses bens como parte do
planejamento. Na prática, isso aumenta a vulnerabilidade das famílias e reforça
a necessidade de uma mudança na forma como o risco e o patrimônio são encarados
no país.
Para Kleber Vitor,
Superintendente da Associação de Proteção Veicular e Serviços do Brasil (APVS
Brasil), a baixa adesão à proteção de bens no Brasil não está ligada a uma
limitação financeira, mas a uma questão cultural ainda muito presente. “O
brasileiro é educado para celebrar a conquista do bem, mas falha na gestão do
risco. Se a limitação fosse estritamente financeira, o bem sequer seria adquirido.
O desafio é mudar a percepção comportamental: a proteção não é um ‘custo
extra’, mas sim a etapa final e indispensável para garantir que o esforço de
uma vida não seja perdido”, explica.
A negligência na
proteção de bens duráveis pode expor pessoas a riscos que vão além da perda
material. Em situações como roubo, acidentes graves ou desastres, o impacto
atinge anos de trabalho dedicados àquela conquista. Além disso, há casos em que
o consumidor segue pagando o financiamento do bem, ao mesmo tempo em que
precisa assumir novas dívidas para substituí-lo. Esse efeito é conhecido como
“endividamento duplo” e causa comprometimento financeiro a longo prazo.
A desproteção
patrimonial ainda gera outros impactos sociais, criando ciclos de dívida
financeira difíceis de reverter e impactando até mesmo a economia do país. “Na
prática, a perda de um veículo utilizado como ferramenta de trabalho empurra
famílias inteiras para a informalidade ou para a dependência de
assistencialismo. Do ponto de vista econômico, a falta de proteção trava a
economia local, pois o cidadão deixa de consumir para conseguir pagar os
prejuízos e juros. Essa dinâmica atua como uma máquina silenciosa de
desigualdade, enfraquecendo a classe média”, revela Kleber Vitor.
O custo elevado
dos modelos tradicionais de proteção também contribui para esse cenário, ao
restringir o acesso sobretudo entre a população de menor renda. Para uma
parcela significativa dos brasileiros, os valores cobrados permanecem
incompatíveis com o orçamento, o que dificulta a consolidação de uma cultura de
proteção patrimonial. Como resultado, a proteção de bens ainda é frequentemente
tratada como um item secundário no planejamento financeiro, mesmo diante dos
riscos envolvidos.
“Historicamente, o
mercado tradicional de seguros adotou uma lógica excludente, com barreiras de
preço, perfil e CEP que afastaram a maior parte da população. É nesse cenário
que o modelo associativo e mutualista se destaca. Ao basear a proteção no rateio
justo e sem burocracias punitivas, o mutualismo quebra o elitismo do setor.
Mais do que proteger bens, esse modelo atua como uma ferramenta de educação e
inclusão financeira”, finaliza Kleber Vitor, que ressalta o poder de inclusão
do modelo mutualista atualmente.

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