sábado, 31 de janeiro de 2026

Sol na pele, leveza na cabeça: o verão realmente melhora o humor?




Basta o primeiro dia realmente ensolarado para algo curioso acontecer. A rua enche mais cedo, o humor parece menos pesado e até o “bom dia” no elevador vem acompanhado de um meio sorriso. Não é milagre, nem positividade tóxica. Há quem acorde mais disposto, tope sair mais de casa, pareça menos ranzinza e, curiosamente, passe a acreditar que a vida é um pouco mais simples quando o dia está ensolarado. Mas será que isso é só impressão, efeito placebo coletivo, ou existe ciência por trás dessa sensação?

A resposta curta é: existe ciência, sim. A resposta honesta é: depende. Corpo, cérebro e contexto trabalham juntos.

Todo mundo conhece alguém que “funciona melhor” no verão (talvez você seja essa pessoa!). A Psicologia Positiva e a Neurociência vêm demonstrando, de forma consistente, que a luz natural exerce um impacto real sobre o humor e o bem-estar emocional. Estudos indicam que maior exposição à luz, especialmente à luz solar, está associada a níveis mais elevados de afeto positivo, satisfação com a vida e sensação geral de bem-estar. O efeito não é gigantesco nem transforma ninguém em uma pessoa permanentemente feliz, mas é estatisticamente confiável e clinicamente relevante.

Isso acontece porque o sol não atua apenas no plano simbólico: ele age diretamente em mecanismos fisiológicos ligados à regulação emocional. A exposição à luz ajuda a equilibrar o relógio biológico, melhora a qualidade do sono e favorece a liberação de neurotransmissores associados ao humor, como a serotonina. Dormir melhor, acordar com mais energia e sentir o corpo funcionando de forma mais alinhada já é, por si só, um empurrão importante para o bem-estar psicológico.

Mas o verão não melhora o humor apenas porque tem mais sol; ele também muda a forma como vivemos os dias. Os dias ficam mais longos, a vida acontece mais fora de casa, o contato social aumenta, as pessoas caminham mais, se movimentam mais, encontram amigos, frequentam espaços abertos e conhecem novos lugares. Todas essas experiências, individualmente, estão associadas a uma melhor saúde mental. Quando se combinam, o efeito se potencializa.

A Psicologia Positiva chama atenção para algo que não pode ser retirado da equação: o bem-estar não nasce apenas dentro da cabeça; ele é construído na interação entre corpo, ambiente e relações. O verão cria um cenário mais favorável para essas interações – não porque seja mágico, mas porque facilita comportamentos que já sabemos que fazem bem.

Isso não significa, porém, que o verão seja uma estação universalmente benéfica. Para algumas pessoas, o calor excessivo gera irritação, fadiga, desconforto físico e até piora do humor. Há evidências de que temperaturas muito altas podem aumentar o estresse, a agressividade e a sensação de exaustão. Além disso, nem todo mundo vive o verão com leveza. Eventos climáticos intensos são comuns nessa estação, e pessoas em situações de maior vulnerabilidade sofrem muito mais os efeitos do calor extremo ou de inundações provocadas por chuvas torrenciais, por não terem recursos suficientes para lidar com as intempéries. Para quem está sobrecarregado, em luto ou enfrentando dificuldades financeiras ou emocionais, a estação não apaga automaticamente o sofrimento.

A ideia equivocada de que “todo mundo está feliz no verão” pode gerar comparação social e sensação de inadequação em quem não está vivendo esse roteiro ensolarado. Aqui há um risco importante: idealizar a estação como se o verão acontecesse exatamente como sugerem as propagandas ou os feeds das redes sociais. A ciência mostra que o contexto ajuda muito, mas não substitui processos emocionais e sociais mais profundos.


Então, afinal, quando o sol aparece, a cabeça agradece. Mito ou verdade?

Verdade, com nuances. O verão tende, sim, a favorecer o humor e o bem-estar emocional porque combina mais luz natural, melhor regulação biológica e mais oportunidades de conexão social e movimento – para quem pode e consegue usufruir disso. Mas ele não é uma solução psicológica pronta, nem um antídoto contra tristeza, ansiedade ou sofrimento emocional.

Talvez o ponto mais interessante seja outro: o verão nos lembra que o bem-estar não depende apenas do que sentimos, mas também de como vivemos, com quem convivemos e em quais ambientes colocamos o corpo e a atenção. E isso, com ou sem sol, é algo que pode ser levado para o ano inteiro.

 

Sibele Dias de Aquino - doutora em Psicologia, pesquisadora em Psicologia Positiva e professora da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio



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