Patologia, que avança de forma silenciosa, já afeta mais de 20
milhões de brasileiros
Ela progride sem dor e sem sinais claros,
mas o seu desfecho muitas vezes é falência renal irreversível. Silenciosa, a
doença renal crônica (DRC) consiste na perda gradual da função dos rins ao
longo do tempo, fazendo com que os órgãos deixem de filtrar adequadamente o
sangue, provocando um acúmulo de toxinas e líquidos no organismo. No Brasil,
estima-se que pelo menos 10% da população conviva com algum nível da DRC,
segundo dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).
Por conta disso, o impacto da doença também
se reflete no sistema de saúde: atualmente, o país conta com 172.585 pacientes
em diálise, sendo 79% atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), segundo
dados da SBN. O levantamento aponta ainda que, em maio de 2025, mais de mil
pacientes internados em todo o Brasil estavam na fila de espera para vagas em
clínicas de diálise.
No entanto, apesar da alta prevalência da
doença, muitos pacientes desconhecem o diagnóstico justamente por conta da sua
evolução silenciosa, que pode progredir por anos sem apresentar sintomas claros
– dificultando sua identificação e aumentando o risco de complicações graves.
No cenário global, a Doença Renal Crônica
também apresenta crescimento acelerado. Um estudo internacional conduzido por
instituições como NYU Langone Health, Universidade de Glasgow e o Instituto de
Métricas e Avaliação da Saúde (IHME) mostrou que o número de pessoas com função
renal reduzida mais que dobrou nas últimas décadas, afetando o equivalente a
14% da população adulta mundial em 2023. No mesmo período, a doença passou a
figurar pela primeira vez entre as dez principais causas de morte no mundo,
sendo responsável por cerca de 1,5 milhão de óbitos apenas em 2023.
Diante desse cenário, a Organização Mundial
da Saúde (OMS) passou a incluir a DRC entre as prioridades globais no combate
às doenças não transmissíveis, com a meta de reduzir até 2030 em um terço a
mortalidade prematura causada pela doença, por meio de estratégias de
prevenção, diagnóstico precoce e ampliação do acesso ao tratamento.
O médico nefrologista Hugo Abensur,
ex-presidente da Sociedade de Nefrologia do Estado de São Paulo e professor
Livre- Docente da Universidade de São Paulo, explica que a Doença Renal Crônica
pode ter diferentes origens, sendo a hipertensão arterial e o diabetes as
principais causas. Ele destaca ainda o uso abusivo de antinflamatórios e de sal
como vilões, reforçando que a incidência da condição é significativamente maior
entre a população idosa.
“A principal mensagem é investir na
prevenção, adotando hábitos de vida saudáveis. Evitar a obesidade, reduzir o
consumo excessivo de alimentos ultraprocessados e sal e combater o sedentarismo
são medidas fundamentais para prevenir o surgimento das principais condições
que levam à doença renal crônica”, diz.
Tratamento
e qualidade de vida
O diagnóstico precoce e o acompanhamento
adequado são fundamentais para controlar a doença, retardar sua progressão e
preservar a qualidade de vida dos pacientes. Segundo o nefrologista, o
tratamento deve ser multidisciplinar, cuidando do paciente de forma integral,
devendo incluir mudanças no estilo de vida, controle de doenças associadas
(como hipertensão e diabetes), uso de medicamentos específicos e monitoramento
contínuo da função renal. Esses procedimentos permitem que o paciente não perca
a função renal de forma acelerada.
Segundo o médico, quando os rins apresentam
uma função entre 100% e 10%, é possível adotar o chamado tratamento
conservador, que consiste no uso de medicamentos e na adoção de uma dieta
específica para controlar a progressão da doença e seus sintomas. No entanto,
quando a função renal cai abaixo de 10%, torna-se necessário realizar a terapia
de substituição renal, que pode ser realizada por meio de hemodiálise, diálise
peritoneal ou transplante renal.
O avanço das opções terapêuticas tem
contribuído para melhorar o prognóstico e a qualidade de vida das pessoas com
disfunção renal, um cuidado que evita inclusive o avanço de complicações que
surgem em decorrência da doença renal e adia a necessidade de adoção da
diálise. Dentre os tratamentos, está a dieta reduzida em proteínas suplementada
com aminoácidos essenciais e cetoanálogos. Segundo Renata Rodrigues,
Nutricionista Renal e Mestre em Nefrologia pela UNIFESP, existem evidências
científicas de que esse tratamento contribui para melhora das complicações da
DRC, sintomatologia urêmica e qualidade de vida, além de adiar a necessidade de
terapia de substituição renal.
“A adoção da dieta permite que o paciente
mantenha um estilo de vida praticamente normal, com alguns ajustes. Quando bem
indicado e orientado, não evolui com desnutrição ou sarcopenia, condições que
podem gerar preocupação pela redução da ingestão dietética de
proteínas. Além disso, o paciente preserva sua autonomia, podendo
continuar trabalhando e mantendo suas atividades, sem necessidade de
afastamento ou aposentadoria”, explica a nutricionista.
Segundo os especialistas, evidências da
literatura indicam que pacientes com menos de 20% de função renal que utilizam
cetoanálogos associados a uma dieta adequada podem adiar a necessidade de
diálise entre um ano e meio e dois anos, em média, representando um ganho
importante em qualidade de vida e no manejo clínico da doença.
No entanto, especialistas reforçam que a
conscientização da população e o diagnóstico precoce ainda são as principais
estratégias para reduzir o impacto da doença, permitindo intervenções mais
eficazes e melhores resultados clínicos. O médico nefrologista Hugo Abensur
reforça que há casos em que o uso da dieta com suplementação pode prolongar
significativamente o tempo sem necessidade de diálise. Ele cita o exemplo de um
paciente que está há 10 anos em tratamento conservador com cetoanálogos, sem
necessidade de terapia dialítica.
O especialista conta também que já
acompanhou outros pacientes que permaneceram cinco e até seis anos sem diálise,
embora ressalte que, de acordo com a literatura, a média observada seja de
cerca de um ano. “Esse é um exemplo de como, com acompanhamento adequado e boa
adesão ao tratamento, é possível preservar a função renal por mais tempo e
adiar a diálise”, afirma.
Fresenius Kabi
http://www.fresenius-kabi.com/
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