Ao lembrarmos do antigo Dia do Consumidor, talvez seja hora de atualizá-lo para o Dia do Omniconsumidor, empoderado pela Inteligência Artificial que marca o surgimento de um novo personagem no ambiente econômico, caracterizado por ser mutante, mutável, metaconectado e por interagir em tempo real em múltiplas dimensões.
Existem momentos na história em que uma tecnologia
deixa de ser novidade e passa a se tornar um elemento básico da vida cotidiana.
Assim foi com a eletricidade, com a internet e com o smartphone.
O momento que vivemos agora é aquele em que a
Inteligência Artificial começa a se incorporar, de forma definitiva, ao dia a
dia, e em pouco tempo talvez não nos lembremos mais de como vivíamos sem ela.
Ferramentas como ChatGPT, Copilot e Geminii e
outras já fazem parte do cotidiano de milhões de omniconsumidores
globalmente, apoiando-os em suas escolhas e decisões de compra.
E, nessa dimensão, trazem consigo uma transformação
estrutural do próprio mercado.
A visão da evolução
Durante muito tempo, o consumidor enfrentou
limitações relacionadas à informação, ao tempo e à capacidade de comparação ao
definir produtos, marcas, locais e canais de compra. Isso hoje faz parte do
passado.
Cada vez mais, hoje, é possível comparar preços,
considerar avaliações, ler comentários, pesquisar alternativas, conhecer
promoções e montar cestas de compras com poucos toques, com a ajuda de um
assistente de IA.
E, muitas vezes, se surpreender com a precisão com
que as ofertas se aproximam exatamente daquilo que se deseja – definitivamente
não por acaso.
Na realidade brasileira e de outros mercados
emergentes, essa condição ainda é parcialmente mediada pelo acesso ao crédito e
pelo parcelamento, que são fatores que continuam exercendo influência relevante
nas decisões de compra e ajudam a equilibrar a tendência natural de
infidelidade do consumidor. A relação de crédito ainda retém parte dessa
fidelidade.
Tudo isso resulta da expansão do consumo digital e
de seu poder de reconfiguração estrutural da realidade do consumo, ao mesmo
tempo em que amplia exponencialmente a base de clientes conectados.
O comércio eletrônico global alcançou cerca de US$
6,3 trilhões em vendas em 2024, podendo chegar a aproximadamente US$ 8 trilhões
até 2028, segundo estimativas da Statista.
Cerca de 30% do varejo mundial já é influenciado
diretamente pelo digital, considerando vendas online e jornadas híbridas,
segundo a Euromonitor.
Em mercados asiáticos altamente digitalizados, como
China e Coreia do Sul, o comércio eletrônico já representa entre 40% e 50% das
transações no varejo de forma ampla.
Na realidade brasileira
O digital deixou de ser apenas um canal para se
tornar o ambiente natural do consumo. No Brasil, essa transformação é particularmente
intensa, já que o país possui uma das maiores populações digitais do mundo, com
perto de 94% dos domicílios com acesso à internet e uma cultura mobile-first
amplamente disseminada, além de uma elevada propensão à adoção de novas
tecnologias.
O sistema de pagamentos instantâneos Pix já
representa perto de 55% das transações eletrônicas do varejo, segundo dados do
Banco Central, marcando essa rápida adesão da população às novas tecnologias.
E todo esse ambiente está sendo agora acelerado e
potencializado pela Inteligência Artificial.
Estudos recentes da Capgemini e da Salesforce
mostram que 71% dos consumidores desejam usar IA em experiências de compra; 58%
já utilizam IA em vez de mecanismos tradicionais de busca; cerca de 60% já
usaram IA para pesquisar ou comprar produtos; e 77% afirmam que a IA acelera
suas decisões de compra
Além disso, dados da McKinsey indicam que empresas
que utilizam IA avançada em marketing e personalização podem aumentar as
receitas entre 5% e 15% e reduzir os custos operacionais em até 20%.
Suporte algorítmico
O algoritmo desenha o futuro do consumo, do mercado
e do comportamento do omniconsumidor. Durante muito tempo, a disputa no varejo
físico era determinada por fatores como localização, tamanho da loja,
visibilidade e ponto comercial.
Na etapa seguinte, essa disputa passou a incluir
tráfego digital, ranking em mecanismos de busca e domínio de marketplaces.
Mais recentemente, o algoritmo passou a recomendar
produtos, marcas, canais, soluções integradas, preços e promoções, muitas vezes
sem que o omniconsumidor perceba que suas escolhas estão sendo potencializadas
por sistemas de IA.
Nesse cenário, a Inteligência Artificial reorganiza
a lógica do consumo.
Produtos isolados resolvem apenas parte do
problema. O que realmente importa passa a ser a oferta de soluções completas,
levando ao processo de desmaterialização quando comparado com o próprio
conceito tradicional de varejo.
Automóveis deixam de ser apenas veículos e passam a
se tornar plataformas de software e serviços, como nos modelos da Tesla.
Mais do que marca, a Omo se torna sinônimo de roupa
limpa e passada para a Unilever em sua rede de lavanderias. São vendidos cada
vez mais produtos instalados e com manutenção pela Leroy Merlin, assim como em
alimentos e bebidas nos EUA, perto de 60% dos gastos ocorrem no foodservice.
Da mesma forma, ecossistemas digitais como Amazon,
Apple, Tencent e Alibaba, entre outros, oferecem de forma integrada hardware,
software, assinaturas, serviços financeiros, dados e programas de fidelidade.
Reconfiguração das novas
competências
Nesse novo ambiente competitivo, torna-se essencial
dominar curadoria, personalização e integração de serviços e soluções, buscando
estabelecer um relacionamento contínuo com o omniconsumidor.
Alguns elementos passam a ser decisivos e envolvem
dados estruturados, capacidade analítica, organização em ecossistemas,
integração de serviços e a oferta de soluções completas.
E com uma profunda mudança conceitual, pois em
mercados cada vez mais transparentes, o que é mediano ou inferior torna-se
rapidamente visível.
Promessas exageradas e marketing vazio tendem a ser
desmascarados quando confrontados com avaliações, dados e recomendações
pessoais ou algorítmicas.
Satisfação e insatisfação passam a ser medidas e
divulgadas em tempo real.
Decifra-me ou te devoro
Milhões de varejistas promoverão ofertas e
promoções no ambiente físico, digital e omnicanal evocando o Dia do Consumidor
ao longo desta semana. O omniconsumidor aproveitará algumas dessas
oportunidades, ao mesmo tempo em que usará e será sensibilizado pela IA para
potencializar o consumo.
Como tem acontecido nas datas promocionais
recentes, como Black Friday, Singles’ Day e Natal, mais uma vez haverá aumento
da participação dos canais digitais no total das vendas de produtos e serviços.
E, de forma crescente, agentes de IA serão usados
para facilitar a vida e as escolhas desses omniconsumidores.
A aceleração da incorporação de tudo que envolve IA
é o maior e mais complexo desafio do presente e um fator decisivo na definição
da evolução de marcas, negócios, conceitos, canais, formatos e modelos de
organização.
O “decifra-me ou te devoro” da antiga mitologia
grega, por incrível que pareça, é a mais eloquente síntese do momento que
vivemos.
Marcos Gouvêa de Souza - fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, o mais relevante ecossistema de consultorias, soluções e serviços que atua em todas as vertentes dos setores de Varejo, Consumo e Serviços. É membro do Conselho do IDV, IFB e Ebeltoft Group, presidente do LIDE Comércio, conselheiro do grupo BFFC/Bob's e autor/coautor de mais de dez livros relacionados aos temas de sua especialidade.
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