Empresas no país
já testam agentes de IA capazes de aprender, decidir e agir sem supervisão
direta, especialista aponta riscos regulatórios e dilemas éticos
Uma nova geração de inteligência artificial começa
a operar de forma discreta em grandes empresas brasileiras, com potencial para
transformar o processo de decisões automatizadas. Conhecida como Agentic AI,
essa vertente rompe com o modelo tradicional da IA generativa ao não apenas
reagir a comandos, mas agir de forma autônoma: define metas, aprende com o
ambiente e executa planos continuamente.
Para Luis Molla Veloso,
especialista em inovação digital e integração de tecnologias financeiras, o
avanço exige atenção das lideranças e do setor público. “Ao contrário dos
modelos anteriores, a Agentic AI não apenas responde: ela age. Isso levanta uma
série de questões éticas e operacionais, como a responsabilidade por decisões
equivocadas, a transparência dos algoritmos e os limites da autonomia concedida
a sistemas que tomam decisões por humanos”, afirma.
Startups de logística, bancos digitais e
plataformas de marketing já utilizam agentes autônomos em seus sistemas, mesmo
sem regulamentação específica em vigor no Brasil. A aplicação abrange desde
rotas inteligentes até recomendações de produtos com base no comportamento do
usuário, tudo sem intervenção humana direta.
Um relatório de julho de 2024 da consultoria
Gartner projeta que, até 2026, mais de 20% das empresas globais devem adotar
formas de IA autônoma em processos operacionais e estratégicos. Os chamados AI
Agents, softwares capazes de agir com base em metas, estão entre as três
principais tendências de inovação para o biênio 2025-2026. Apesar disso, apenas
4% das organizações atualmente possuem governança adequada para lidar com esse
tipo de autonomia.
O uso da Agentic AI amplia os desafios técnicos,
legais e éticos. Em junho, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) publicou um parecer recomendando que países-membros adotem
princípios como responsabilização, supervisão humana e explicabilidade
algorítmica no desenvolvimento de agentes autônomos, sobretudo em setores como
saúde, crédito, justiça e mobilidade.
A consolidação da Agentic AI no ambiente
corporativo já começa a pressionar estruturas jurídicas e modelos de governança
que ainda não estão preparados para a autonomia das máquinas. “Estamos diante
de um salto de complexidade. Esses agentes tomam decisões, ajustam
comportamentos e impactam diretamente consumidores, mercados e vidas. O debate
regulatório precisa acompanhar esse ritmo para evitar abusos e garantir
segurança jurídica às empresas”, avalia Veloso.
O especialista alerta ainda que a busca por
eficiência pode acelerar a adoção da tecnologia sem o respaldo legal
necessário. “A inovação é necessária, mas não pode ser desgovernada.
Transparência, supervisão humana e accountability devem ser princípios
norteadores no uso da inteligência artificial autônoma”, completa o
especialista.
Com a regulação europeia de IA prestes a entrar em
vigor e discussões em andamento no Congresso Nacional, o Brasil pode se tornar
um dos próximos campos de teste para legislações voltadas à IA autônoma. Por
ora, especialistas como Veloso defendem que a adoção dessas tecnologias seja
acompanhada por comitês de ética e governança, especialmente em setores com
impacto direto sobre dados sensíveis e consumidores.
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