quinta-feira, 12 de março de 2026

Doença renal crônica: da prevenção ao tratamento, estratégias que podem adiar a necessidade de diálise

Patologia, que avança de forma silenciosa, já afeta mais de 20 milhões de brasileiros 

 

Ela progride sem dor e sem sinais claros, mas o seu desfecho muitas vezes é falência renal irreversível. Silenciosa, a doença renal crônica (DRC) consiste na perda gradual da função dos rins ao longo do tempo, fazendo com que os órgãos deixem de filtrar adequadamente o sangue, provocando um acúmulo de toxinas e líquidos no organismo. No Brasil, estima-se que pelo menos 10% da população conviva com algum nível da DRC, segundo dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).

 

Por conta disso, o impacto da doença também se reflete no sistema de saúde: atualmente, o país conta com 172.585 pacientes em diálise, sendo 79% atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), segundo dados da SBN. O levantamento aponta ainda que, em maio de 2025, mais de mil pacientes internados em todo o Brasil estavam na fila de espera para vagas em clínicas de diálise.

 

No entanto, apesar da alta prevalência da doença, muitos pacientes desconhecem o diagnóstico justamente por conta da sua evolução silenciosa, que pode progredir por anos sem apresentar sintomas claros – dificultando sua identificação e aumentando o risco de complicações graves.

 

No cenário global, a Doença Renal Crônica também apresenta crescimento acelerado. Um estudo internacional conduzido por instituições como NYU Langone Health, Universidade de Glasgow e o Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME) mostrou que o número de pessoas com função renal reduzida mais que dobrou nas últimas décadas, afetando o equivalente a 14% da população adulta mundial em 2023. No mesmo período, a doença passou a figurar pela primeira vez entre as dez principais causas de morte no mundo, sendo responsável por cerca de 1,5 milhão de óbitos apenas em 2023.

 

Diante desse cenário, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a incluir a DRC entre as prioridades globais no combate às doenças não transmissíveis, com a meta de reduzir até 2030 em um terço a mortalidade prematura causada pela doença, por meio de estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e ampliação do acesso ao tratamento.


O médico nefrologista Hugo Abensur, ex-presidente da Sociedade de Nefrologia do Estado de São Paulo e professor Livre- Docente da Universidade de São Paulo, explica que a Doença Renal Crônica pode ter diferentes origens, sendo a hipertensão arterial e o diabetes as principais causas. Ele destaca ainda o uso abusivo de antinflamatórios e de sal como vilões, reforçando que a incidência da condição é significativamente maior entre a população idosa.

 

“A principal mensagem é investir na prevenção, adotando hábitos de vida saudáveis. Evitar a obesidade, reduzir o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados e sal e combater o sedentarismo são medidas fundamentais para prevenir o surgimento das principais condições que levam à doença renal crônica”, diz.

 

Tratamento e qualidade de vida


O diagnóstico precoce e o acompanhamento adequado são fundamentais para controlar a doença, retardar sua progressão e preservar a qualidade de vida dos pacientes. Segundo o nefrologista, o tratamento deve ser multidisciplinar, cuidando do paciente de forma integral, devendo incluir mudanças no estilo de vida, controle de doenças associadas (como hipertensão e diabetes), uso de medicamentos específicos e monitoramento contínuo da função renal. Esses procedimentos permitem que o paciente não perca a função renal de forma acelerada.

 

Segundo o médico, quando os rins apresentam uma função entre 100% e 10%, é possível adotar o chamado tratamento conservador, que consiste no uso de medicamentos e na adoção de uma dieta específica para controlar a progressão da doença e seus sintomas. No entanto, quando a função renal cai abaixo de 10%, torna-se necessário realizar a terapia de substituição renal, que pode ser realizada por meio de hemodiálise, diálise peritoneal ou transplante renal.

 

O avanço das opções terapêuticas tem contribuído para melhorar o prognóstico e a qualidade de vida das pessoas com disfunção renal, um cuidado que evita inclusive o avanço de complicações que surgem em decorrência da doença renal e adia a necessidade de adoção da diálise. Dentre os tratamentos, está a dieta reduzida em proteínas suplementada com aminoácidos essenciais e cetoanálogos. Segundo Renata Rodrigues, Nutricionista Renal e Mestre em Nefrologia pela UNIFESP, existem evidências científicas de que esse tratamento contribui para melhora das complicações da DRC, sintomatologia urêmica e qualidade de vida, além de adiar a necessidade de terapia de substituição renal.

 

“A adoção da dieta permite que o paciente mantenha um estilo de vida praticamente normal, com alguns ajustes. Quando bem indicado e orientado, não evolui com desnutrição ou sarcopenia, condições que podem gerar preocupação pela redução da ingestão dietética de proteínas. Além disso, o paciente preserva sua autonomia, podendo continuar trabalhando e mantendo suas atividades, sem necessidade de afastamento ou aposentadoria”, explica a nutricionista.

 

Segundo os especialistas, evidências da literatura indicam que pacientes com menos de 20% de função renal que utilizam cetoanálogos associados a uma dieta adequada podem adiar a necessidade de diálise entre um ano e meio e dois anos, em média, representando um ganho importante em qualidade de vida e no manejo clínico da doença.

 

No entanto, especialistas reforçam que a conscientização da população e o diagnóstico precoce ainda são as principais estratégias para reduzir o impacto da doença, permitindo intervenções mais eficazes e melhores resultados clínicos. O médico nefrologista Hugo Abensur reforça que há casos em que o uso da dieta com suplementação pode prolongar significativamente o tempo sem necessidade de diálise. Ele cita o exemplo de um paciente que está há 10 anos em tratamento conservador com cetoanálogos, sem necessidade de terapia dialítica.

 

O especialista conta também que já acompanhou outros pacientes que permaneceram cinco e até seis anos sem diálise, embora ressalte que, de acordo com a literatura, a média observada seja de cerca de um ano. “Esse é um exemplo de como, com acompanhamento adequado e boa adesão ao tratamento, é possível preservar a função renal por mais tempo e adiar a diálise”, afirma.




Fresenius Kabi
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