terça-feira, 10 de março de 2026

O ambiente da casa pode influenciar o que seu filho come? Nutricionista explica

Nutricionista materno-infantil explica por que o local das refeições, a rotina da casa, o clima emocional à mesa e os exemplos dos adultos têm papel decisivo na forma como a criança aceita ou rejeita os alimentos

 

Quando uma criança começa a recusar alimentos ou passa a selecionar o que comer, muitos pais acreditam que o problema está no cardápio. Mas, na maior parte das vezes, a questão não está apenas no prato. O ambiente em que a criança vive e como acontecem as refeições dentro de casa têm influência direta sobre o comportamento alimentar infantil.

Segundo Renata Riciati Nutricionista materno-infantil, especialista em seletividade alimentar e comportamento alimentar infantil, a alimentação das crianças vai muito além do que está sendo servido. “A alimentação infantil é muito mais comportamento do que cardápio. E comportamento é moldado pelo ambiente”, explica.

De acordo com a especialista, fatores como o local das refeições, o clima emocional à mesa, o exemplo dos adultos e até a organização da rotina familiar podem favorecer ou dificultar a aceitação dos alimentos.

Um dos pontos mais importantes é onde a criança faz as refeições. Comer à mesa, com atenção ao alimento, ajuda a criança a perceber melhor os sinais de fome e saciedade.

“Quando a criança come assistindo televisão ou mexendo no tablet, ela entra no modo automático. Isso atrapalha a autorregulação alimentar e dificulta que ela reconheça quando já está satisfeita”, afirma Renata.

Outro detalhe importante é a organização do prato. Preparações visualmente agradáveis e uma apresentação simples, mas organizada, tendem a aumentar a aceitação dos alimentos. Além disso, permitir que a criança coma andando pela casa, brincando ou em diferentes lugares todos os dias também prejudica a conexão com o momento da refeição.

“Crianças pequenas precisam de previsibilidade. Comer sempre no mesmo local, com rotina de horários certa, ajuda o cérebro a entender que aquele é o momento da refeição”, diz.

Outro fator decisivo é o clima emocional à mesa. Quando a refeição vira um momento de cobrança ou tensão, a criança pode associar o ato de comer a sentimentos negativos.

“Se a refeição vira briga, chantagem ou ameaça, o cérebro associa comida a estresse. Isso pode aumentar a recusa alimentar, a seletividade e até gerar ansiedade em relação à comida”, explica a nutricionista.

Por outro lado, um ambiente leve, com conversa tranquila e sem pressão excessiva sobre o prato da criança, tende a facilitar a relação com os alimentos. “Quando os adultos comem junto, conversam e não ficam focados apenas no quanto a criança comeu, a comida deixa de ser um campo de batalha”, afirma.


A criança aprende mais pelo exemplo do que pela regra

O comportamento dos adultos também tem um papel central. Crianças observam e reproduzem o que veem dentro de casa.

“Criança não faz o que você manda, ela faz o que você faz. Se os adultos não comem legumes, vivem falando mal do próprio corpo ou demonizam certos alimentos, a criança absorve tudo isso”, diz Renata.

Por isso, o exemplo dos pais e cuidadores é considerado uma das ferramentas mais importantes para a construção de hábitos alimentares saudáveis.

Outro ponto importante é o ambiente alimentar da casa. O que está disponível com frequência tende a ser o que a criança consome no dia a dia.

“Se a casa está cheia de ultraprocessados acessíveis o tempo todo, se os doces aparecem como recompensa e as frutas quase nunca vão à mesa, não é a força de vontade da criança que vai resolver”, explica.

A organização do dia da criança também interfere diretamente na alimentação. Horários muito irregulares ou o hábito de beliscar o tempo todo podem atrapalhar a percepção da fome.

“Crianças precisam de alguma previsibilidade. Ter horários relativamente estáveis e intervalos entre as refeições ajuda o organismo a reconhecer quando é hora de comer”, afirma.

Segundo a nutricionista, pequenas mudanças na rotina familiar podem transformar o momento das refeições:

-Sempre que possível, fazer as refeições à mesa

-Evitar telas durante o momento de comer

-Manter horários relativamente organizados

-Comer junto com a criança sempre que possível

-Oferecer alimentos saudáveis com frequência dentro de casa

-Evitar transformar a refeição em momento de pressão ou conflito

Renata reforça que, muitas vezes, mudar o ambiente pode trazer mais resultados do que mudar completamente o cardápio.

“A criança não come isoladamente. Ela come dentro de um sistema. Antes de pensar que o filho é difícil para comer, vale olhar para o ambiente das refeições. Muitas vezes, ajustar esse cenário já transforma completamente a relação da criança com a comida”, conclui.



Renata Riciati - nutricionista materno-infantil e especialista em saúde da família, com mais de 20 anos de experiência em comportamento alimentar infantil, seletividade alimentar e terapia nutricional para crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) e TDAH. Formada pela Universidade Anhembi Morumbi, possui pós-graduação em Nutrição Clínica pela Universidade São Camilo e ampla atuação em consultório, escolas e projetos voltados à educação alimentar. Ao longo da carreira, acumulou experiências em instituições como o Instituto da Criança – HCFMUSP, GR Serviços de Alimentação e Prefeitura de São Paulo, além de comandar a RR Nutri, onde atende famílias, gestantes, bebês e crianças, oferecendo acompanhamento nutricional, consultoria escolar e consultoria corporativa. Renata também desenvolve projetos como o curso “Só Mais Uma Colherada”, criado em parceria com a jornalista Karina Godoy (TV Globo), e grupos online de orientação alimentar. Sua atuação se destaca pelo olhar integral, acolhedor e individualizado, com foco em transformar a relação das famílias com a comida, promovendo refeições mais leves, nutritivas e prazerosas.
Instagram: renatariciati_nutri
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