A
recente morte da turista brasileira durante uma trilha em um vulcão na
Indonésia nos faz refletir sobre a fragilidade da vida e a inestimável
importância das medidas de segurança e da garantia de qualidade em todos os
aspectos de nossa existência. A tragédia traz o alerta de como a negligência, a
falta de padronização ou a ausência de um olhar atento à conformidade podem ter
consequências irreversíveis e devastadoras, especialmente em atividades nas
quais o risco é parte inerente.
No
caso do turismo vulcânico, esta modalidade vem crescendo e atraindo milhares e
até milhões de visitantes em vulcões ativos ao redor do mundo, no Havaí, Japão
e Itália, além da própria Indonésia. Por outro lado, acidentes como o que
vitimou a turista brasileira já ocorreram em outras localidades e no próprio
monte Rinjani. Portanto, este não foi um caso isolado.
Trilhas
em vulcões ativos exigem tanto protocolos especiais – como sinalização, guias
certificados e planos de evacuação – quanto o cumprimento das normas
estabelecidas para o turismo de aventura, de modo que ele possa seguir em
expansão de forma segura.
A
segurança e a confiabilidade de tudo o que nos cerca — desde o equipamento mais
simples até as infraestruturas mais complexas — dependem de um sistema robusto
de qualidade. O Brasil, como país que possui um diversificado e rico roteiro de
turismo de aventura, já estabeleceu pelo menos 10 normas nessa área, que
definem, por exemplo, os requisitos mínimos de competência para condutores de
turismo de aventura e para um sistema de gestão da segurança em empresas de
turismo de aventura - abrangendo a gestão de riscos e a implementação de planos
de emergência -, bem como os requisitos para produtos e a classificação de
percursos em atividades de caminhada, além de um padrão das informações que as
empresas de turismo de aventura devem repassar aos clientes, inclusive de forma
alinhada às recomendações internacionais.
Um
sistema robusto de qualidade deve ser composto por pilares essenciais: a normatização,
que estabelece diretrizes e especificações técnicas para garantir que produtos,
serviços e processos sejam seguros, confiáveis e eficazes; a regulamentação,
que transforma essas diretrizes em requisitos mandatórios, protegendo cidadãos
e o meio ambiente; a avaliação da conformidade, que é o
processo de verificar se esses requisitos estão sendo atendidos, e, por fim, a certificação,
que é a validação formal, de que o processo está em conformidade com as normas
estabelecidas. Já a inspeção atua como um mecanismo de
monitoramento contínuo, assegurando que os padrões sejam mantidos ao longo do
tempo.
Pensemos,
por um instante, na trilha onde uma tragédia semelhante à da turista brasileira
poderia ocorrer. Se o caminho, os equipamentos de apoio, a sinalização, as
estruturas e até mesmo os serviços de orientação tivessem sido submetidos a um
rigoroso processo de certificação, cada etapa, desde a concepção até a
manutenção e uso, passaria por avaliações criteriosas. Isso poderia minimizar
todos os riscos identificáveis e assegurar que os padrões de segurança fossem
não apenas cumpridos, mas superados. A certificação não é apenas um selo ou um
papel, é a materialização de um compromisso sério com a segurança, a qualidade
e a aderência às melhores práticas conhecidas. É a prova de que se fez o
necessário para proteger.
Em um
mundo onde a complexidade de produtos e serviços cresce exponencialmente, a
certificação emerge como um farol de confiança indispensável. Ela serve como um
escudo, protegendo o consumidor, estimulando a inovação responsável e, acima de
tudo, salvando vidas. Quando um equipamento é certificado, temos a
tranquilidade de saber que ele foi testado, aprovado e cumpre com as exigências
de segurança. Quando um serviço é certificado, confiamos que ele segue
protocolos que visam a excelência e a proteção dos usuários. Quando uma infraestrutura
é certificada, temos a certeza de que ela foi construída e é mantida com a
devida atenção aos detalhes cruciais para evitar acidentes.
Contudo,
muitas vezes, a tendência é que a burocracia, os padrões e as exigências de
normatização sejam vistas como entraves ou "custos desnecessários".
Há quem insista em argumentar que a adequação a normas e a busca por
certificações são despesas a serem evitadas, que não trazem um benefício
tangível imediato. Em outras situações, há uma falta de conhecimento sobre como
a aplicação desses processos podem trazer segurança. A realidade nos mostra que
o verdadeiro "custo" reside na não conformidade, na falta de
segurança e na ausência de padrões rigorosos. Esse custo é infinitamente mais
alto do que qualquer investimento em prevenção e qualidade, quando mensurado em
vidas, em danos irreparáveis, como mostra essa recente tragédia.
O cumprimento rigoroso de normas técnicas e a certificação das operadoras são, portanto, requisitos fundamentais para que o turismo de aventura exerça seu enorme potencial, de forma segura.
Cleriane Lopes Denipote - consultora e especialista em Avaliação da Conformidade da ABRAC – Associação Brasileira de Avaliação da Conformidade e da ICV Brasil
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