Há
sabedoria quando o educador Janusz Korczak fala sobre “acordar a alma que
está dormindo”. Por muito tempo, a nossa sociedade — engessada por um
capacitismo estrutural e por uma visão higienista de gestão — preferiu manter
adormecidas as almas daqueles que não se encaixam em seus moldes padronizados.
Historicamente, tratamos a pessoa com deficiência intelectual ou
psicossocial sob a ótica da caridade ou, no máximo, do assistencialismo.
Acontece que a Inclusão não é um favor: é um imperativo ético e um motor de
inovação, progresso e riqueza.
É exatamente essa noção, tão inovadora quanto óbvia, que o Grupo
Chaverim vem promovendo
desde 1995. Mais do que uma associação assistencial, o Chaverim consolidou-se
como um “laboratório vivo” de pertencimento. Em vez de tentar “consertar” o
indivíduo para que ele caiba em um mundo excludente, a instituição foca em
remover as barreiras atitudinais e sociais do ambiente.
A fortaleza do Chaverim reside em sua Metodologia Inclusiva
vivencial. Eles rejeitam o assistencialismo e apostam na individualidade de
cada ser humano. Lá, compreende-se que, quando damos as mãos, as limitações de
uns são invariavelmente complementadas pelas eficiências de outros, e vice-versa.
É por isso que gosto de me referir a esse espaço como um “chaveiro
de pérolas”: um ambiente de convivência humana tão seguro e acolhedor que
permite que os talentos, as habilidades e a autoconfiança emerjam naturalmente.
Contudo, manter essa engrenagem de transformação funcionando exige
o enfrentamento de desafios. A instituição possui uma necessidade de apoio
financeiro contínuo e de engajamento voluntário.
Além dos recursos, esbarra-se na hiper-regulação do nosso modelo
estatal. O excesso de burocracia sufoca as iniciativas da sociedade civil,
dificultando a consolidação de parcerias e a sustentabilidade de equipes
multidisciplinares.
Ainda assim, o Chaverim prova que a articulação inteligente é
possível e necessária. O trabalho conjunto com a iniciativa privada —
fortemente enraizado na comunidade judaica, operando nas instalações do Clube A
Hebraica — e o diálogo institucional com o Poder Público, como a Secretaria de
Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência e a Câmara Municipal de São
Paulo, demonstram que a inclusão se faz em rede.
Diante desse cenário, a temática mais urgente que precisamos levar
aos espaços de debate e decisão, como o Fórum Paulista, é o combate frontal ao
capacitismo estrutural, atrelado à urgência de desburocratizar a inclusão para
fomentar o protagonismo econômico e social.
Precisamos desconstruir a lógica de um Estado que planeja cidades
e oportunidades apenas para pessoas “padrões”. A limitação, quando acolhida por
um ambiente preparado, não é um fardo social, mas a gênese da inovação. Quando
libertamos o potencial produtivo e criativo de pessoas com deficiência, geramos
autonomia, emancipação e crescimento econômico real para toda a comunidade.
O Grupo Chaverim nos ensina que não há justiça social sem vínculo humano. Que possamos aprender com eles a desatar os nós burocráticos e culturais que nos paralisam, transformando nossas cidades e nossas instituições em grandes espaços de pertencimento.
No fim das contas, a beleza não está apenas em enxergar o outro, mas em construir, junto com ele, um caminho onde todos possam caminhar.
André Naves - vice-presidente eleito do
Grupo Chaverim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário