Ampliar fluxos comerciais, reduzir barreiras
tarifárias e aproximar dois dos maiores blocos econômicos do mundo. Essa é,
pelo menos, a grande promessa do acordo entre a União Europeia e o Mercosul
que, depois de longos 25 anos, pode, finalmente, estar próximo de ser
oficialmente implementado. No papel, os benefícios parecem evidentes. Na
prática, porém, os impactos não tendem a ser tão positivos assim – pelo menos,
para a nossa indústria, que pode perder espaço diante de tantos produtos
tecnologicamente robustos que virão de fora, sem cobrança de taxas ou juros.
Aguardando,
agora, avaliação do Tribunal de Justiça da União Europeia quanto sua
legalidade, esse chegou a ser considerado o maior pacto comercial de todos
os tempos do bloco com os membros do Mercosul, que já vinha sendo
negociado desde 1999. Pelo acordo, Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai
eliminariam as tarifas sobre 91% das exportações da UE ao longo de 15 anos,
enquanto os países europeus extinguiriam, progressivamente, as
tarifas sobre 92% dessas exportações do Mercosul em um período de até
dez anos.
Segundo
um levantamento divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas
Aplicadas), o Brasil tende a ser o principal beneficiado pelo acordo comercial,
com um impacto positivo de 0,46% no PIB (US$ 9,3 bilhões) até 2040. Com
isso, a expectativa é de que os investimentos nacionais subam cerca
de 1,5% em 15 anos; as
exportações e importações em 3% cada. Vantagens
realmente promissoras, mas que acabam ocultando perigos que não estão sendo
levados em consideração.
O
outro lado da moeda deste acordo aparentemente muito positivo, é que nossa
indústria tende a se prejudicar, em termos de produção e vendas, justamente
pela importação de produtos de alto valor agregado como tecnologias e
automóveis, sem a aplicação de taxas ou juros que costumam encarecer essas
vendas por aqui. Competir, em termos de qualidade, com esses itens
internacionais, pode ser um tremendo desafio para o nosso mercado, ainda mais
se não se atentar a esse risco extremamente realista de ocorrer.
Nossa
história comprova este argumento. Passamos por uma situação parecida na década
de 90, quando o então presidente, Fernando Collor, implementou uma
política de abertura comercial radical focada no setor automobilístico,
reduzindo tarifas de importação e eliminando barreiras que, até então,
protegiam a indústria nacional. Esse movimento representou uma mudança abrupta,
fazendo com que mais produtos estrangeiros entrassem
no nosso mercado, e expondo nossa produção à
concorrência internacional sem transição gradual suficiente para minimizar impactos econômicos.
O
resultado deste despreparo? O fim de muitas marcas automotivas que não
conseguiram competir em termos de tecnologia e preço. Estamos diante do mesmo
risco neste momento, caso o acordo comece a valer e a indústria brasileira
não se atente à importância de investir, desde já, em metodologias de gestão e
governança que a prepare para se ajustar a essa nova realidade.
A
resposta ao risco do acordo não está em renegociar taxas, mas em mudar o
modelo de gestão da indústria brasileira. Metodologias como Lean Manufacturing,
Six Sigma eOKRs, quando integradas à
estratégia, permitem replanejar as operações industriais com muito mais
eficiência e eficácia, sobretudo quando apoiadas por soluções digitalmente
robustas provenientes da Indústria 4.0 e 5.0 - usando a tecnologia não
apenas para produzir mais, mas para produzir melhor, com mais valor agregado,
inteligência e diferenciação.
O
grande erro dos anos 1990 não foi abrir o mercado — foi abrir sem preparar a
indústria para competir, o que gerou resultados previsíveis: empresas
despreparadas, fechamento de fábricas, perda de marcas nacionais e aumento da
dependência externa. Não precisamos repetir o passado, temos tudo o que é
necessário para aproveitar o que de melhor este acordo pode fornecer, e
reinventar nossa indústria através de uma governança de inovação que catalise
seu crescimento contínuo.
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