segunda-feira, 9 de março de 2026

Mulheres ainda enfrentam autossabotagem no caminho até a liderança, alerta especialista


Mesmo com avanços graduais, a presença feminina nos cargos de liderança no Brasil segue limitada. Dados recentes mostram que as mulheres ocupam apenas 39% das posições de liderança no país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outro estudo, o Panorama Mulheres 2025, do Insper, reforça que a desigualdade de gênero permanece estrutural nas empresas brasileiras, especialmente nos níveis mais altos da hierarquia. Da amostra de 310 empresas coletada em 2024, 224 companhias têm presidência formalizada e apenas 39 são lideradas por mulheres, representando 17,4% do total. 

 

Além das barreiras externas, culturais e organizacionais, um fator menos visível também pode influenciar esse cenário: a autossabotagem. Para Susana Azevedo, especialista em desenvolvimento de lideranças, coaching e sócia da Quantum Development, muitos dos obstáculos à ascensão feminina estão relacionados a padrões de comportamento internalizados ao longo da vida. “São comportamentos, muitas vezes inconscientes, que fazem com que mulheres se sintam inseguras para assumir ou expressar suas ambições profissionais e pessoais”, afirma.

 

Segundo a especialista, desde cedo meninas são incentivadas a serem cuidadosas, obedientes e perfeitas, enquanto meninos são estimulados a competir, experimentar e correr riscos. Esses modelos acabam moldando a forma como as mulheres se posicionam no ambiente corporativo. Mas o que foi aprendido pode ser transformado. “Nas organizações, isso costuma se traduzir em mulheres que chegam aos primeiros níveis de liderança justamente por serem dedicadas, responsáveis e consistentes. No entanto, os mesmos hábitos que as levaram até ali muitas vezes passam a limitar sua evolução”, explica. Em outras palavras, o convite é para que as mulheres atualizem suas próprias ferramentas de liderança.

 

A pesquisadora Sally Helgesen, referência internacional em liderança feminina, identificou padrões recorrentes de autossabotagem que seguem presentes nas empresas. Entre eles estão a dificuldade de reconhecer e comunicar ambições, a tendência de subvalorizar a própria contribuição, a tentativa de fazer tudo sozinha, a busca excessiva pela perfeição e a redução da própria presença executiva em momentos decisórios.

 

Esses comportamentos, segundo Susana, tendem a se intensificar em fases de transição, como promoções, mudanças de papel, maternidade ou processos sucessórios. 

 

Alguns sinais funcionam como alerta, como sentir-se constantemente sobrecarregada, não se sentir ouvida, evitar candidaturas por não atender a 100% dos critérios ou perceber equipes pouco autônomas. “Esses momentos podem ser convites para uma pausa e reflexão sobre quanto disso vem do sistema e quanto pode estar relacionado aos nossos próprios padrões?”, provoca.

 

No contexto do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, Susana destaca a importância da autoconsciência como ponto de partida para a mudança. “Parar, observar-se e pedir feedback honesto sobre como você está sendo percebida” é um primeiro passo. O segundo é refletir sobre aspirações pessoais e profissionais, muitas vezes obscurecidas por expectativas externas da família, da organização ou da sociedade. Assumir a autoria da própria história exige rever o roteiro escrito por outros.

 

Ter clareza sobre objetivos, mapear pontos fortes e de desenvolvimento e buscar mentoria, redes de apoio ou coaching são caminhos para acelerar esse processo. “Não é preciso fazer essa jornada sozinha”, reforça. Para Susana Azevedo, o fortalecimento da liderança feminina passa por um movimento interno tão relevante quanto as mudanças estruturais: “Autoconsciência gera confiança. E confiança gera protagonismo para a transformação pessoal.”



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