sexta-feira, 13 de março de 2026

Exposição "daBeira doCaminho" evidencia a poética brutal das "cruzes das almas" espalhadas pelas rodovias entre Serro e Belo Horizonte

 



Assinada pelo artista visual mineiro Tiago Aguiar, mostra retrata as cruzes que habitam as estradas e provoca reflexão sobre a morte; transitando entre fotografia, vídeo e performance, mostra acontece no Serro, a partir do dia 19 de março

 

A estrada promete fluxo e velocidade, impondo o risco de interrupção abrupta da vida. Em 2025, foram 765 mortes nas rodovias federais de Minas Gerais e 6.044 no Brasil. É nesse não chegar que habitam as “cruzes das almas” – objetos que fixam a memória, transformando o ponto de passagem em lugar de alerta diante da brutalidade da infraestrutura viária. Na estrada entre Serro e Belo Horizonte, a insistência visual desses marcos tornou-se mapeamento imagético e compromisso espiritual para Tiago Aguiar. O resultado é a exposição “daBeira doCaminho”, cuja abertura acontece no dia 19 de março, quinta-feira, às 14h, no Museu Regional Casa dos Ottoni, no Serro. Na ocasião, haverá visita guiada com presença do artista. A exposição fica em cartaz entre os dias 20 de março e 3 de maio, com visitação gratuita de terça a sábado, das 10h às 18h; e aos domingos, das 8h às 12h.

 

A mostra “daBeira doCaminho” deriva de uma pesquisa em paisagem sobre a monumentalização popular da memória, desenvolvida em fotografia, vídeo e performance. O projeto nasce de um preceito: como irmão do Rosário e dançante catopê de Nossa Senhora do Rosário do Serro, Tiago Aguiar responde ao compromisso de zelar pelos mortos, reparando e reafirmando as cruzes na estrada, antes de registrar suas imagens. “Eu sou do Serro e fui para BH muito cedo, para estudar. Então, fiz esse trajeto inúmeras vezes, pelas rodovias que conectam as duas cidades. Passei a reparar as cruzes e a mapeá-las. São cerca de 80 cruzes, ao total”, conta. “Quando me tornei catopê, firmei um compromisso de interceder pelos irmãos defuntos, como diz o texto do Livro de Compromisso dos Irmãos do Rosário, de 1728. Fiz uma promessa de vida, de cuidar dessas cruzes”.

 

Nesta primeira etapa do projeto, Tiago Aguiar atuou em 14 cruzes, acompanhado por um profissional de vídeo. “Eu chego até a cruz, faço um pedido de autorização, limpo o lixo em volta da cruz, capino o mato, acendo uma vela, pinto a cruz e firmo a cruz, se ela estiver bamba. Tem também a camada espiritual que não aparece no vídeo, que estrutura os gestos e modos da ação. As pesquisas em arte e em espiritualidade são muito misturadas”, afirma. “Um ponto interessante do vídeo é a sonoridade, que mistura o que é lento e bucólico, como o som dos pássaros cantando, e o que é rápido e mecânico, como os carros em alta velocidade, cortando a estrada. Isso fica muito evidente, porque fizemos uma captação de áudio de cinema, em alta qualidade no sistema 5.1, que vai atravessar a sala”, revela.

 

Além do vídeo, intitulado “Promessa para as Almas”, a exposição conta com duas séries de fotografias: uma formada por imagens das cruzes restauradas, nomeada “Cruz das Almas”, e outra por imagens aéreas de trechos em que aconteceram os acidentes, cujo título é “Ponto de Cruz”. “Vou fazer uma composição das fotografias de drone na parede, remontando esses ‘Pontos de Cruz’ em sequência e fazendo um desenho da estrada. As fotografias de ‘Cruz nas Almas’ também estarão aproximadas, para trazer uma impressão de relevo. Neste lugar, onde estarão as fotografias, será possível escutar o áudio do vídeo, com seus ruídos. Não queria apenas uma coisa estetizada, de fotografias bonitas. Eu acho importante trazer o risco”, afirma Tiago.

 

Para o artista, o projeto chega em um momento importante da história, em que a sociedade vive uma banalização da morte. “O trabalho vem da tradição de cuidar dos mortos, justo nesta época em que a morte parece ser anestesiada. Conflitos e genocídios que chegam via transmissão ao vivo; guerras com ataques a civis por todos os lados. A morte é um assunto recorrente. Um grande assunto que nós, como sociedade, especialmente aqui, buscamos evitar, buscamos não nos relacionar”, reflete. “Então, este trabalho é também, de certa forma, um convite para olhar de forma mais ampla para a morte. Para pensar nossa relação com a ancestralidade, nossa relação com o outro, com o desconhecido, com os afetos, com os rituais. E, também, com a estrada, com a velocidade, com a paisagem. São muitas as chaves de leitura deste trabalho”.

 

O projeto “daBeira doCaminho” é uma realização do Movimento Áurea Cidadania e Identidade Cultural e do Ministério da Cultura do Brasil, por meio da Política Nacional Aldir Blanc. O projeto conta com o apoio do Governo Estadual de Minas Gerais e do Museu Regional Casa dos Ottoni. Projeto N° 13272/2024. Edital 06/2024 - Chamamento Público: Produção de Obras, tipo Apoio Financeiro.

 

Sobre Tiago Aguiar

 

Nascido em 1983, no Serro (MG), Tiago Aguiar viveu na cidade até os 15 anos, quando se mudou para Belo Horizonte. Formado em Comunicação Social, especializou-se em fotografia no Hallmark Institute of Photography (Massachusetts, EUA). Trabalhou como fotógrafo comercial em Nova York, antes de retornar ao Brasil, em 2009, para se dedicar à pesquisa sobre a Festa do Rosário de sua cidade natal. Desde então, vem realizando projetos que unem arte contemporânea, religiosidade popular e memória coletiva.

  

Serviço


Exposição “daBeira doCaminho”, de Tiago Aguiar

Quando. Abertura, com visita guiada: 19 de março (quinta-feira), às 14h | Período expositivo: 20 de março a 3 de maio de 2026 | Visitação: terça a sábado, de 10h a 18h; domingos, de 8h a 12h

Onde. Museu Regional Casa dos Ottoni (Praça Cristiano Ottoni, 72 – Praia, Serro)

Quanto. Entrada gratuita

 

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