A instituição social Casa do Zezinho desenvolve oficinas e atividades educativas para promover o uso seguro e consciente da tecnologia entre jovens
A Casa do Zezinho, organização social localizada na zona sul de
São Paulo, realiza uma programação especial voltada para a prevenção da
violência digital entre crianças e adolescentes. A iniciativa inclui oficinas
de programação e criação de jogos, que abordam temas como segurança online,
ética digital e respeito no ambiente virtual.
Segundo a pesquisa TIC Kids Online
Brasil 2024, realizada pelo Comitê Gestor da
Internet no Brasil (CGI.br), uma parcela dos adolescentes entrevistados entre 9
e 17 anos relataram ter se sentido incomodados ou chateados com algo visto
online, e disseram já ter sido alvo de bullying ou ofensas virtuais. Diante
desse cenário, projetos como o da Casa do Zezinho buscam oferecer espaços de
reflexão, acolhimento e aprendizado prático para promover um uso mais seguro e
consciente da tecnologia.
Nas oficinas de programação e criação de jogos, os Zezinhos e
Zezinhas, como são chamados os atendidos pela Casa, dão vida a enredos e
personagens que encaram dilemas reais do mundo online, como o cyberbullying, o
vazamento de dados ou o assédio virtual. Esses jogos não só refletem suas
experiências como também viram ferramentas de conscientização para outros
grupos. Em cada etapa, conceitos como ética digital, vulnerabilidade de dados e
cuidado coletivo, como não deixar logins abertos em máquinas compartilhadas,
são trabalhados de forma prática e significativa.
As oficinas são recorrentes e adaptadas para cada faixa etária.
Para as crianças, o foco está em informática básica, enquanto os jovens
participam de aulas de informática avançada e programação, que abordam essas
temáticas de forma prática e acessível.
Essa proposta faz parte da Pedagogia do Arco-Íris, metodologia
desenvolvida pela Tia Dag, fundadora da Casa do Zezinho, que reconhece cada
criança e adolescente como único, com saberes, emoções e vivências próprias.
Antes de qualquer conteúdo, há escuta, acolhimento e espaço para reflexão sem
julgamentos. É dessa base que surgem conversas sobre limites, respeito e
proteção no ambiente digital, sempre considerando a realidade e o repertório de
cada um.
Para abordar temas sensíveis como cyberbullying e assédio
virtual, os educadores passam por formação contínua. Trocam experiências em
rodas de conversa, estudam casos reais e se mantêm atualizados com materiais
confiáveis e legislações como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a
lei de combate à intimidação sistemática. Essa preparação permite falar sobre o
tema com cuidado e respeito às histórias e idades dos participantes.
Sinais de alerta:
Os educadores da Casa do Zezinho chamam a atenção para sinais que
podem indicar que algo não vai bem no ambiente digital e merecem cuidado e
escuta:
- Retraimento ou isolamento repentino;
- Mudanças bruscas de comportamento;
- Medo ou vergonha de usar o celular perto de adultos;
- Exclusão ou afastamento das atividades em grupo;
- Evitar conversar sobre o que faz online ou com quem fala;
- Apagar histórico de navegação constantemente ou esconder
dispositivos;
- Passar tempo excessivo online, especialmente à noite
O vínculo construído com os jovens é essencial para perceber essas
mudanças e oferecer apoio de forma cuidadosa e preventiva. Em casos concretos
de violência digital, a Casa conta com uma equipe multidisciplinar, com
assistência social e coordenação pedagógica, para fazer o acolhimento, garantir
o encaminhamento necessário, oferecer acompanhamento emocional e orientar as
famílias.
A tecnologia, que pode ser usada para atacar ou expor, também se
torna aliada no trabalho educativo. Vídeos, podcasts, redes sociais educativas
e ferramentas colaborativas entram nas oficinas para desenvolver um uso mais
crítico, consciente e positivo. Ao mesmo tempo, surgem desafios constantes,
como acompanhar a velocidade com que novas plataformas aparecem e incluir os
adultos da rede de convivência dos jovens nesse processo de formação. Por isso,
a instituição busca envolver as famílias em encontros, oficinas temáticas,
rodas de conversa e envio de materiais informativos, reconhecendo que proteger
é uma tarefa compartilhada, ainda que muitos responsáveis não saibam como lidar
com a educação digital dos filhos.
O protagonismo juvenil é outro aspecto essencial dessa estratégia.
Os Zezinhos e Zezinhas são convidados a propor campanhas, criar materiais,
participar de rodas de conversa e atuar como multiplicadores de informações
entre os colegas. Essa participação ativa reforça o senso de pertencimento e
torna as ações mais eficazes, porque nascem das necessidades do próprio grupo.
“Acreditamos que quando os Zezinhos e Zezinhas são ouvidos e
participam das decisões, eles se tornam parte real da solução. Eles aprendem,
ensinam e cuidam uns dos outros, criando uma rede de proteção muito mais forte
e verdadeira” afirma Tia Dag, fundadora da Casa do Zezinho.
A instituição também adota uma abordagem interseccional,
reconhecendo que as violências digitais frequentemente se cruzam com questões
de raça, gênero, orientação sexual e classe. Para isso, os educadores se
dedicam a criar espaços de fala respeitosos e empáticos, garantindo que todas
as identidades sejam ouvidas e acolhidas.
Apesar dos desafios, a Casa mantém firme o compromisso de oferecer
um ambiente seguro, empático e transformador. Um lugar onde cada Zezinho e
Zezinha possa aprender, crescer e se tornar protagonista da própria história,
também no mundo digital.

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