1. Que mulher foi essa?
Primeiro de maio de 1915, Praça da Sé, coração de São Paulo.
Proletários sob chapéus gastos, homens e mulheres, bandeiras
vermelhas como o sangue que pulsa nas veias cansadas. Uma mulher
emerge na multidão, cabelos curtos, blusa branca, saia
negra. Ela sobe num caixote e a voz corta o ar feito
lâmina a reger a sinfonia operária.
Que mulher foi essa?
Só a fotografia, uma
só. A mulher de perfil, não se vê o rosto, apenas o sonho.
E a multidão a escutá-la.
Que mulher foi essa?
Não há registro.
2. Tecelãs
Inverno de 1917, Cotonifício Crespi, bairro da Mooca, São Paulo.
É noite, céu límpido, lua e estrelas
iluminando mais que lâmpadas mortiças. Lá fora, o frio
corta, dentro, o calor das caldeiras a mover teares ardendo como
ventre de fera.
Após doze horas as mulheres ainda
tecem, os homens nos fornos, as crianças na labuta. Há que
trabalhar para viver. Fabricam uniformes para as tropas da Itália, a
guerra na Europa, em São Paulo o trabalho sem fim.
Doze horas, por vezes mais, o pó
sufocante gruda na pele, o calor escaldante arde nos
olhos, o trabalho estafante corrói os ossos.
Na cidade do trabalho sem fim, as
mulheres a enriquecerem o Delfim.
3. Greve
2 de junho de 1917 – rua da Mooca, 292, sede da União dos Operários
em Fábricas de Tecidos. Pauta:
- 35% de aumento nos salários;
- proibição de trabalho
infantil;
- abolição do trabalho noturno
para mulheres e menores de dezoito anos;
- jornada de oito horas
diárias;
- congelamento do preço dos
alimentos;
- redução dos aluguéis.
Negociação e resposta do Conde de Crespi:
- Se houver pressão, fecho a fábrica!
Nenhuma concessão, sequer o fim do trabalho feminino e de menores
à noite. As tecelãs param a fábrica.
Máquinas paradas. E nada.
Demissão de mulheres consideradas líderes. E
nada.
Força Pública na Fábrica. E nada.
Fura-Greves. E nada.
Ou melhor, os crumiri foram expulsos
sob vergonha.
4. As ruas da Mooca
15 de junho. Mulheres e crianças tomam as ruas da Mooca como rio
que transborda. O povo acolhe, novas fábricas
paradas, máquinas silenciam.
E o Avanti, jornal
socialista, canta a pura e dura pedra da Catedral:
“Numerosos passantes aderem aos grevistas
e quando chegam à Praça da Sé a Força Pública
ataca mais uma vez. Os manifestantes correm
para a Igreja em construção, onde encontram
pedras e pedaços de paus e opõem forte
resistência. Cavalos caem, policiais ficam
lesionados
e o conflito se estende pelas ruas. O centro da
cidade
ficou totalmente convulsionado.”
5. A ordem foi atirar
9 de julho de 1917. São Paulo quase toda em greve.
Faltava uma fábrica a aderir, Mariângela, do Conde
Matarazzo, recém agraciado pelo rei de Itália, o mais rico entre os
ricos do Brasil. Cavalariços e soldados armados atacam a multidão. Estampidos
e gritos, revides...O céu cheira
pólvora e um jovem espanhol, recém chegado ao
Brasil, José Ineguez Martinez, 21 anos, falece entre ruído
e silêncio.
O funeral pelas ruas do Brás. Milhares de
operários acompanham o féretro. Condutores de bondes aderem à greve. Tudo
parou.
Menos os sabres em punho. Cavalarianos
sobem calçadas, espancam transeuntes e manifestantes. Terror e medo a
correr por vielas.
6. Memórias
Escreveu Everardo Dias em suas memórias:
"Nos bairros fabris do Brás, Mooca, Barra Funda, Lapa,
sucederam-se tiroteios com grupos de populares;
em certas ruas já começaram a fazer barricadas
com pedras, madeiras velhas, carroças viradas
e a polícia não se atreve a passar por lá
porque dos telhados e cantos partem tiros certeiros.”
É dever do historiador comparar as fontes. Nos ‘Fragmentos da História da Polícia de São Paulo’, o
Tenente-Coronel Pedro Gagini, da Força Pública, anotou:
“Piquetes de mulheres grevistas,
reforçados por milhares de operários
percorrem os estabelecimentos fabris
concitando os companheiros a aderirem
ao movimento paredista.”
7. O poema em manifesto
E então
o poema brotou
como punhal na noite:
“Não vos presteis, soldados, a servir
de instrumento de opressão dos Matarazzo,
Crespi, Gamba. Hoffman ... aos capitalistas
que levam a fome ao lar dos pobres [...]
Soldados!
Os grevistas são vossos irmãos na miséria
e no sofrimento, os grevistas morrem de fome
ao passo que os patrões morrem de indigestão.
Soldados!
Recusai-vos ao papel de carrascos”
(Comitê de Defesa Proletária)
8. Cultura Operária
15 de julho de 1917, final da greve e 20% de aumento
salarial. 70.000 operários haviam parado a cidade que mal
ultrapassara 400.000 habitantes. A luta “tomou
forma de Guerra Civil”, nas palavras do
coronel da Força Pública.
Na luta se faz a Cultura Operária. Na greve de
1917 as mulheres fizeram a luta, foram à frente, mãos machucadas
por fios, vozes cortantes, unidas. Lideraram a revolta na sombra
das fábricas e pararam São Paulo.
9. A poeira do tempo guarda o nome delas
Que mulheres foram essas?
Não há registro.
Annunziatta, talvez, Nicoletta, Pierina, Donatella,Silvana,
Mirella, Giovana, Vincenza, Filomena, Giuseppa, Patrizia,
Elizabeta, Luigia...
A poeira do tempo guarda o nome delas.
E o preservado edifício
do antigo cotonifício
virou supermercado.
Célio Turino - escritor, poeta, filósofo, historiador e consultor em políticas públicas, com doutorado em Humanidades (USP), mestrado em História (Unicamp), especialização em Administração Cultural (PUC-SP) e licenciatura em História (Unicamp). Trabalhou como Secretário Nacional da Cidadania Cultural no Ministério da Cultura (2004-2010) e idealizou o Programa Cultura Viva e Pontos de Cultura, além de ter assessorado a elaboração da Lei Aldir Blanc. É autor dos livros Fios da história (2025), “Sementeira – Grãos para transformar radicalmente a sociedade via políticas culturais” (2025), “Por todos os caminhos – Pontos de Cultura na América Latina” (2020), “Cultura a unir os povos – a arte do encontro” (2017), “Uma visão inclusiva – arte, esporte e Síndrome de Down” (2011), “Pontos de Cultura – o Brasil de baixo para cima” (2009), “Na trilha de Macunaíma – ócio e trabalho na cidade” (2005) e “O lazer nos programas sociais” (2003), além de ter obras lançadas no exterior e centenas de ensaios, prefácios e artigos publicados em livros, revistas acadêmicas e sites.
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