Com 89% da população online e avanço de conteúdos nocivos, especialistas defendem que proteção digital precisa ir além da regulação
A entrada em vigor das medidas conhecidas como “ECA Digital” nesta semana marca um avanço na tentativa de adaptar a proteção de crianças e adolescentes à realidade do ambiente online. Mais do que uma atualização legal, o movimento responde a uma transformação estrutural: o Brasil se tornou um país amplamente conectado, e, ao mesmo tempo, exposto a novos riscos digitais.
Dados
da PNAD Contínua TIC mostram que 89,1% da população com 10 anos ou mais usou a
internet nos últimos três meses, o equivalente a cerca de 168 milhões
de pessoas. Desse total, 98,8% acessam a rede pelo celular,
um formato que favorece uso contínuo, estímulos rápidos e menor mediação.
No caso de crianças e adolescentes, o cenário ganha contornos ainda mais complexos. A pesquisa TIC Kids Online Brasil indica que 65% dos jovens de 9 a 17 anos já utilizaram ferramentas de inteligência artificial, muitas vezes para além de usos educacionais.
Esse contexto se cruza com o aumento de riscos. Levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam crescimento superior a 300% na circulação de conteúdos nocivos, violentos e ameaças em ambientes digitais frequentados por jovens.
Para a
psicóloga Karen Scavacini, fundadora do Instituto Vita Alere e especialista em prevenção e
posvenção ao suicídio, o avanço da regulação é importante, mas não resolve o
problema de fundo. “Estamos falando de uma geração que cresce em ambientes
digitais altamente estimulantes, com pouca mediação e grande capacidade de
impactar autoestima, comportamento e relações. O risco não está apenas no
conteúdo extremo, mas no uso cotidiano, que pode afetar o desenvolvimento
emocional.”
Segundo ela, o sofrimento psíquico tende a aparecer de forma silenciosa. “Mudanças de comportamento, isolamento, irritabilidade ou queda no rendimento escolar são sinais que muitas vezes passam despercebidos. E é justamente na escola que eles podem surgir primeiro.”
Nesse contexto, o papel dos educadores torna-se ainda
mais central. Pensando nisso, o Instituto Vita Alere desenvolveu a cartilha
gratuita “Tempo de tela e adolescentes”, voltada a
profissionais da educação e com orientações práticas para a identificação de
sinais de sofrimento emocional e encaminhamento adequado.
O
chamado ECA Digital também amplia a responsabilidade de diferentes atores,
incluindo plataformas, escolas e famílias. Para Karen, no entanto, o desafio é
coletivo. “A regulação é necessária, mas não substitui a presença dos adultos.
Crianças e adolescentes precisam de acompanhamento, diálogo e referência. Sem isso,
o ambiente digital se torna um espaço de exposição sem proteção suficiente.”
Especialistas
apontam que o Brasil vive hoje um descompasso: o acesso à tecnologia avançou
rapidamente, mas o preparo para lidar com seus impactos, especialmente na saúde
mental, não evoluiu no mesmo ritmo. Com a nova regulamentação, o desafio passa
a ser transformar a proteção prevista em lei em práticas concretas, capazes de
acompanhar a velocidade das mudanças no ambiente digital.
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