Mesmo com avanços graduais, a presença
feminina nos cargos de liderança no Brasil segue limitada. Dados recentes
mostram que as mulheres ocupam apenas 39% das posições de liderança no
país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Outro
estudo, o Panorama Mulheres 2025, do Insper, reforça que a desigualdade de
gênero permanece estrutural nas empresas brasileiras, especialmente nos níveis
mais altos da hierarquia. Da amostra de 310 empresas coletada em 2024, 224
companhias têm presidência formalizada e apenas 39 são lideradas por mulheres,
representando 17,4% do total.
Além das barreiras externas, culturais e
organizacionais, um fator menos visível também pode influenciar
esse cenário: a autossabotagem. Para Susana
Azevedo, especialista em desenvolvimento de lideranças, coaching e sócia da
Quantum Development, muitos dos obstáculos à ascensão feminina
estão relacionados a padrões de comportamento internalizados ao longo da vida. “São
comportamentos, muitas vezes inconscientes, que fazem com que mulheres se
sintam inseguras para assumir ou expressar suas ambições profissionais e
pessoais”, afirma.
Segundo a especialista, desde cedo meninas
são incentivadas a serem cuidadosas, obedientes e perfeitas, enquanto meninos
são estimulados a competir, experimentar e correr riscos. Esses modelos acabam
moldando a forma como as mulheres se posicionam no ambiente corporativo. Mas o
que foi aprendido pode ser transformado. “Nas organizações, isso costuma se
traduzir em mulheres que chegam aos primeiros níveis de liderança justamente
por serem dedicadas, responsáveis e consistentes. No entanto, os mesmos hábitos
que as levaram até ali muitas vezes passam a limitar sua evolução”, explica. Em
outras palavras, o convite é para que as mulheres atualizem suas próprias
ferramentas de liderança.
A pesquisadora Sally Helgesen, referência
internacional em liderança feminina, identificou padrões recorrentes de
autossabotagem que seguem presentes nas empresas. Entre
eles estão a dificuldade de reconhecer e comunicar ambições, a tendência de
subvalorizar a própria contribuição, a tentativa de fazer tudo sozinha, a busca
excessiva pela perfeição e a redução da própria presença executiva em momentos
decisórios.
Esses comportamentos, segundo Susana,
tendem a se intensificar em fases de transição, como promoções, mudanças de
papel, maternidade ou processos sucessórios.
Alguns sinais funcionam como alerta, como
sentir-se constantemente sobrecarregada, não se sentir ouvida, evitar
candidaturas por não atender a 100% dos critérios ou perceber equipes pouco
autônomas. “Esses momentos podem ser convites para uma pausa e reflexão sobre
quanto disso vem do sistema e quanto pode estar relacionado aos nossos próprios
padrões?”, provoca.
No
contexto do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, Susana
destaca a importância da autoconsciência como ponto de partida para a mudança.
“Parar, observar-se e pedir feedback honesto sobre como você está sendo
percebida” é um primeiro passo. O segundo é refletir sobre aspirações pessoais
e profissionais, muitas vezes obscurecidas por expectativas externas da
família, da organização ou da sociedade. Assumir a autoria da própria história
exige rever o roteiro escrito por outros.
Ter clareza sobre objetivos, mapear pontos
fortes e de desenvolvimento e buscar mentoria, redes de apoio ou coaching são
caminhos para acelerar esse processo. “Não é preciso fazer essa jornada
sozinha”, reforça. Para Susana Azevedo, o fortalecimento da liderança feminina
passa por um movimento interno tão relevante quanto as mudanças estruturais:
“Autoconsciência gera confiança. E confiança gera protagonismo para a
transformação pessoal.”
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