quinta-feira, 29 de maio de 2025

Foco de gripe aviária acende alerta sanitário e reforça risco de mutações com potencial pandêmico

Dr. Klinger destaca que a presença do H5N1 no setor produtivo exige vigilância ampliada e integração entre saúde humana, animal e ambiental

 

A confirmação de um novo foco de gripe aviária (H5N1) no Brasil — acende um alerta sanitário nacional e amplia o nível de atenção das autoridades de saúde. “O foco em granja muda o patamar do risco. A produção intensiva significa milhares de aves suscetíveis em contato direto com humanos, o que eleva significativamente a chance de mutações adaptativas no vírus”, afirma o médico infectologista Dr. Klinger Soares Faíco Filho, professor adjunto da Escola Paulista de Medicina da UNIFESP e apresentador do InfectoCast.

“É a biologia básica dos vírus: quanto mais replicações, maior a chance de erro genético. E um erro certo pode abrir caminho para transmissão sustentada entre humanos. Esse é o real temor global com o H5N1”, alerta o infectologista. 

Embora a transmissão interpessoal ainda seja considerada rara, o H5N1 é um vírus altamente patogênico, com letalidade superior a 50% nos casos humanos registrados. Além disso, há registros recentes de infecção em mamíferos — como visons, gado leiteiro e felinos — em países como EUA, Chile e Reino Unido, o que aumenta a preocupação com o potencial de salto entre espécies. 

Na prática clínica, o H5N1 pode se confundir com outras infecções respiratórias. Os sintomas iniciais — febre, tosse, dor muscular, dispneia — são comuns à influenza sazonal e à Covid-19. A diferenciação, segundo o Dr. Klinger, depende da gravidade do quadro e, principalmente, do vínculo epidemiológico com ambientes de risco.

“A suspeita clínica deve ser considerada sempre que houver síndrome respiratória grave associada a histórico de exposição a aves ou ambientes agroindustriais. Essa conexão epidemiológica é essencial para diferenciar o H5N1 das infecções respiratórias mais comuns”, orienta. 

Para ele, o momento exige ações coordenadas entre vigilância agropecuária, saúde pública e atenção primária, especialmente nas regiões com foco confirmado. Profissionais de saúde devem estar atentos para notificar imediatamente casos suspeitos, garantir o isolamento de pacientes e acionar as autoridades sanitárias. 

“Não se trata de provocar pânico, mas de agir com antecipação. Devemos agir agora — enquanto ele ainda não está pronto para nos infectar em escala”, ressalta.

A abordagem mais indicada, segundo os especialistas, é a da Saúde Única (One Health), que integra saúde humana, animal e ambiental em resposta a ameaças zoonóticas. “O Brasil tem tradição em vigilância agropecuária, mas o elo com a saúde humana precisa ser fortalecido. Isso inclui protocolos integrados, testagem e comunicação entre setores”, completa Dr. Klinger. 

A gripe aviária H5N1 segue sendo uma ameaça silenciosa, mas real. Para o Dr. Klinger, a recente experiência com a Covid-19 deve servir de lição. “O que está em jogo é a nossa capacidade de antecipar um cenário possível e agir antes que ele se torne inevitável. O vírus nos deu um sinal. Cabe a nós escutá-lo”, finaliza.

 

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