Pesquisa mostra que a cirurgia elimina a visão embaçada, melhora o sono e reduz o risco de doenças sistêmicas
O sono alterado é um grave problema mundial de saúde pública. No Brasil, 58,6% da população com 60 anos ou mais têm alguma dificuldade para dormir. A informação é de um levantamento transversal da FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz) em que participaram 6,9 mil brasileiros nesta faixa etária que referiram: insônia, dificuldade para dormir, má qualidade de sono e sonolência diurna.
A boa notícia é que uma pesquisa realizada em Nara
(Japão), publicada no JAMA Ophthalmology, periódico da AAO (Academia Americana
de Oftalmologia), mostra que a cirurgia de catarata melhora a visão e diminui o
risco de outras condições frequentes nas pessoas com 60 anos ou mais. O
oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Penido
Burnier de Campinas, afirma que isso acontece porque a catarata é muito mais
que visão embaçada. Quando o cristalino fica opaco, menos luz azul natural do
dia chega à retina, pontua. Resultado: diminui a produção de melanopsina, um
fotopigmento encontrado nas células ganglionares da retina. “É a melanopsina
que detecta a luz para regular nosso relógio biológico ao ciclo do dia e
promover o estado de vigília. Com a chegada da noite, comenta, é a melatonina,
hormonio do sono que entra em cena para relaxarmos. “Portanto se a quantidade
de luz que penetra em nossos olhos não é suficiente todo nosso organismo sofre
consequências”, diz. O oftalmologista ressalta que a falta de sono também
aumenta produção de radicais livres, reduz os mecanismos antioxidantes da
glutationa e da catalase que protegem o cristalino.
A Pesquisa
A pesquisa realizada no Japão reuniu um total de
169 participante.: Desses 57,4% ou 97 eram homens e 42,6% ou e 72 eram mulheres
com idade média de 75 anos. Todos os selecionados tinham catarata avançada sem
outras comorbidades que pudessem interferir na cirurgia, entre elas: opacidade
na córnea, glaucoma ou outra doença ocular que pudesse interferir no resultado
da cirurgia. Todos foram operados e comparados a um grupo controle do quanto
excretavam de melatonina pela urina três meses após a cirurgia. Na comparação
os pesquisadores notaram que o exame de urina dos operados apresentou o dobro
da melatonina que a encontrada no grupo controle, uma evidência de que a
cirurgia de catarata melhora a visão e a saúde sistêmica. “Isso porque, a falta
de sono decorrente da falta de melatonina predispõe ao ganho de peso, elevação
da glicemia e doenças cardiovasculares” afirma Queiroz Neto.
Por que algumas pessoas não perdem o sono?
Queiroz Neto afirma que Medicina não é Matemática.
Cada paciente tem particularidades fisiológicas, comportamentais e genéticas
que interferem no desenvolvimento das doenças. ”A catarata que mais interfere
no sono é a nuclear porque bloqueia mais a passagem de luz pelo cristalino. Já
a catarata subcapsular e a cortical permitem que mais luz penetre nos olhos e
por isso têm menor impacto na qualidade do sono. Além disso, em algumas pessoas
o núcleo supraquiasmático que regula nosso relógio biológico tem maior plasticidade
para se adaptar a diferentes alterações de luminosidade. Outro fator é a maior
exposição ao sol nas primeiras horas do dia que estimula a produção de
melatonina e até o uso de moduladores do sono.
Quais os sintomas da catarata?
A maioria das pessoas não percebem a catarata logo
no início devido à capacidade de adaptação de nosso cérebro. Os principais
sintomas elencados pelo oftalmologista são:
• Troca frequente de óculos e visão embaçada;
• Perda da visão de contraste, especialmente em
ambientes com pouca luz;
• Fotofobia;
• Alterações na percepção de cores;
• Dificuldade para dirigir à noite.
Como saber se está na hora de operar?
Não existe ‘idade certa’ para operar e a catarata
subcapsular causa mais fotofobia e por isso precisa ser operada antes sugere
Queiroz Neto. Os sinais de que está na hora de operar é a dificuldade em
exercer atividades corriqueiras como ler um livro, usar o computador ou celular
ou dirigir.
Como é feita a cirurgia e quais os riscos?
A cirurgia de catarata é uma das mais praticadas o
mundo e também uma das mais seguras. “O maior risco é uma infecção generalizada
no globo ocular como ocorreu em uma pequena cidade doo estado durante o último
mutirão, mas em salas cirúrgicas bem esterilizadas a possibilidade disso
acontecer praticamente não existe, afirma Queiroz Neto. ”A cirurgia é realizada
com aplicação de um colírio anestésico e sedação que torna o procedimento
bastante tranquilo para o paciente. Fazemos um corte de 2 mm no canto da córnea
por onde aspiramos o cristalino opaco e inserimos a lente dobrada que se abre
no saco capsula, local onde o cristalino natural fica apoiado. O mais
importante é seguir as recomendações médicas e não falhar no uso dos colírios
prescritos para não correr risco,” finaliza.

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