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“Prazo de entrega, experiência de compra, reputação da marca, conveniência e o próprio contexto de consumo passaram a ter um peso cada vez maior”
Em 2026, o varejo brasileiro
começou o ano reforçando uma tendência que muitos já estão vivendo em suas
operações: o consumidor não desapareceu, mas passou a exigir muito mais das
marcas.
As vendas registraram uma queda de 1,5% em janeiro, de acordo com o ICVA
(Índice Cielo do Varejo Ampliado). Isso pode ser explicado por algo que todos
estão sentindo não apenas nos indicadores, mas também nos resultados de seus
negócios. Esse desempenho que reflete um começo de ano marcado por gastos
pontuais, orçamento enxuto e escolhas de compra mais cautelosas.
Os números do IBGE ajudam a
colocar esse cenário ainda mais em perspectiva. Em 2025, o comércio varejista
cresceu 1,6%, enquanto o varejo ampliado avançou apenas 0,1% (é aqui onde os
produtos de maior valor se enquadram como veículos e materiais de construção).
Mais do que os percentuais em si, esses dados mostram um crescimento moderado e
bastante desigual entre os segmentos do setor.
Ainda assim, a demanda não
desapareceu. Em fevereiro, o Índice de Intenção de Consumo das Famílias,
segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), chegou a 104,3 pontos,
puxado em maior parte pela intenção de compra de bens duráveis. O indicador
mostra que o interesse por consumo permanece, mas a decisão de compra tem sido
cada vez mais pensada. O consumidor está mais seletivo na hora de gastar.
Um
consumidor mais criterioso muda a lógica do varejo
Nos últimos anos, o consumidor
se tornou mais racional, mais informado e também mais seletivo. O produto
continua importante, claro, mas já não decide a compra sozinho. Prazo de
entrega, experiência de compra, reputação da marca, conveniência e o próprio
contexto de consumo passaram a ter um peso cada vez maior nessa escolha.
Não é incomum o brasileiro se
endividar e depois não conseguir honrar seus compromissos. Por isto, essa
seletividade pode também ser explicada pelo alto índice de endividamento.
Imagine que 79,5% das famílias começaram o ano endividadas e quase 30% delas
com a renda comprometida com essas dívidas.
Essa lógica brasileira de
muitas vezes gastar primeiro e organizar as contas depois não interrompe o
consumo, mas muda a forma como ele acontece. Quanto maior o nível de
endividamento, maior tende a ser a ponderação antes de uma nova compra. É aí
que a lógica muda: a decisão deixa de passar apenas pelo desejo de comprar e
passa, cada vez mais, pela percepção de valor.
Margem,
relevância e eficiência se tornaram o novo tripé da competitividade
Durante muito tempo, o varejo
concentrou seus esforços em ampliar presença e abrir novos canais. Isso fez
sentido naquele momento. Mas hoje o desafio competitivo ficou mais sofisticado.
As empresas passaram a precisar
equilibrar três frentes ao mesmo tempo: margem, relevância e eficiência
operacional. Sustentar esse equilíbrio se tornou mais difícil em um ambiente de
custos elevados, pressão macroeconômica e consumidores cada vez mais atentos à
relação entre preço e valor.
O próprio ambiente econômico
reforça essa pressão. Com a taxa Selic mantida em 15% ao ano pelo Banco Central,
o crédito continua caro, o que exige ainda mais disciplina financeira tanto das
famílias quanto das empresas.
Na prática, isso muda bastante
a lógica de crescimento. Expandir presença ou simplesmente ampliar sortimento,
por si só, já não garante avanço competitivo. O desempenho passa a depender de
operações mais sólidas, decisões guiadas por dados e, principalmente, de
clareza sobre a proposta de valor.
A jornada
de compra ficou mais integrada e menos linear
Outro movimento que se
consolidou nos últimos anos é a conexão entre os canais físicos e digitais. Na
prática, o consumidor já não enxerga mais essas fronteiras com tanta clareza.
Ele pesquisa em um lugar, compara em outro e conclui a compra onde o processo
parece mais simples e conveniente.
Os números ajudam a dimensionar
essa mudança e mostram como o digital deixou de ser apenas um canal adicional.
Estimativas da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) indicam
que o e-commerce brasileiro movimentou R$ 235,5 bilhões em 2025, com 94,2
milhões de compradores online. Mais do que um canal adicional, o digital passou
a ocupar um papel estrutural na jornada de consumo.
E essa jornada continua
evoluindo. Mais recentemente, a inteligência artificial começou a interferir
também nesse processo, principalmente por meio de interfaces conversacionais e
sistemas de recomendação que ajudam o consumidor a descobrir, comparar e
escolher produtos.
Com a inteligência artificial
entrando na jornada de consumo, cria-se uma nova lógica competitiva para marcas
e varejistas que precisam ser não apenas visíveis, mas também claros,
confiáveis e recomendáveis em ambientes digitais. Nesse cenário, conteúdo
consistente, dados estruturados, reputação e proposta de valor bem definida
ganham ainda mais importância.
A tecnologia deixou de
representar apenas inovação e passou a ocupar um papel central na gestão do
varejo. O desafio agora está em usar dados e sistemas para melhorar decisões,
identificar oportunidades e reduzir desperdícios. Com indicadores bem acompanhados
e ferramentas como automação, CRM e inteligência artificial, a operação se
torna mais eficiente e o relacionamento com o cliente, mais consistente.
O
varejista que ganha relevância e a preferência do consumidor nesse ambiente
O varejo atual favorece empresas
que unem posicionamento claro, eficiência operacional e capacidade de
adaptação. Mais do que presença digital, preço e boas lojas, o diferencial está
em entender com precisão para quem se vende, qual valor se entrega e como essa
proposta se sustenta ao longo da jornada.
Nesse contexto, o varejo ficou mais seletivo, tanto do lado do consumidor quanto do lado da gestão. E, nesse ambiente, crescer deixou de ser apenas uma questão de presença. Passou a ser, cada vez mais, uma questão de consistência.
**As
opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e
não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**
Lyana Bittencourt - CEO do Grupo Bittencourt
Fonte: https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/o-consumidor-nao-sumiu-ele-ficou-mais-criterioso-e-isso-muda-o-jogo-do-varejo

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