O resumo de 2026 deverá ser marcado por um frágil
equilíbrio entre o controle da inflação e o peso do endividamento. O consumo
das famílias brasileiras é o principal motor da nossa economia, representando
cerca de dois terços do PIB brasileiro e sendo peça central no desempenho econômico.
Entretanto, observamos em 2025 um descolamento entre os principais indicadores
macroeconômicos que norteiam o consumo e o desempenho do consumo e do varejo.
De um lado, emprego, renda e renda média
apresentaram os melhores números da série histórica. De outro, praticamente
todos os setores do varejo e dos serviços não acompanharam esse bom desempenho.
Essa contradição merece uma análise profunda neste início de 2026.
A taxa de desemprego continua batendo recordes,
registrando apenas 5,1% de pessoas desocupadas no País em dezembro de 2025, o
menor nível da história. Esse patamar é muito próximo do pleno emprego,
indicando que, sob essa métrica, praticamente todas as pessoas qualificadas que
procuram trabalho conseguem se recolocar em um curto espaço de tempo.
Já a taxa de participação na força de trabalho, que
mede o percentual da população em idade ativa que está ocupada ou buscando
emprego, permanece baixa. O indicador do IBGE está atualmente em 62,6%, abaixo
dos 66,5% registrados durante o boom econômico do início dos anos 2000. Isso
sinaliza que uma parcela relevante da população permanece à margem do mercado
formal ou em situação de desalento, ou seja, desistiu de procurar trabalho.
Outro aspecto para ser considerado é a qualidade da
ocupação, uma vez que a metodologia do IBGE considera ocupado quem trabalhou
apenas uma hora na semana, fator que mascara o subemprego e os impactos dos
programas sociais do governo, que podem desincentivar o trabalho formal ou até
mesmo impactar a declaração dos respondentes da pesquisa.
Confiança baixa e inflação
alta no acumulado
A confiança do consumidor está estagnada na casa
dos 85 aos 90 pontos (87,3 pontos em janeiro de 2026) como apurado pela FGV,
patamar muito próximo do que tínhamos na pandemia, refletindo a desconfiança
das famílias diante de sua situação econômica, resultado direto de um ciclo de
três anos de aumentos acumulados, que corroeram a renda e alteraram os hábitos
básicos de consumo.
A alta da inflação de alimentos no domicílio nos
últimos três anos compromete uma fatia cada vez maior do orçamento familiar.
Mesmo com a desaceleração recente do índice, o patamar de preços continua
elevado, consumindo uma parcela relevante dos recursos das famílias. Esse
cenário resulta em uma renda estrangulada por itens de primeira necessidade e
em um endividamento crescente.
Massa salarial e a
concentração da renda
Embora a massa salarial real tenha atingido o marco
de R$ 367,6 bilhões em dezembro de 2025, o reflexo no varejo em 2026 ainda
sugere uma distribuição desigual.
A base da pirâmide permanece altamente sensível.
Enquanto as classes mais altas direcionam o excedente para serviços e poupança,
as famílias de baixa renda continuam direcionando seu orçamento para itens
essenciais como moradia, transporte e alimentos.
Comprometimento da renda
O comprometimento da renda e, de forma mais
preocupante, a inadimplência atingiu patamares recordes ao final de 2025.
Atualmente, 81,2 milhões de brasileiros têm dívidas em atraso, segundo dados da
Serasa em dezembro de 2025, representando que 57% da população economicamente
ativa (PEA). Esse dado escancara a pressão sobre o orçamento das famílias, com
pouco ou nenhum espaço para o consumo, além do essencial e também a dificuldade
de acesso ao crédito, que está caro e limitado.
Varejo com crescimento ainda
tímido
Os dados consolidados mostram que o varejo perdeu
fôlego. O setor saiu de um crescimento de 4,1% em 2024 para apenas 0,1% no
acumulado de 2025.
Até mesmo os setores resilientes e de primeira
necessidade, como supermercados e farmácias, apresentaram redução no ritmo de
crescimento. Já alguns setores como vestuário e móveis apresentam variações
positivas apenas devido à base de comparação fraca dos anos anteriores.
Perspectivas para 2026
As perspectivas para o restante de 2026 desenham um
cenário de transição cautelosa. A retomada do consumo como motor do PIB
dependerá do arrefecimento da inflação de alimentos, de um ciclo sustentável de
queda nos juros para destravar o crédito e da recuperação da confiança das
famílias.
O desafio central do ano é converter o desemprego
baixo em crescimento real, superando a barreira do endividamento recorde que
ainda sufoca o orçamento doméstico.
O ambiente econômico deste semestre será
impulsionado pela eleição, que historicamente gera de um lado incerteza maior
e, de outro, uma maior circulação de recursos na economia via incentivos
governamentais e programas sociais que devem injetar dinheiro novo na economia,
mas que, ao mesmo tempo, geram pressão inflacionária.
Em resumo, 2026 deve ser um ano de recuperação gradual. O bolso das famílias permanece sob pressão, priorizando itens essenciais em detrimento do consumo discricionário, com atenção redobrada para uma potencial ressaca em 2027 no ano pós-eleição.
Eduardo Yamashita - sócio-diretor da Gouvêa Inteligência e COO da Gouvêa Ecosystem
Gouvêa Ecosystem
https://gouveaecosystem.com
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