quarta-feira, 15 de abril de 2026

1 em cada 6 pacientes registra falhas de segurança durante o atendimento em saúde no mundo.

Especialistas apontam solução simples para reduzir os danos: ouvir o paciente 

 

A cada ano, milhões de pessoas são impactadas durante o cuidado em saúde — e uma parcela significativa desses casos poderia ser evitada com uma medida ainda pouco explorada: escutar e envolver o paciente. Últimos dados internacionais da OECD de 2023 (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) apontam que 1 em cada 6 pacientes relata falhas de segurança durante o cuidado em saúde, que vão desde erros de medicação até problemas de comunicação e atrasos no atendimento. Estudos indicam que, quando essas informações são efetivamente consideradas pelos serviços de saúde, contribuem para prevenir danos e salvar vidas.

Em países de baixa e média renda, o cenário é ainda mais preocupante: são cerca de 134 milhões de ocorrências por ano, associadas a aproximadamente 2,6 milhões de mortes.

Os dados reforçam a importância de incorporar a perspectiva do paciente às estratégias de segurança, ampliando a capacidade de identificação de riscos e contribuindo para a melhoria contínua da qualidade assistencial.

“Além de ampliar a identificação de problemas, o engajamento dos pacientes tem impacto direto na melhoria dos serviços. Hospitais que estruturam canais de escuta — como pesquisas, relatos espontâneos e mecanismos formais de feedback — conseguem agir com mais rapidez, direcionar melhor suas ações e fortalecer a cultura de segurança”, afirma a presidente da Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente, Paola Andreoli.

Paola ressalta que a baixa participação dos pacientes ainda é um desafio. “Não é possível falar em segurança do paciente sem a participação do próprio paciente”, reforça.

Retrato do Brasil - No país, o cenário também chama atenção. De acordo com a ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária – mais de 140 mil já foram registrados por profissionais de saúde de instituições de saúde em 2026, evidenciando a dimensão do desafio. Apenas nos três primeiros meses do ano, foram mais de 41 mil casos em janeiro, cerca de 39 mil em fevereiro e outros 43 mil em março. Em abril, até o dia 13, já são 16.266 notificações.

 


Segundo dados da ANVISA, São Paulo registrou 19.125 notificações registradas pelas instituições de saúde, este ano, e apenas 506 pacientes relataram falhas.

“A participação do usuário ainda é pequena e poucas pessoas sabem que tem o direito a relatar falhas na assistência, contribuindo assim com a melhoria da qualidade e da segurança para todos”, ressalta Paola. Segundo ANVISA, somente 4 mil pacientes relataram falhas durante a assistência à saúde. Para registrar basta preencher os dados neste link na ANVISA

Diante desse cenário, a SOBRASP reforça a necessidade de tratar a segurança do paciente como prioridade. “Nossa ênfase está na constatação de que grande parte dessas ocorrências poderia ser evitada com medidas simples, como escuta ativa dos pacientes, comunicação efetiva e transparência”, alerta Paola Andreoli.


Primeiro Estatuto do Direito do Paciente -  A participação do paciente deve ganhar um novo impulso com a criação do primeiro Estatuto dos Direitos do Paciente, a primeira legislação brasileira voltada exclusivamente à regulamentação estruturada dos direitos e deveres em serviços de saúde públicos e privados.

Entre os principais avanços estão a participação nas decisões sobre o próprio tratamento, com base no consentimento informado, o direito à segunda opinião médica, o acesso ao prontuário a qualquer momento e o recebimento de informações claras sobre diagnóstico, riscos e benefícios. Na prática, a nova lei fortalece o papel do paciente como agente ativo no cuidado e contribui para uma assistência mais segura, transparente e centrada na pessoa.   

 

Metas nacionais até 2030 - Com a publicação da nova edição do plano da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, os serviços de saúde no Brasil contam com novos desafios a serem perseguidos para segurança do paciente até 2030.

Entre os principais objetivos estão:

·         presença de Núcleos de Segurança do Paciente em até 90% dos hospitais e serviços de diálise

·         ampliação dessas estruturas para a atenção primária, com meta de alcançar até 40% das unidades básicas

Para Paola, possuir um plano com metas e o monitoramento dele, representam um diferencial importante para o avanço das práticas voltadas a segurança do paciente: “Quando o país estabelece metas e busca um alto nível de adesão, com monitoramento contínuo e abrangendo diferentes níveis de atenção, estamos falando de uma mudança estrutural importante e que deve ser apoiada.”

 

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