Opinião
As
notícias mais recentes somam-se às dos últimos anos — e às de sempre — provocando,
mais uma vez, aquele aperto no peito, aquele peso no estômago difícil de
ignorar: professores sendo agredidos por alunos, alunos agredindo-se
mutuamente, pais de alunos agredindo professores, filhos e uns aos outros.
Educadores abandonando a docência com problemas de saúde mental. Enfim, um
circo de horrores que se espalha pelo país, sem que ninguém diga, com todas as
letras, o que é necessário dizer: ou resgatamos o respeito na escola, ou não
haverá mais esse lugar que um dia existiu — para onde mandávamos nossos filhos
para que se tornassem gente.
O
grande problema desse debate está na compreensão do que se entende por
respeito. Para os governantes da safra mais conservadora — que hoje fazem
sucesso em estados e municípios — respeito é obediência, disciplina, algo que
apenas a ameaça seria capaz de impor. Daí a multiplicação das chamadas escolas
cívico(sic)-militares, com sua lógica de silenciamento e imposição de normas de
controle corporal como solução para a violência que se encastelou no ambiente
escolar e vem, funcionalmente, exterminando os professores.
Mas
respeito é outra coisa, completamente diferente. Respeito quer dizer “olhar
novamente”. Implica parar para observar o espaço ao redor, as pessoas ao redor
— olhar não para reduzi-las ao que pensamos, mas para flagrá-las em suas
próprias singularidades. Tornar a escola um lugar respeitável novamente
significa recuperar a capacidade de seus profissionais e membros da comunidade
escolar se olharem nos olhos e se perceberem como partícipes de uma experiência
nova e promissora: a experiência de se conhecerem e de aprenderem juntos.
E
isso se faz com tempo e com fala — não com força e com silêncio. A escola deve
se abrir, e não se fechar. Deve construir conjunto, e não impor regras. Deve
ter paciência, e não intransigência. A escola é exatamente aquilo que esperamos
quando aplaudimos o novo papa: alguém com espírito de comunhão, e não de
preconceito.
Só
o respeito gera interesse — interesse que é a vontade de estar entre, de fazer
parte. Como aquele lugar onde gostamos de estar, de onde não temos vontade de
sair ou de nos perder, porque é ali que nos encontramos. Um achado.
A
escola precisa abandonar a ideia mecanicista; a de que deve fazer isso e, para
isso, impor aquilo; a de que os alunos precisam se enquadrar nisso e, aos
professores, exige-se aquilo — em um ciclo de obrigações que encarcera a
vontade e o desejo de simplesmente construir algo agradável para todos os
envolvidos. Isso requer paciência, entrega e um compromisso assumido coletivamente:
a promessa partilhada, invenção de um futuro que não existe, exceto pelo
esforço comum de todos nós.
Respeito
na escola é um desafio porque exige desconstruir a ideia de que tudo o que
dissemos aqui é utópico, ingênuo ou ineficaz. Ao contrário: tudo o que dissemos
aqui é necessário — e está ao alcance da nossa humanidade. Basta que tenhamos a
coragem de assumi-la.
Daniel Medeiros - doutor em Educação Histórica e professor de Humanidades no Curso e Colégio Positivo. @profdanielmedeiros
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