Assinada pelo artista visual
mineiro Tiago Aguiar, mostra retrata as cruzes que habitam as estradas e
provoca reflexão sobre a morte; transitando entre fotografia, vídeo e
performance, mostra acontece no Serro, a partir do dia 19 de março
A estrada promete fluxo e velocidade, impondo
o risco de interrupção abrupta da vida. Em 2025, foram 765 mortes nas rodovias
federais de Minas Gerais e 6.044 no Brasil. É nesse não chegar que habitam as
“cruzes das almas” – objetos que fixam a memória, transformando o ponto de
passagem em lugar de alerta diante da brutalidade da infraestrutura viária. Na
estrada entre Serro e Belo Horizonte, a insistência visual desses marcos
tornou-se mapeamento imagético e compromisso espiritual para Tiago Aguiar. O
resultado é a exposição “daBeira doCaminho”, cuja abertura acontece no dia 19
de março, quinta-feira, às 14h, no Museu Regional Casa dos Ottoni, no Serro. Na
ocasião, haverá visita guiada com presença do artista. A exposição fica em
cartaz entre os dias 20 de março e 3 de maio, com visitação gratuita de terça a
sábado, das 10h às 18h; e aos domingos, das 8h às 12h.
A mostra “daBeira doCaminho” deriva de uma
pesquisa em paisagem sobre a monumentalização popular da memória, desenvolvida
em fotografia, vídeo e performance. O projeto nasce de um preceito: como irmão
do Rosário e dançante catopê de Nossa Senhora do Rosário do Serro, Tiago Aguiar
responde ao compromisso de zelar pelos mortos, reparando e reafirmando as
cruzes na estrada, antes de registrar suas imagens. “Eu sou do Serro e fui para
BH muito cedo, para estudar. Então, fiz esse trajeto inúmeras vezes, pelas rodovias
que conectam as duas cidades. Passei a reparar as cruzes e a mapeá-las. São
cerca de 80 cruzes, ao total”, conta. “Quando me tornei catopê, firmei um
compromisso de interceder pelos irmãos defuntos, como diz o texto do Livro de
Compromisso dos Irmãos do Rosário, de 1728. Fiz uma promessa de vida, de cuidar
dessas cruzes”.
Nesta primeira etapa do projeto, Tiago Aguiar
atuou em 14 cruzes, acompanhado por um profissional de vídeo. “Eu chego até a
cruz, faço um pedido de autorização, limpo o lixo em volta da cruz, capino o
mato, acendo uma vela, pinto a cruz e firmo a cruz, se ela estiver bamba. Tem
também a camada espiritual que não aparece no vídeo, que estrutura os gestos e
modos da ação. As pesquisas em arte e em espiritualidade são muito misturadas”,
afirma. “Um ponto interessante do vídeo é a sonoridade, que mistura o que é
lento e bucólico, como o som dos pássaros cantando, e o que é rápido e
mecânico, como os carros em alta velocidade, cortando a estrada. Isso fica
muito evidente, porque fizemos uma captação de áudio de cinema, em alta
qualidade no sistema 5.1, que vai atravessar a sala”, revela.
Além do vídeo, intitulado “Promessa para as
Almas”, a exposição conta com duas séries de fotografias: uma formada por
imagens das cruzes restauradas, nomeada “Cruz das Almas”, e outra por imagens
aéreas de trechos em que aconteceram os acidentes, cujo título é “Ponto de
Cruz”. “Vou fazer uma composição das fotografias de drone na parede, remontando
esses ‘Pontos de Cruz’ em sequência e fazendo um desenho da estrada. As
fotografias de ‘Cruz nas Almas’ também estarão aproximadas, para trazer uma
impressão de relevo. Neste lugar, onde estarão as fotografias, será possível
escutar o áudio do vídeo, com seus ruídos. Não queria apenas uma coisa
estetizada, de fotografias bonitas. Eu acho importante trazer o risco”, afirma
Tiago.
Para o artista, o projeto chega em um momento
importante da história, em que a sociedade vive uma banalização da morte. “O
trabalho vem da tradição de cuidar dos mortos, justo nesta época em que a morte
parece ser anestesiada. Conflitos e genocídios que chegam via transmissão ao
vivo; guerras com ataques a civis por todos os lados. A morte é um assunto
recorrente. Um grande assunto que nós, como sociedade, especialmente aqui,
buscamos evitar, buscamos não nos relacionar”, reflete. “Então, este trabalho é
também, de certa forma, um convite para olhar de forma mais ampla para a morte.
Para pensar nossa relação com a ancestralidade, nossa relação com o outro, com
o desconhecido, com os afetos, com os rituais. E, também, com a estrada, com a
velocidade, com a paisagem. São muitas as chaves de leitura deste trabalho”.
O projeto “daBeira doCaminho” é uma
realização do Movimento Áurea Cidadania e Identidade Cultural e do Ministério
da Cultura do Brasil, por meio da Política Nacional Aldir Blanc. O projeto
conta com o apoio do Governo Estadual de Minas Gerais e do Museu Regional Casa
dos Ottoni. Projeto N° 13272/2024. Edital 06/2024 - Chamamento Público:
Produção de Obras, tipo Apoio Financeiro.
Sobre
Tiago Aguiar
Nascido em 1983, no Serro (MG), Tiago Aguiar
viveu na cidade até os 15 anos, quando se mudou para Belo Horizonte. Formado em
Comunicação Social, especializou-se em fotografia no Hallmark Institute of
Photography (Massachusetts, EUA). Trabalhou como fotógrafo comercial em Nova
York, antes de retornar ao Brasil, em 2009, para se dedicar à pesquisa sobre a
Festa do Rosário de sua cidade natal. Desde então, vem realizando projetos que
unem arte contemporânea, religiosidade popular e memória coletiva.
Serviço
Exposição
“daBeira doCaminho”, de Tiago Aguiar
Quando.
Abertura, com visita guiada: 19 de março (quinta-feira), às 14h | Período
expositivo: 20 de março a 3 de maio de 2026 | Visitação: terça a sábado, de 10h
a 18h; domingos, de 8h a 12h
Onde. Museu
Regional Casa dos Ottoni (Praça Cristiano Ottoni, 72 – Praia, Serro)
Quanto. Entrada gratuita

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