Dados do
Censo Escolar 2025 acendem alerta sobre evasão escolar e especialista aponta
que a queda não pode ser explicada apenas pela transição demográfica
O número de
estudantes matriculados na educação básica brasileira registrou uma queda
expressiva entre 2024 e 2025. Dados do Censo Escolar 2025, divulgados pelo
Ministério da Educação em fevereiro deste ano, mostram que o país passou de
47,09 milhões para 46,02 milhões de matrículas, uma redução de aproximadamente
1,08 milhão de alunos, o equivalente a 2,29% do total.
A retração atinge
diferentes etapas da educação básica, que inclui creche, educação infantil,
ensino fundamental e ensino médio, mas o impacto foi mais forte no ensino médio
da rede pública, responsável por uma perda de cerca de 425 mil estudantes, o
menor número de matrículas registrado neste século. Apenas o Estado de São
Paulo concentra cerca de 60% dessa queda no ensino médio público.
Segundo o
Ministério da Educação, parte da redução pode ser explicada pela transição
demográfica, com menos jovens em idade escolar, e por mudanças no fluxo
educacional. Um dos argumentos apresentados é a queda de 61% na distorção
idade-série na 3ª série do ensino médio, o que indicaria menos reprovação e
conclusão mais rápida dos estudos.
No entanto,
especialistas alertam que a diminuição nas matrículas pode estar relacionada
também à evasão e ao abandono escolar, especialmente no ensino médio. Ao comparar
os dados de matrícula entre séries consecutivas, observa-se que muitos
estudantes que estavam na 2ª série em 2024 não aparecem matriculados na 3ª
série em 2025, levantando dúvidas sobre a permanência desses jovens no sistema
educacional.
Para o especialista
em avaliação e regulação da educação superior, avaliador do Inep/MEC e CEO da
Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo, Antonio Esteca, os números
exigem uma análise cuidadosa. “Uma queda tão abrupta de um ano para outro nas
matrículas dificilmente pode ser explicada apenas pela transição demográfica.
Há indícios claros de que evasão e abandono também pesam nesse resultado”,
afirma.
Debate
sobre políticas educacionais
Os dados também
reacendem o debate sobre a eficácia de programas voltados à permanência dos
estudantes na escola, como o Pé-de-Meia, política federal que oferece
incentivos financeiros para estudantes de baixa renda permanecerem no ensino
médio. “O programa movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano, mas o recuo nas
matrículas durante sua execução levanta questionamentos sobre seu impacto real
na redução da evasão escolar”, observa Esteca.
Ao mesmo tempo,
analistas apontam que outras iniciativas educacionais enfrentam dificuldades de
financiamento. As escolas de tempo integral, por exemplo, cresceram 11% na rede
pública e alcançaram 8,8 milhões de alunos, mas secretários estaduais relatam
redução de repasses federais para essa modalidade, o que tem levado estados a
ampliar investimentos com recursos próprios.
Para Esteca, enfrentar
o problema exige olhar não apenas para a permanência do estudante, mas também
para a qualidade do processo educacional. “Aprovar alunos sem aprendizagem
mínima apenas mascara o problema, prejudica a sociedade e transfere a conta
para as instituições de ensino superior, que depois acabam responsabilizadas
pela má formação dos estudantes”, avalia.
Segundo ele, políticas públicas
voltadas à educação precisam equilibrar permanência, qualidade de ensino e
eficiência na aplicação de recursos, garantindo que os estudantes avancem na
trajetória escolar com aprendizado consistente.
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