Especialistas apontam solução simples para reduzir os danos: ouvir o paciente
A cada
ano, milhões de pessoas são impactadas durante o cuidado em saúde — e uma
parcela significativa desses casos poderia ser evitada com uma medida ainda
pouco explorada: escutar e envolver o paciente.
Últimos dados internacionais da OECD de 2023 (Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico) apontam que 1 em cada 6 pacientes relata falhas de segurança
durante o cuidado em saúde, que vão desde erros de medicação
até problemas de comunicação e atrasos no atendimento. Estudos indicam que,
quando essas informações são efetivamente consideradas pelos serviços de saúde,
contribuem para prevenir danos e salvar vidas.
Em
países de baixa e média renda, o cenário é ainda mais preocupante: são cerca de
134 milhões de ocorrências por ano, associadas a aproximadamente 2,6 milhões de
mortes.
Os
dados reforçam a importância de incorporar a perspectiva do paciente às
estratégias de segurança, ampliando a capacidade de identificação de riscos e
contribuindo para a melhoria contínua da qualidade assistencial.
“Além
de ampliar a identificação de problemas, o engajamento dos pacientes tem
impacto direto na melhoria dos serviços. Hospitais que estruturam canais de
escuta — como pesquisas, relatos espontâneos e mecanismos formais de feedback —
conseguem agir com mais rapidez, direcionar melhor suas ações e fortalecer a cultura
de segurança”, afirma a presidente da Sociedade Brasileira para a Qualidade do
Cuidado e Segurança do Paciente, Paola Andreoli.
Paola
ressalta que a baixa participação dos pacientes ainda é um desafio. “Não é possível
falar em segurança do paciente sem a participação do próprio paciente”,
reforça.
Retrato do Brasil - No
país, o cenário também chama atenção. De acordo com a ANVISA – Agência Nacional
de Vigilância Sanitária – mais de 140 mil já foram registrados por
profissionais de saúde de instituições de saúde em 2026, evidenciando a
dimensão do desafio. Apenas nos três primeiros meses do ano, foram mais de 41
mil casos em janeiro, cerca de 39 mil em fevereiro e outros 43 mil em março. Em
abril, até o dia 13, já são 16.266 notificações.
Segundo dados da ANVISA, São Paulo registrou 19.125 notificações registradas pelas instituições de saúde, este ano, e apenas 506 pacientes relataram falhas.
“A
participação do usuário ainda é pequena e poucas pessoas sabem que tem o
direito a relatar falhas na assistência, contribuindo assim com a melhoria da
qualidade e da segurança para todos”, ressalta Paola. Segundo ANVISA, somente 4
mil pacientes relataram falhas durante a assistência à saúde. Para registrar
basta preencher os dados neste link na ANVISA
Diante
desse cenário, a SOBRASP reforça a necessidade de tratar a segurança do
paciente como prioridade. “Nossa ênfase está na constatação de que grande parte
dessas ocorrências poderia ser evitada com medidas simples, como escuta ativa
dos pacientes, comunicação efetiva e transparência”, alerta Paola Andreoli.
Primeiro Estatuto do Direito do Paciente - A
participação do paciente deve ganhar um novo impulso com a criação do primeiro
Estatuto dos Direitos do Paciente, a primeira legislação brasileira voltada
exclusivamente à regulamentação estruturada dos direitos e deveres em serviços
de saúde públicos e privados.
Entre os principais avanços estão a participação nas decisões sobre o próprio tratamento, com base no consentimento informado, o direito à segunda opinião médica, o acesso ao prontuário a qualquer momento e o recebimento de informações claras sobre diagnóstico, riscos e benefícios. Na prática, a nova lei fortalece o papel do paciente como agente ativo no cuidado e contribui para uma assistência mais segura, transparente e centrada na pessoa.
Metas nacionais até 2030 - Com a
publicação da nova edição do plano da Agência Nacional de Vigilância Sanitária,
os serviços de saúde no Brasil contam com novos desafios a serem perseguidos
para segurança do paciente até 2030.
Entre
os principais objetivos estão:
·
presença de Núcleos de
Segurança do Paciente em até 90% dos hospitais e serviços de diálise
·
ampliação dessas
estruturas para a atenção primária, com meta de alcançar até 40% das unidades
básicas
Para Paola, possuir um plano com metas e o monitoramento dele,
representam um diferencial importante para o avanço das práticas voltadas a
segurança do paciente: “Quando o país estabelece metas e busca um alto nível de
adesão, com monitoramento contínuo e abrangendo diferentes níveis de atenção,
estamos falando de uma mudança estrutural importante e que deve ser apoiada.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário