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| Manguezal replantado na foz do rio Cocó (CE) (foto: Gabriel Nóbrega Departamento de Ciências do Solo da Universidade Federal do Ceará |
Pesquisadores
brasileiros desenvolveram um índice capaz de medir a saúde do solo de
manguezais em diferentes estágios. Aplicado em áreas degradadas, restauradas e
preservadas, o índice revelou que manguezais saudáveis, incluindo os
recuperados, provêm serviços ecossistêmicos próximos de sua capacidade máxima,
enquanto os desmatados mantêm apenas uma pequena parte desse potencial.
O Índice de Saúde do Solo (ISS)
varia em uma escala de 0 (pior) a 1 (melhor) e está descrito em artigo publicado na revista Scientific Reports. Ao traduzir processos
complexos em uma métrica simples, a ferramenta pode apoiar gestores na
definição de prioridades de conservação e restauração.
O ISS foi construído a partir
de um conjunto de variáveis que, de forma integrada, representam os principais
processos físicos, químicos e biológicos responsáveis pelo funcionamento do
solo no contexto em que ele está inserido.
O índice incorpora atributos
ligados à dinâmica do carbono (como textura do solo, teor de carbono orgânico e
ferro pseudototal), à fixação de substâncias contaminantes (especialmente
diferentes formas de minerais de ferro) e à ciclagem de nutrientes (incluindo
indicadores biológicos baseados nas atividades enzimáticas de microrganismos do
solo). Em conjunto, essas variáveis viabilizam o estado funcional do solo e sua
capacidade de sustentar serviços ecossistêmicos.
Com a busca por soluções baseadas
na natureza para enfrentar a crise climática, os manguezais são uma alternativa
para gerar ganhos ambientais e sociais. Além de importantes sumidouros e
estocadores de carbono, sustentam a pesca e ajudam a conter a erosão costeira,
entre outros serviços.
Ainda assim, estimativas
indicam que entre 30% e 50% dos manguezais do mundo tenham sido perdidos nos
últimos 50 anos, processo que pode ser acelerado pelas mudanças climáticas, com
o aumento do nível do mar e maior frequência de eventos extremos, além de
desmatamento e expansão urbana.
O Brasil tem a segunda maior
área de mangue do planeta – cerca de 1,4 milhão de hectares ao longo da faixa
costeira, ficando atrás apenas da Indonésia – e o mais extenso trecho contínuo,
localizado entre o Amapá e o Maranhão. Uma ampla biodiversidade, com mais de
770 espécies de fauna e flora, confere a essas áreas destaque para a pesca.
Resultados
Ao ser aplicado no estuário do
rio Cocó, no Estado do Ceará, o ISS mostrou condições contrastantes do local,
com recuperação em áreas restauradas e suas implicações para os serviços
ecossistêmicos. De acordo com os resultados, os manguezais maduros apresentaram
os maiores valores de ISS (0,99 ± 0,03), enquanto os locais degradados, os
menores (0,25 ± 0,01).
As regiões replantadas há nove
e 13 anos tiveram valores intermediários (0,37 ± 0,01 e 0,52 ± 0,02,
respectivamente), com um melhor desempenho das mais antigas, indicando assim
uma recuperação gradual.
“A pesquisa buscou traduzir em
números alguns aspectos importantes relacionados à saúde de solos dos
manguezais e à provisão de seus serviços ecossistêmicos, tais como sequestro de
carbono, imobilização de contaminantes e ciclagem de nutrientes. Montamos a
escala de 0 a 1 para acompanhar o restabelecimento ecossistêmico frente ao
processo de recuperação”, explica à Agência FAPESP a gestora
ambiental Laís Coutinho Zayas Jimenez. “Meu
sonho agora é usar o índice de saúde do solo em uma aplicação prática. Mostrar
aos meus pares, os gestores, que é possível analisar se o manguezal que passou
por recuperação está produzindo plenamente ou não os serviços ecossistêmicos e
em quanto tempo isso acontece.”
O artigo é resultado de sua
tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Solos e Nutrição de Plantas
da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo
(Esalq-USP), desenvolvida sob a orientação de Tiago Osório Ferreira, e
com o apoio da FAPESP.
Atualmente, Jimenez é chefe do
setor de manguezais na Diretoria de Biodiversidade da Fundação Florestal e
lidera um projeto inédito cujo objetivo é medir o estoque de carbono dos
manguezais paulistas e detectar a presença de elementos tóxicos, como metais
pesados, em seus solos.
O trabalho está sendo
desenvolvido em parceria com o Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), um
Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP sediado na Esalq-USP.
A Fundação Florestal é um órgão
da Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística de São Paulo (Semil)
responsável pelas Unidades de Conservação do Estado. Das mais de cem unidades,
pelo menos 16 delas têm manguezal.
