quarta-feira, 4 de março de 2026

Elas no comando: o protagonismo feminino que está transformando o agronegócio

Mulheres assumem papéis estratégicos no agro e reposicionam o setor em negócios, inovação e imagem pública.
 

O agronegócio brasileiro atravessa uma revolução que transcende a produção rural e se consolida como uma das principais forças culturais, econômicas e de consumo do país. É o que revela o estudo Novo Agro, desenvolvido pela Estúdio Eixo, Consumer Behavior & Culture Consulting do ecossistema Biosphera.ntwk em parceria com a Zygon Digital - Adtech baiana focada em mídia e estratégia digital, que traça uma fotografia inédita do setor que mais cresce no Brasil. 

Com uma metodologia que combina desk research, análise semiótica, netnografia de mais de 100 mil comentários em redes sociais e entrevistas com especialistas dos setores de agro, tech, moda e música, a pesquisa decodifica como o agronegócio vem moldando novos estilos de vida, valores e práticas culturais. O agro não se restringe ao Centro-Oeste: seus códigos culturais se espalham por todo o Brasil, alcançando também o Nordeste e o Sul.
 

O agro como motor econômico e cultural 

Responsável por R$ 2,72 trilhões ( do PIB brasileiro) e mais de 28 milhões de empregos (26% dos postos de trabalho do país), o agronegócio transformou cidades do interior em polos de desenvolvimento. Municípios como Sorriso (MT), São Desidério (BA) e Rio Verde (GO) lideram o ranking nacional de produção agrícola, enquanto Goiânia emerge como a "Dubai brasileira" o epicentro de luxo, com crescimento de 80% em lançamentos imobiliários de alto padrão e porta de entrada prioritária para grifes como Chanel, Tiffany e Christian Louboutin. 

Balneário Camboriú (SC) consolida-se como a "Riviera do Agro", destino preferencial da nova elite rural, com o metro quadrado mais valorizado do Brasil (R$ 14,3 mil) e crescimento de 11,16% em 12 meses.

A pesquisa mapeia a evolução dos códigos culturais do agro em três camadas:

  • Códigos Residuais (#AgroRaiz): valores fundadores como fé, família, trabalho e masculinidade rústica
  • Códigos Dominantes (#AgroStyles): AgroTech, AgroPop e AgroLuxo — fusão de tradição, tecnologia e cosmopolitismo
  • Códigos Emergentes (#AgroFuture): sustentabilidade (GreenTech) e protagonismo feminino (FeminAgro)

"O agro brasileiro não é mais homogêneo. Existem múltiplas identidades do produtor tech que pilota drones ao 'vaqueiro pop' que mescla botas texanas com grifes internacionais. É um remix cultural que combina raízes locais com referências globais", destaca o estudo. 

Para Lucas Reis, presidente e sócio da Zygon, entender essa transformação é decisivo para marcas que desejam atuar de forma relevante nesse universo: 

“O Novo Agro não pode ser tratado apenas como um segmento econômico, mas como um ecossistema cultural complexo, guiado por dados, símbolos e comportamentos. Quando analisamos consumo, mídia e performance, fica claro que as marcas que prosperam são aquelas que traduzem esses códigos em estratégias consistentes de comunicação, experiência e relacionamento — e não em ações pontuais”, afirma o executivo. 

O Novo Agro impulsiona uma cadeia multibilionária que conecta lifestyle e entretenimento:

  • Música sertaneja: 7 em cada 10 brasileiros ouvem o gênero; 9 dos 10 álbuns mais ouvidos no Brasil são sertanejos
  • Rodeios: mais de 1.000 eventos/ano movimentam R$ 9 bilhões e reúnem 9 milhões de pessoas. A Festa do Peão de Barretos sozinha gerou R$ 600 milhões em 2025
  • Feiras: Agrishow 2025 movimentou R$ 14,6 bilhões em negócios e recebeu 197 mil visitantes
  • Automóveis: crescimento de 74% nas vendas de picapes premium, com a RAM consolidada como "carro oficial do agro de luxo"
  • Moda: aumento de 379% nas buscas por botas western e 265% por camisas com franja

Se há uma força estruturante no Novo Agro, ela é feminina. O estudo identifica o avanço consistente das mulheres em posições estratégicas, operacionais e simbólicas dentro do setor, transformando não apenas a gestão das propriedades, mas também a imagem pública do agro.
 

Os números revelam a dimensão dessa virada:

  • Mais de 1 milhão de mulheres produtoras rurais no Brasil
  • Crescimento de 109% no emprego formal feminino no agro
  • Mais de 30 milhões de hectares geridos por mulheres

Mais do que presença, trata-se de protagonismo. O estudo identifica dois arquétipos emergentes que ajudam a decodificar essa transformação:

  • Agro Paty: herdeira e gestora, formação em agronomia ou áreas correlatas, visão estratégica e foco em ESG. Circula entre o campo e os grandes centros, conecta luxo, inovação e sustentabilidade e reposiciona o agro como negócio sofisticado e global.
  • Agro Peoa: técnica e operadora, domina maquinário, gestão e operação. Disputa a arena simbólica e literal do campo com autoridade, liderando equipes e quebrando estereótipos históricos de gênero.

Esse protagonismo também ecoa na cultura pop, especialmente na música sertaneja, onde vozes femininas ampliam narrativas de autonomia, força e identidade. Artistas como Marília Mendonça, Simone Mendes, Maiara & Maraisa e Ana Castela consolidam uma estética e um discurso que dialogam diretamente com o universo do Novo Agro, misturando romantismo, independência financeira, ostentação e orgulho das origens. 

“O Novo Agro representa um Brasil que produz, consome e comunica com orgulho sua identidade. A ascensão feminina é um dos vetores mais potentes dessa transformação. As mulheres não estão apenas ocupando espaço, elas estão redefinindo prioridades, linguagem e modelo de gestão no campo. Para as marcas, isso significa entender novas lideranças, novas sensibilidades e novas formas de pertencimento”, aponta Kika Brandão, CEO da Eixo. 

Mais do que tendência, o FeminAgro se consolida como eixo estratégico. O Novo Agro exige estratégia, leitura cultural profunda e compromisso de longo prazo. Não basta patrocinar eventos: é preciso compreender quem está no comando e cada vez mais elas estão.


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