quinta-feira, 12 de março de 2026

Armadilhas da redução da jornada

 

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“A lei não é atenta à economia moderna, acaba propondo trocar trabalho ruim por tempo livre pior” 

 

A capacidade que a política tem de estragar uma ideia boa é assustadora. Dizer que é pesquisa de opinião perguntar a alguém se quer trabalhar menos e ganhar mais, sem indagar qual a consequência da resposta, é abuso do privilégio de mensurar. Crença, necessidade e desejo, na sociedade digital de imitação que vivemos, não é ideia nova, mas estímulo para embarcar em ideia pronta. Defender uma lei para outros cumprirem é hipnotismo da justiça sobre a liberdade, diante das consequências econômicas e psicológicas diversas.

A lei não é atenta à economia moderna, acaba propondo trocar trabalho ruim por tempo livre pior. Aumentando o superpoder do patrão digital das nuvens para usar, de forma gratuita, informações pessoais em aplicativos e redes sociais. A economia digital quer todos de tempo livre para ampliar a soberania cognitiva sobre as pessoas.

Quem só tem o tempo para vender recebe menos. Quem se prepara melhor, recebe mais. Justiça é melhorar o emprego concedendo tempo disponível para maior qualificação profissional, com o apoio público e privado.

A retórica não pode ser maior do que a análise de dados. O excesso de fundamentação simbólica dos debates enfraqueceu o legislador e fez prevalecer o fiscal da lei sobre a própria lei. Alienação agravada pela constitucionalização de quase tudo. Leis mal feitas deram ao Judiciário a coparticipação ativa na vigilância da liberdade, fez de juízes legisladores, sem ter poder originado do voto popular.

A Constituição de 1988 é clara em seu Art. 7º, Inciso XIII: Duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho.

Reduzir jornada e definir escala já é lei. Novas práticas de trabalho em busca de menor exaustão e mais produtividade é a meta do bom emprego. Não tem sentido piorar o que está previsto poder melhorar. Há uma lista de armadilhas com consequências previstas: Um, a camuflagem humanista do debate esconde que o trabalhador não apita o jogo. Dois, nada justifica impor uma superestrutura escandinava a outra realidade econômica que não suporta homogeneamente tal projeção. Três: quem dá o tom é a lógica das plataformas, prejudicando a formação do capital industrial, comercial e agrícola que nos trouxe até aqui. Quatro, é violada a autonomia dos sindicatos de trabalhadores e patronais, roubando-lhes prerrogativas e responsabilidades. Cinco, a lei é cega à dinâmica da economia que migrou para o e-commerce, fora do mercado de trabalho. É o lucro do trabalho sem emprego que fecha lojas e empresas e faz o indivíduo livre disponível, desprotegido, barato, ou não remunerado pelo capital digital.

Não é boa a lei que desiste de melhorar, por negociação coletiva, a qualificação no ambiente do emprego estável, regular e original.

A massificação da distração e a limitação da liberdade pela educação precária, má qualificação profissional e a improdutividade aumentarão com a redução da jornada. Tornará ilícito querer trabalhar mais, levando ao “bico” e a mais informalidade. Por que não estimular, no emprego, o aperfeiçoamento da relação trabalhador-empregador para melhor amalgamar satisfação e produtividade?

Estranha ideia associar liberdade com ausência no emprego e desdém pelo papel do trabalho. Sem educação para o trabalho e o emprego, a aparência justa da lei vai iludir e alienar, ao não entregar o que promete. Oferecer e privar será o resultado de um mesmo ato improvisado e mal feito. 

 

Paulo Delgado -  Sociólogo; foi Deputado Constituinte em 1988

Fonte: https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/armadilhas-da-reducao-da-jornada

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