quarta-feira, 11 de março de 2026

Anvisa libera uso de medicamento que atrasa aparecimento de DM1

Para a Sociedade Brasileira de Diabetes, a liberação é muito importante porque abre caminho para a medicina conseguir prevenir completamente a doença
 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso, no Brasil, do teplizumabe em pessoas com diabetes tipo 1 estágio 2 a partir de 8 anos de idade, para atrasar o desenvolvimento do estágio 3. O teplizumabe é um anticorpo monoclonal anti-CD3 desenvolvido para modular a atividade dos linfócitos T envolvidos no ataque autoimune às células produtoras de insulina. 

O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune na qual o sistema imunológico passa a atacar, por engano, as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina. “Até agora, o tratamento era baseado apenas na reposição da insulina que o organismo havia deixado de produzir”, explica dra. Melanie Rodacki, coordenadora do departamento de diabetes tipo 1 adulto da Sociedade Brasileira de Diabetes. “Mas agora estamos entrando em uma nova fase, na qual é possível intervir no processo imunológico que leva à destruição dessas células. Isso abre uma perspectiva de modificar a história natural da doença e retardar o seu aparecimento clínico.”

A progressão do diabetes tipo 1 ocorre em quatro estágios. Nos estágios 1 e 2, a doença ainda é pré-sintomática: não há sintomas nem necessidade de uso de insulina. Nessas fases, já é possível detectar autoanticorpos específicos no sangue. No estágio 1 não existe nenhuma anormalidade da glicose, mas no estágio 2 há alterações leves da glicose, mais ainda sem preencher critérios para diabetes. O estágio 3 é caracterizado por alterações da glicose que preencham critérios diagnósticos para diabete mellitus, com ou sem sintomas como sede excessiva, perda de peso, fadiga e visão turva. O estágio 4 é caracterizado pelo diabetes tipo 1 de longa duração.

O medicamento já foi aprovado pela FDA - Food and Drug Administration nos Estados Unidos, após um estudo publicado no The New England Journal of Medicine que mostrou que o teplizumab praticamente dobrou o tempo médio até o diagnóstico clínico em indivíduos com diabetes tipo 1 estágio 2. Essa é a primeira terapia capaz de modificar a história natural do diabetes tipo 1, ao atrasar a progressão da doença.

“A notícia é muito importante porque, pela primeira vez, a medicina terá uma terapia capaz de interferir diretamente no processo imunológico que leva à destruição das células beta do pâncreas, antes mesmo do surgimento dos sintomas clínicos do diabetes”, explica dra. Pesquisas mostram que ele consegue retardar o aparecimento do diabetes, em média, em dois anos.

Atualmente o diagnóstico da DM1 normalmente ocorre de forma traumática, com a pessoa chegando ao hospital em estado grave, com cetoacidose diabética, uma complicação aguda que pode exigir internação e até cuidados em terapia intensiva. “Quando o diabetes tipo 1 é detectado precocemente e conseguimos retardar sua evolução, as famílias têm tempo para se preparar, receber orientações e aprender como lidar com a doença antes do diagnóstico clínico”, explica dra. Melanie. Para isso são necessários programas de rastreamento nacionais, que estão sendo elaborados pela Sociedade Brasileira de Diabetes.

Atrasar o aparecimento clínico do diabetes tipo 1 representa um importante avanço e é passo importante para um objetivo maior: um dia, conseguir prevenir completamente o desenvolvimento da doença.


Nenhum comentário:

Postar um comentário