A conta de luz sempre foi um dos principais
desafios estruturais da indústria brasileira. Afinal, em um país marcado por
encargos, tributos e subsídios embutidos nas tarifas, qualquer aumento nessa
conta é reflexo direto de um conjunto de fatores estruturais do modelo
energético. Para a indústria de alimentos e bebidas que, naturalmente,
apresenta um alto consumo em refrigeração, processamento, transporte e
armazenamento, é crucial que deixe de reagir aos aumentos e passe a estruturar
melhor sua eficiência, de forma que não sinta danos severos em suas
operações.
Projeções do boletim Focus do Banco Central do
Brasil apontam um reajuste médio nacional na faixa de 5% a 8%, refletindo
diferenças de compra de energia, custos de distribuição e passivos
regulatórios. Isso não se trata de um evento isolado, mas sim uma
consequência de toda a estruturação deste setor no país - uma vez que, por mais
que tenhamos uma matriz relativamente limpa, ainda somos altamente dependentes
de variáveis como hidrologia, despacho térmico e exposição a combustíveis fósseis, cuja
volatilidade internacional impacta os custos internos.
Soma-se a isso, ainda, a presença de um modelo
tarifário com forte repasse de encargos; judicializações e subsídios cruzados;
baixa eficiência no consumo final, especialmente industrial; maior
despacho de usinas térmicas (ligadas a combustíveis fósseis); pressões
internacionais no preço do petróleo e gás; encargos setoriais acumulados; alto
custo de expansão e manutenção da rede; e baixa modernização do consumo
industrial em muitos setores.
Mas, indo além disso, existe um ponto ainda
pouco discutido: o fato de que o problema não está
apenas na geração, mas na forma como se consome energia. Na indústria de
alimentos e bebidas, grande parte dessas empresas ainda opera ativos
frigoríficos com sistemas superdimensionados; baixo controle fino de
temperatura; falta de monitoramento em tempo real e manutenção reativa, o
que amplia sua exposição ao aumento tarifário e abre margem para consequências
de uma imprevisibilidade operacional.
Há uma necessidade urgente de modernização
dessa infraestrutura, frente a um sistema que não apenas acaba se
prejudicando,
mas que também transfere tais ineficiências e riscos
para o consumidor. Afinal, os impactos do reajuste tarifário vão muito
além de questões financeiras – prejudicando, também, a competitividade
industrial (reduzindo sua capacidade de investimentos e inovações); a cadeia
produtiva (visto que o aumento no custo de armazenagem refrigerada impacta
alimentos, bebidas e logística fria, pressionando preços ao consumidor); assim
como toda a segurança operacional (já que, sem uma gestão eficiente, os
aumentos tarifários levam a cortes mal planejados que podem comprometer a
qualidade e segurança alimentar).
Empresas menos eficientes energeticamente também
enfrentam uma maior exposição a metas de descarbonização e pressão de
investidores que, atualmente, priorizam, fortemente, organizações pautadas na
Agenda ESG. Pode parecer uma missão à longo prazo reverter esse cenário,
contudo, muitas iniciativas estabelecidas desde já são capazes de aperfeiçoar a
cadeia logística deste setor.
A realização de um diagnóstico profundo em cada
indústria é o ponto de partida nessa jornada – afinal, sem dados, não há
estratégia eficiente. Isso significa mapear o consumo real dos ativos
frigoríficos, incluindo curvas de carga, picos de demanda, fatores de potência
e perdas térmicas.
Os insights colhidos orientarão
essa indústria nas melhores medidas de otimização inteligente dos ativos
frigoríficos, que podem incluir controle automatizado de temperaturas por
zona, ajuste dinâmico de compressores, monitoramento contínuo da
eficiência, retrofit de componentes críticos e uso de
variadores de frequência (VFD).
A gestão energética moderna também exige
digitalização presente na captura e análise dos dados em tempo real, através de
mecanismos de sensoriamento contínuo, algoritmos preditivos e indicadores de
performance energética, por exemplo. E, para sustentar tais medidas a
longo prazo, é importante compreender que a eficiência não pode ser uma ação
isolada para enfrentar crise tarifária, mas precisa virar parte
essencial da cultura operacional.
Sistemas frigoríficos inteligentes não devem ser encarados como um custo, mas como um pilar fundamental contra volatilidade energética. Com um investimento constante em tecnologia, monitoramento contínuo e os pilares ESG, muitas frentes inovadoras e eficientes podem ser descobertas e exploradas – enquanto as indústrias que insistirem em operar “no escuro”, certamente pagarão mais caro por essa escolha.
Manuel Vargas fundador da Squair.
Squair
https://squair.io/
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