terça-feira, 26 de março de 2024

Terceiro câncer que mais mata no mundo é também o mais fácil de ser extraído: retirada ocorre durante exame preventivo

 

Este artigo é quase que um desabafo. Quando pergunto aos meus pacientes de 45 anos ou mais quando fez o último exame para prevenção do câncer de cólon e reto, a resposta de 80% deles é algo do tipo: “Nunca ouvi falar sobre isso”. 

Na mesma proporção, só que ao contrário, foi o resultado de que tive acesso a respeito de uma campanha interna de uma empresa que incentiva seus colaboradores à checkups regulares, incluindo o exame de colonoscopia. Apesar dele ser o mais eficaz para prevenção e detecção do câncer colorretal, surpreendentemente, apenas 20% dos funcionários tiraram proveito do benefício e fizeram o exame.  

A desinformação e desconhecimento entre as pessoas que poderiam se beneficiar de exames de rastreamento desse câncer são impactantes. São pessoas com acesso, que têm plano de saúde! No entanto, reforço que os exames para diagnóstico precoce do câncer de cólon e reto também estão disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) e sonho um dia ver o Março Marinho tão conhecido como são o Outubro Rosa e o Novembro Azul. Há carência de iniciativas inclusive por parte dos órgãos públicos! E saiba que o câncer colorretal é o terceiro em número de mortes por câncer em todo o mundo! 

No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o número estimado de casos novos de câncer de cólon e reto para cada ano do triênio 2023 a 2025 é de 45.630 casos.

 
Dá tempo de impedir que se torne lesão maligna 

Esse tipo de tumor nasce na parede interna do intestino como uma espécie de verruga e por muitos anos permanece benigno. Primeiro é um pólipo, depois um adenoma e na sequência pode se transformar em uma lesão maligna chamada de adenocarcinoma. 

Diferente de outras diretrizes de rastreamento em que o exame se restringe à função do diagnóstico precoce, a colonoscopia permite que a lesão cancerizável existente já possa ser retirada, livrando a pessoa do risco de desenvolver um câncer nos anos seguintes. 

Tem quem adie a colonoscopia devido ao preparo na véspera do dia do exame, que requer dieta líquida e a ingestão de laxante. Mas eu friso que essa “chatice” não é nada se comparada ao tratamento do câncer, que, de início exige cirurgia, uso permanente ou temporário de colostomia (bolsa coletora de fezes), meses de quimioterapia e, se o tumor estiver no reto, também radioterapia. Nesta fase adiantada não tem como escapar dos custos, dos efeitos colaterais do tratamento, de possíveis sequelas e da chance de abreviação da vida. 

Há ainda uma alternativa, que é o exame de pesquisa de sangue oculto nas fezes, que busca traços microscópicos de sangue não vistos a olho nu. Se der positivo, o paciente é encaminhado para a colonoscopia. Se der negativo, ele deverá realizar nova pesquisa de sangue oculto em um ano.  

A periodicidade da colonoscopia é determinada pelo médico de acordo com os resultados do último exame.

Não é preciso se consultar com um oncologista para conseguir o encaminhamento para a colonoscopia ou o exame de sangue oculto nas fezes. O médico da família, o doutor do posto de saúde, o urologista, o ginecologista, o geriatra, ou, a rigor, qualquer especialidade médica, pode fazer os pedidos. 

O ideal é que se faça os exames antes do surgimento de qualquer sintoma, que podem ser:
 

- Sangue visível e persistente nas fezes;

- Mudança de formato das fezes (perfilada ou achatada);

- Irregularidade na rotina de evacuação, apresentando constipação e depois dias de diarreia;

- Dor abdominal;

- Dor para evacuar;

- Emagrecimento aparentemente sem motivo;

- Anemia sem outra explicação.
 

Os principais fatores de risco para o câncer colorretal abrangem a idade avançada, história familiar da doença, dieta pobre em fibras e rica em gorduras, obesidade, sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool. 

Um dos tratamentos que tem mostrado melhores resultados para o câncer avançado de cólon e reto, caracterizado por metástases, nos últimos três a cinco anos, é a imunoterapia. Porém, diferente da radioterapia e da quimioterapia, a imunoterapia não está disponível na rede pública de saúde. O tratamento escolhido pelo médico junto ao paciente dependerá do estágio da doença, da saúde geral do paciente e de outros fatores individuais. 

Sem sombra de dúvidas, o melhor é prevenir, alimentando-se com dieta equilibrada e saudável, se exercitando, não fumando, não abusando do álcool e fazendo os exames de rastreamento.
 

Dr. Paulo Eduardo Pizão - oncologista. Por ser docente em faculdade, gestor em instituições de saúde, atuar no atendimento clínico e por ter sido pesquisador na indústria farmacêutica, tem uma visão geral do setor e conhece o mecanismo desse segmento. Pesquisador no Centro de Pesquisa Clínica São Lucas (PUC-Campinas), coordenador da disciplina de Oncologia Clínica no Curso de Medicina da Faculdade São Leopoldo Mandic, Campinas-SP; oncologista no Instituto do Radium. Especialista em Oncologia Clínica pela Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO); Especialista em Cancerologia (Oncologia Clínica) pela Associação Médica Brasileira; PhD em Medicina (Oncologia) pela Universidade Livre de Amsterdam, Holanda.

 

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