terça-feira, 10 de março de 2026

Suplementos com cúrcuma entram no radar da Anvisa; hepatologista explica os riscos

 

ANVISA determina atualização de bulas e advertências após relatos internacionais de lesão hepática associada ao uso de extratos concentrados da substância. Hepatologista explica por que suplementos podem representar risco
 

A cúrcuma, conhecida popularmente como açafrão-da-terra, ganhou popularidade nos últimos anos por seu potencial anti-inflamatório e antioxidante. Presente tanto na culinária quanto em suplementos alimentares, a substância passou a ser amplamente utilizada por pessoas que buscam benefícios para a saúde.

No entanto, um alerta recente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) chamou a atenção para possíveis riscos associados ao consumo da substância em formulações concentradas, como cápsulas e extratos presentes em suplementos e medicamentos.

A decisão da agência foi motivada por investigações internacionais que identificaram casos raros, mas graves, de lesão hepática associados ao uso desses produtos, incluindo inflamação do fígado e hepatite medicamentosa.

De acordo com Dra. Patrícia Almeida Hepatologista da Sociedade Brasileira de Hepatologia e doutora pela USP, esses casos têm sido descritos em diferentes países e monitorados por sistemas de farmacovigilância.

“Nos últimos anos começaram a surgir relatos de lesão hepática associada ao uso de suplementos que contêm cúrcuma ou curcumina em diversos países. Em alguns pacientes foi identificado um quadro de hepatite medicamentosa, com aumento importante das enzimas do fígado e icterícia, que melhoraram após a suspensão do produto”, explica.

Segundo a especialista, embora a cúrcuma seja reconhecida por propriedades anti-inflamatórias, o problema pode surgir quando a substância é consumida em doses elevadas e em formulações concentradas. “A curcumina tem efeitos imunomoduladores relevantes. Em algumas pessoas isso pode interferir na regulação do sistema imune e desencadear uma resposta inflamatória no fígado”, afirma.


Diferença entre suplemento e tempero

A hepatologista destaca que o alerta da Anvisa não se refere ao uso culinário da cúrcuma, que continua sendo considerado seguro quando utilizado como tempero.

“No preparo dos alimentos, a quantidade ingerida é pequena e a absorção da curcumina é limitada. Já nos suplementos as doses são muito mais altas e frequentemente formuladas para aumentar a absorção da substância. Isso faz com que o organismo seja exposto a níveis muito maiores”, explica.

Outro ponto importante, segundo a médica, é que alguns suplementos contêm substâncias que aumentam significativamente a absorção da curcumina, como a piperina, presente na pimenta-preta.

“Além disso, o mercado de suplementos nem sempre tem o mesmo nível de padronização e controle de qualidade que existe para medicamentos. Já foram descritos casos em que análises laboratoriais encontraram contaminações ou compostos não declarados nos rótulos”, acrescenta.


Quem deve ter mais cautela

Embora os casos descritos sejam considerados raros, alguns grupos devem ter atenção redobrada antes de utilizar suplementos que contenham cúrcuma ou curcuminoides.

Entre eles estão pessoas com doença hepática pré-existente, pacientes que utilizam múltiplos medicamentos metabolizados pelo fígado ou indivíduos com histórico de lesão hepática associada a medicamentos ou suplementos.

“De modo geral, não é recomendável utilizar suplementos de cúrcuma de forma indiscriminada como estratégia de prevenção de doenças ou promoção de saúde. Esse tipo de produto deve sempre ser avaliado individualmente”, orienta a hepatologista.

A Dra. Patrícia Almeida também alerta para sinais que podem indicar uma possível lesão hepática associada ao uso de suplementos. “Cansaço intenso, náuseas persistentes, perda de apetite, dor abdominal, urina escura e amarelamento da pele ou dos olhos são sinais que podem indicar sofrimento do fígado. Nesses casos, o ideal é suspender o suplemento e procurar avaliação médica”, explica.

A especialista destaca ainda que muitas pessoas não mencionam espontaneamente o uso de suplementos durante consultas médicas, o que pode dificultar a identificação da causa do problema.

“Muitas vezes o paciente não considera suplemento como medicamento e acaba não relatando o uso. Por isso, sempre que investigamos alterações nas enzimas do fígado é fundamental perguntar ativamente sobre esses produtos”, conclui.


 

Dra. Patrícia Almeida - CRM SP 159821 - Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará (2010). Residência Médica em Clínica Médica no Hospital Geral Dr César Cals em Fortaleza-CE- (2011-12). Residência em Gastroenterologia no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo-(USP RP) (2013/15). Aprimoramento em Hepatologia no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP RP)- (2016). Aprimoramento em Transplante de fígado no Hospital das clínicas da Universidade de São Paulo (USP RP) (2017). Observership no Jackson Memorial Hospital em Miami/EUA 2017. Doutorado em Hepatologia no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Título de Especialista em Gastroenterologia pela FBG Título em Hepatologia pela SBH. Hepatologista do Hospital Israelita Albert Einstein.



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