“Mesmo que o restabelecimento
das funções do manguezal seja rápido, isso não pode ser usado como argumento
para não proteger esse ambiente da degradação. Observada a retomada de alguns
serviços ecossistêmicos, entre eles sequestro de carbono e ciclagem de
nutrientes, outros, como a contenção de erosão costeira, demoram mais”,
ressalta Jimenez.
“Carbono
azul”
Os mangues são chamados de
“florestas de carbono azul” por sua característica de absorver grandes
quantidades de CO₂ da
atmosfera e armazenar carbono orgânico no solo por décadas, mais eficientes do
que florestas tropicais (leia mais em: agencia.fapesp.br/55382). No entanto, as mudanças no uso da terra e a poluição ameaçam cada vez
mais os solos de manguezais, comprometendo sua funcionalidade.
Segundo a iniciativa
global Mangrove Breakthrough, que tem o objetivo de restaurar e conservar 15 milhões de hectares de
manguezais em escala global até 2030, esses ecossistemas armazenam o
equivalente a mais de 22 gigatoneladas de CO2. A perda de apenas 1%
dos manguezais remanescentes poderia levar ao correspondente a emissões anuais
de 50 milhões de automóveis.
“Como o estudo foi desenvolvido
em uma área de recuperação, os resultados desmistificam a ideia de que o
ecossistema é resiliente frente a intervenções antrópicas. Mostramos que pode
ser degradado em uma velocidade muito rápida. Mas a boa notícia é que o sistema
também se recupera rapidamente, desde que a restauração seja feita de maneira
assistida e elaborada, respeitando as condições locais do ambiente em que ele
está inserido. Assim é possível obter novamente as funções do ecossistema e sua
capacidade de prover serviços”, avalia o professor Hermano Melo Queiroz, do
Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
(FFLCH) da USP.
Queiroz é um dos autores
correspondentes do artigo, juntamente com Ferreira, que também é diretor de
disseminação e pesquisador do CCARBON. Participam ainda do grupo o
professor Maurício Roberto Cherubin, diretor de pesquisa do centro e especialista em saúde dos solos,
e Francisco Ruiz.
“Nessa pesquisa, um dos
objetivos era traduzir a informação de processos biogeoquímicos muito
específicos para uso de gestores ambientais. O índice, ao mostrar que os
estoques de carbono retornam para áreas de mangue restauradas, traz uma
mensagem muito importante no cenário de combate às mudanças climáticas”, diz
Ferreira, que pesquisa há mais de 25 anos áreas de manguezais e contribuiu para
a criação de um banco de dados com informações de toda a costa brasileira.
Ferreira coordena o projeto
“BlueShore – Florestas de Carbono Azul para mitigação de mudanças climáticas offshore”,
desenvolvido no âmbito do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI), um Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) constituído com apoio da FAPESP, da
Shell e participação de outras empresas, com sede na Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo (Poli-USP).
Aberto e
mutável
Os pesquisadores destacam que
entre os diferenciais do ISS está a possibilidade de incluir informações
específicas de cada ecossistema e do ambiente em que está inserido para
diferentes regiões do país. É possível, por exemplo, inserir dados de serviços
ecossistêmicos – sequestro de carbono e imobilização de contaminantes – e
geoquímicos, como a quantidade de fósforo.
“Quanto maior a quantidade de
fósforo, mais benéfico é para o ecossistema. Só que, no caso dos manguezais,
dependendo do contexto em que ele está inserido, o excesso de fósforo pode
representar um problema de contaminação ou de eutrofização”, afirma Queiroz.
A eutrofização provoca a
proliferação exagerada de algas e cianobactérias na área de mangue, que causam
o bloqueio da luz solar e o consumo do oxigênio, resultando em mau odor e morte
de peixes, com perda da biodiversidade aquática e deterioração da qualidade da
água.
Agora, os cientistas dizem que
o próximo passo é entender que tipo de carbono está “retornando” para esses
solos, se é mais ou menos estável, com maior ou menor duração.
Além disso, o estudo inspirou
um novo projeto – “Desvendando a saúde do solo de manguezais brasileiros”, financiado pela FAPESP, que aplicará uma metodologia semelhante em
diferentes regiões do país.
Combinando análises de solo,
sensoriamento remoto e modelagem espacial, a proposta é mapear a saúde dos
solos de manguezais e seu potencial de sequestro de carbono. A iniciativa
pretende gerar o primeiro mapa em larga escala da saúde do solo de manguezais
no Brasil.
O artigo Tracking
mangrove restoration using a biogeochemical soil health index and ecosystem
service indicators pode ser lido em: nature.com/articles/s41598-025-30909-2.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/pesquisadores-criam-indice-para-avaliar-saude-do-solo-em-manguezais/57318

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